Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

Uma vez, num dia 13 de Maio, um de meus filhos que foi de autocarro de Inglaterra para França parou em Paris na Praça da Bastilha no momento em que ia a passar uma procissão em honra de Nossa Senhora de Fátima, com o seu andor, crianças vestidas de Três Pastorinhos e todos a rezarem o terço em Português e a entoarem os cantares de Fátima. Sem polícias nem bombeiros e sem ambulâncias, naquela praça famosa pelos seus comícios mais ou menos revolucionários. Não era preciso.

Foi em Paris como poderia ter sido em muitas cidades do Brasil, da Suíça, da Venezuela e Nova Iorque ou do Luxemburgo, nas catacumbas da China ou em Macau. E todas sem protecção policial – não era preciso.

Hoje o mundo inteiro reza a Nossa Senhora de Fátima, e não deve haver uma só igreja em que não se venere a sua imagem. Este ano em Fátima estiveram lá peregrinações dos quatro cantos do mundo, até da Coreia e do Vietname, do México e da Venezuela, das Filipinas contra a vontade do tiranete que as desgovernam, das igrejas do colmo das missões africanas… eram um milhão de pessoas fora os muitos milhões que, como eu, assistiram às cerimónias pela televisão.

Uma multidão que responde assim e com uma palavra de perdão àquela meia-dúzia de pseudo-teólogos em cata da visibilidade que nunca tiveram a demostrarem desta maneira que nem Nossa Senhora mentiu aos Pastorinhos e nem estes tiveram visões em lugar de aparições.

Os Três Pastorinhos – Francisco, Jacinta e Lúcia – dos quais Francisco e Jacinta o Papa canonizou no passado dia 13. Os Três Pastorinhos que meu avô materno foi um dia libertar da cadeia miserável em Ourém onde os tinham acorrentado e os levou para nossa casa em Leiria entre os gritos de Talassa dos carbonários que quiseram incendiar.

Penso que a expressão “Fátima, altar do mundo” foi usada pela primeira vez pelo então Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, quando ali foi em peregrinação ao ver centenas de milhares de peregrinos vindos de vários países a cantarem na Procissão do Adeus – “De vós me aparto Ó Virgem / Forçoso é ir-me embora”… Mas, desde a última 4a feira, o Santuário da Cova de Iria em vez de “Altar do Mundo”, passou a ser “O Altar do Mundo”, com aquele milhão de peregrinos – e mais um, Francisco – que como peregrino lá foi também.

Aquele milhão – aqueles milhões teriam lá ido venerar a Virgem mesmo que o Papa lá não tivesse estado e dois dos Pastorinhos não tivessem sido canonizados, como vão sempre em todos os 13 de Maio. A diferença – a diferença quase apocalíptica – está em que desta vez houve medidas de segurança como nunca houvera em Portugal – mais de um milhar de polícias a guardar o Papa e metade da nossa Força Aérea a patrulhar os ares. Mas, o que é isto?! O Papa da Paz, o Papa dos Pobres, o Papa que recomenda aos Bispos que se não deixem ficar no conforto dos seus Palácios e vão à rua para o meio do rebanho e voltem de lá a “cheirar a pobres”! O Papa que sai de noite despido das suas veste pontifícias a distribuir pelos sem abrigo tudo quanto ele recebe pelo exercício do seu múnus. Como no Paris político que tinha nas ruas quase uma centena de milhares de polícias de metralhadora pronta a disparar para proteger as mesas de voto das últimas eleições!? E o mais grave é que agora tanto em Paris como em Fátima tudo passou a ser preciso.

Só o não é em Macau. Onde também, de terço na mão, fomos no passado dia 13 como peregrinos atrás da imagem branca da Virgem da Sé à Ermida da Penha, e em que a Polícia só foi precisa para orientar o trânsito, a cantar em Português e em Cantonense as mesmas quadras simples que este ano o Papa cantou em Fátima – “A 13 de Maio / na Cova da Iria / Apareceu brilhando / a Virgem Maria”.

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.