Jorge Silva*

Jorge Silva*

A tragédia que se abateu sobre Macau, na sequência da passagem do tufão Hato, o mais forte a atingir o território em 53 anos, deixou marcas profundas e lições a reter. Ninguém esperava a força e intensidade desta tempestade tropical que acabou por revelar as debilidades de Macau, das suas infra-estruturas e alguma falta de estratégia das autoridades em situações de catástrofe.

Embora decorra um inquérito sobre as responsabilidades na administração pública na forma como se lidou com o sinal 10 do Hato, a escolha do dr. Fong Soi Kun, director dos Serviços Meteorológicos, como o bode expiatório da situação é um exercício lamentável.

Fong Soi Kun foi um dos melhores directores de serviço da RAEM – honesto, trabalhador, competente, sempre disponível para esclarecer o público e os jornalistas, mesmo em cenários de aperto, em directo e na televisão.

Entrevistei-o várias vezes na televisão e fiquei, sempre, com a melhor das impressões deste homem de coragem, que nunca cedeu às pressões da opinião pública sobre a sinalização dos tufões.

Os inúmeros especialistas em meteorologia de Macau acham que se deve seguir o que Hong Kong decide nesta matéria, de forma bacoca e provinciana. Não estava no território, na altura do Hato, mas pelo que li ou disseram-me, a súbita mudança do tufão levou a que fosse içado o sinal 10, uma surpresa para toda a gente.

Que culpa tem o director Fong Soi Kun de um tufão destas dimensões que matou pessoas e fez estragos enormes? Terão as pessoas tomado as devidas preocupações com o sinal 8? E a destruição de árvores, partes de edifícios, alguns deles modernos ou recentes, tudo isso é culpa de Fong Soi Kun ou das estruturas deficientes que sucessivos governos da administração portuguesa e da RAEM permitiram que se erguessem em Macau ao longo de anos?

Os cortes de água e luz confirmaram o quanto Macau está dependente do exterior, leia-se, continente. A resposta das autoridades às consequências do tufão Hato também não foram tão rápidas como se impunha. A conferência de imprensa do Chefe do Executivo e dos secretários, esta semana, poderá, porventura, mudar a situação em futuros tufões e na resposta às crises ou catástrofes susceptíveis de acontecer.

Que se apurem responsabilidades, mas não num ambiente de caça às bruxas e troféus para exibição. E, futuramente, que seja aberta à sociedade civil e empresas privadas, a tarefa de ajuda e solidariedade e aumentada a vigilância em torno da actuação de companhias de construção e imobiliário, ligadas ao poder, para evitar a fragilidade, notória, de muitas obras no território.

E que, finalmente, saia do papel o plano de reordenamento do Porto Interior, para combater as inundações perante a fúria dos elementos.

 

* Jornalista