O ex-chefe de Gabinete do Procurador apontou ontem para a existência de uma espécie de “sistema de administração” entre Ho Chio Meng e Wang Xiandi, co-arguida que terá obtido benefícios através do antigo Procurador. Segundo António Lai, foi Ho Chio Meng quem quis contratar Wang Xiandi e designá-la para o ajudar nas investigação sobre questões relacionadas com o Interior da China, dando-lhe acesso a processos confidenciais que não estão ao alcance de magistrados

 

Catarina Almeida

 

Wang Xiandi, co-arguida no processo, voltou a ser tema central na sessão de ontem do julgamento do antigo Procurador. Sobre esta parte da acusação, o Tribunal de Última Instância (TUI) ouviu António Lai, ex-chefe de Gabinete do Procurador, que antes de prestar depoimento manifestou “dúvidas” por ser também co-arguido no processo conexo.

Porém, o juiz que preside ao Colectivo, Sam Hou Fai, tranquilizou-o dizendo que, por “não estar acusado sobre esta parte [relacionada com Wang Xiandi] no processo que decorre no Tribunal Judicial de Base, tem a obrigação tem de prestar depoimento”.

Segundo António Lai, a contratação de Wang Xiandi, em 2005, partiu do próprio antigo Procurador que, segundo Lai, também foi quem entregou o currículo. “Ho Chio Meng disse que [Wang] tinha de ser contratada porque dominava o Inglês e podia ajudar nos trabalhos de cooperação”, disse. A versão de António Lai coincide com a do ex-Procurador que justificou a contratação de Wang por esta ser uma espécie de facilitadora em processos de investigação envolvendo personalidades e assuntos do Interior da China. “O antigo Procurador disse que ela ia trabalhar directamente para ele”, contou.

Por outro lado, quanto ao envolvimento de Wang Xiandi em casos que envolvem grandes casinos e dirigentes do Exército Popular, bem como a recuperação de fundos do Reino Unido referentes ao caso do antigo Secretário Ao Man Long, António Lai garantiu a Sam Hou Fai que “nunca viu” Wang Xiandi a fazer esse tipo de trabalho para o MP. “Cheguei a estar duas horas na Autoridade Monetária de Macau porque precisávamos da aprovação de alguns bancos de Hong Kong e do Reino Unido. Ao longo dos 15 anos, trabalhei com outros colegas em várias categorias”, disse.

Para a segunda contratação, de 2010 a 2014, os motivos foram os mesmos, pois, segundo António Lai, Wang “tinha boas ligações com o Interior da China”. Ao tribunal, contou ainda que a assessora – na altura dos factos – tinha acesso a um sistema de pesquisa de processos confidenciais que “nem os magistrados têm”, vincou a delegada do MP.

Segundo a testemunha, não era só Wang Xiandi que tinha esse acesso já que o Gabinete do Procurador contratou outro funcionário que também estabelecia contactos com o Interior da China. No entanto, no final da sessão o ex-Procurador garantiu desconhecer esse sistema de pesquisa interno.

Além disso, o ex-chefe de Gabinete explicou que elaborou a proposta de contratação de Wang Xiandi com base nos documentos e informações cedidas por Ho que também lhe atribuiu um espaço para trabalhar no 16º andar do “Edifício Hotline”.

Em resposta ao Ministério Público (MP), António Lai acrescentou que o tratamento de “confidencialidade” foi igualmente uma informação transmitida pelo ex-Procurador. Aliás, segundo frisou, até existia uma espécie de “sistema de administração” entre Ho e Wang.

 

Dos cheques ao Audi

Quanto à forma de pagamento, António Lai atribuiu a Ho Chio Meng a decisão do pagamento do salário ser feito por cheques. “O departamento de gestão pessoal e financeira não me chamou a atenção, recebia o cheque e o ex-Procurador pediu-me para entregar a outro colega ou a Chan Ka Fai para depositar na conta de Wang Xiandi”, explicou.

A testemunha disse ainda que o presidente do TUI não foi avisado sobre a desvinculação do contrato de Wang Xiandi – quando por lei essa notificação deve ser emitida – pois “Ho Chio Meng disse que não era preciso”. Já no que diz respeito ao pedido de autorização para a contratação de Wang, na qualidade de trabalhadora não-residente especializada, o ex-Procurador garantiu que o Chefe do Executivo autorizou o pedido.

Chan Ka Fai, outro arguido no processo conexo, também prestou ontem depoimento. A testemunha, que trabalhou no MP entre 2000 e 2015, confirmou que levou documentos a Wang Xiandi entre 10 a 20 vezes. Na maior parte dos casos, os encontros aconteciam à porta do Edifício Dinasty – onde funcionam serviços do MP. Nessas ocasiões, Wang conduzia um Audi Branco que a acusação diz ser o mesmo veículo de serviço comprado pelo Gabinete para a transportar, dentro e fora do horário de trabalho, para diversos lugares de Macau, designadamente para o Edifício Nam Van Península, New Yaohan, Posto Fronteiriço das Portas do Cerco, entre outros. No entanto, segundo Chan Ka Fai, só durante o horário de trabalho é que se encontrava com Wang Xiandi.

O julgamento continua hoje.