20141125-05f

Até Outubro deste ano, das 75 amostras de chuva recolhidas 64 foram consideradas ácidas, uma proporção que já vem de anos anteriores em que a precipitação de origem poluente variou entre 88% e 96%. O presidente da Sociedade de Ecologia considera os valores “muito preocupantes” e alerta para as consequências do fenómeno. No início de Outubro chegaram a registar-se chuvas com um pH de 3.9, valor cerca de 100 vezes mais ácido que a chuva considerada normal

André Jegundo e Vivana Chan

Quase toda a chuva que cai em Macau apresenta elevados níveis de acidez e é prejudicial para o meio ambiente e património histórico. Segundo dados dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG), até Outubro deste ano, 85% da precipitação que caiu no território era ácida e a tendência já vem de anos anteriores. A poluição atmosférica é a maior causa do fenómeno que, alerta Ho Wai Tim, presidente da Sociedade de Ecologia de Macau, tem sérios impactos no meio ambiente e no património histórico.

O valor de chuvas ácidas registado em 2014 é, para já, inferior ao de 2013, ano em que 91% das chuvas foram ácidas. Mas isso não significa a situação esteja a melhorar, explica Crystal Chang, directora do Centro do Ambiente e Clima da DSMG, uma vez que 2014 tem sido um ano “menos chuvoso que 2013”.

Sempre que chove, os SMG recolhem amostras para analisar a acidez (valores de pH inferiores a 7) ou a alcalinidade (valores de pH superiores a 7) da água. Até Outubro, das 75 amostras de chuva recolhidas em 64 foram detectadas águas ácidas.

Desde 2009 a percentagem de chuvas ácidas tem variado entre 88% e 96% e este ano, no início de Outubro, já foram registadas chuvas com um pH de 3.9, um valor cerca de 100 vezes mais ácido que a chuva considerada normal: se água pura apresenta um pH de 7, em condições climatéricas normais a chuva regista habitualmente um pH de 5.6.

Ho Wai Tim, presidente da Sociedade de Ecologia, considera os valores muito preocupantes para a saúde da população e para o meio ambiente mas, ao mesmo tempo, como um sintoma dos problemas ambientais que afectam o território.

A principal causa deste tipo de precipitação é a presença na atmosfera de gases e partículas com enxofre e azoto, que resultam sobretudo da queima de combustíveis fósseis, e que Ho Wai Tim atribui sobretudo à poluição atmosférica proveniente do Interior da China e em particular da região de Guangdong, que é também uma das mais fustigadas pelas chuvas ácidas no país. “Porém, há outros factores que também contribuem como o trânsito automóvel”, ressalva.

Apesar de ser a estação do ano menos chuvosa, o Inverno costuma trazer os níveis mais elevados de precipitação ácida, uma vez que a queima de combustíveis fósseis aumenta de forma significativa para alimentar os sistemas de aquecimento, aponta o ecologista.

Em Macau, refere Crystal Chang, o fenómeno das chuvas ácidas é mais grave entre Dezembro e Fevereiro, uma vez que nesta altura do ano predominam os ventos de Norte, que trazem muitas substâncias poluentes. Apesar disso, a responsável referiu que apenas mediante a realização de um estudo será possível identificar, com certeza, os factores que têm gerado níveis tão elevados de chuva ácida no território.

Ho Wai Tim sublinha que as deposições ácidas têm um efeito generalizado no meio ambiente, afectando em primeiro lugar as plantas e as árvores e deteriorando também os cursos de água. A corrosão de materiais é outras das consequências imediatas o que, segundo alerta, tem consequências sérias para o património edificado de Macau.

Apesar de ter menos efeitos directos na saúde humana, o ecologista realça que a queda de cabelo tem sido apontada como uma das consequências deste tipo de precipitação.