O Instituto de Menores de Macau (IM) tem actualmente 13 jovens, todos do sexo masculino, enclausurados por vários tipos de crimes, desde ofensa à integridade física, fogo posto ou tráfico de estupefacientes. O estabelecimento garante que tem três objectivos muito específicos para o tempo que os jovens estão internados: disciplinar, aconselhar e apoiar nos estudos, tudo com o propósito de garantir a sua reinserção social quando deixarem o Instituto. Um dos jovens ali internados está a seis meses da libertação e já tem planos para o futuro: completar o ensino secundário, seguir para a Universidade e ser professor primário

 

Inês Almeida

 

Na Estrada de Cheoc Van são poucos os automóveis que passam, mesmo ao início da tarde. A esguia via de alcatrão está ladeada por árvores e ouvem-se pássaros a chilrear. Apenas se avista uma mão cheia de pessoas que caminha na berma da estrada por não existir um passeio, tentando chegar ao centro da Vila de Coloane.

Tudo isto acontece fora dos muros amarelo-pálido do Instituto de Menores, onde estão actualmente internados 13 jovens do sexo masculino. “O Instituto está dividido em duas zonas, masculina e feminina, e temos duas equipas que funcionam independentemente durante 24 horas por dia e fazem a vigilância e supervisão das actividades”, explica Chong Wai Peng, técnica superior e assistente social, ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Cada ala dispõe de três centros: o de observação, o centro educativo e outro de educação e formação, destinado aos jovens que cometeram delitos mais graves.

No interior do IM, reina o silêncio. Está-se em período de aulas. As duas salas do Centro de Observação, destinadas aos jovens recém-chegados, são modestas. As paredes exibem o mesmo amarelo do exterior. No chão vê-se um colchão de esponja verde e uma estante baixa com quatro prateleiras. Há um caixote do lixo e uma pequena secretária com um banco.

Num dos cantos do tecto foi instalada uma câmara de vigilância mas que está sempre desligada, salvo no caso de pessoas com problemas emocionais. “As câmaras só são ligadas com autorização do director e isso é comunicado à pessoa”, garantiu Chong Wai Peng.

Durante o dia, ao jovem ali alojado não é permitido dormir. Tem de se ocupar de outras actividades, como limpar o quarto. De qualquer forma, o menor sujeito a observação não fica sempre ali. “Pode ir ao campo de jogos, sempre sob vigilância de um monitor”.

O Centro de Educação e Formação é mais iluminado, arejado. Os dormitórios são mais coloridos e ao fundo vêem-se estantes onde os jovens podem colocar o seu material escolar, roupas e outros objectos.

Ao lado, numa sala para actividades, podem ver televisão, somente num certo horário e, para tal, têm de demonstrar bom comportamento, classificado semanalmente numa escala de zero a 10. “Todos começam com um cinco, o valor mínimo para poderem ver televisão. Depois a classificação pode ir subindo ou descendo consoante o seu comportamento”, explica a responsável.

As salas de aula ficam num edifício adjacente. São espaços apertados, sem necessidade de serem maiores dada a pequena dimensão das turmas. As mesas têm uma estrutura de ferro pintada a verde escuro e um tampo em madeira clara. Há ainda uma sala com nove computadores que os jovens podem utilizar, uma biblioteca com dezenas de livros.

Ao lado, vê-se um espaço mais amplo, com duas mesas de ténis que os rapazes são autorizados a jogar nos intervalos ou no final das aulas.

Também naquele longo corredor há uma sala de artes visuais, a mais colorida de todas, por estar forrada a desenhos com recurso aos mais diversos materiais. Lá, sentado a uma mesa, de cabeça baixa, focado no trabalho que produzia, estava Samson, nome pelo qual pediu para ser identificado.

Tem 17 anos e é oriundo de Hong Kong. Gosta de jogar futebol e, como tantos outros jovens da sua idade, de videojogos. Era assim que passava a maior parte do tempo, antes de ir para o IM por crime de tráfico de estupefacientes.

“Eu e um amigo, para conseguirmos arranjar dinheiro, costumávamos traficar droga de Hong Kong para Macau e fomos apanhados aqui. Traficámos ketamina várias vezes durante quase seis meses, não sei bem quantas, mas nunca consumi”, explicou Samson ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. Embora tudo tenha começado por influência do amigo, também ele começou a traficar sozinho e a vender a outras pessoas. “Precisava do dinheiro. Não tinha trabalho na altura e havia coisas que queria comprar”.

O processo era “simples”. “Comprava em Hong Kong, guardava a ketamina, e trazia-a através do jetfoil. Depois entregava ao comprador. Antes de chegar recebia uma chamada telefónica e marcava o lugar do encontro para a entrega”, contou o jovem.

Samson está no IM há quase dois anos e meio. Tem ainda meio ano de internamento pela frente.

Questionado sobre se hoje voltaria a cometer o crime, a resposta é imediata: “Não”. “Estou separado da minha família há quase três anos e tenho muitas saudades. Desisti de muitos vícios, maus hábitos. Antes não pensava em estudar ou arranjar um emprego, mas agora é o que quero fazer no futuro”.

A família vem vê-lo, por norma, uma vez por mês. “Agora como estou quase no fim do tempo do internamento, disse-lhes que viessem só uma vez a cada dois ou três meses. Além de despenderem muito dinheiro a vir, os meus familiares só têm um dia de folga por semana e não quero que o gastem a vir cá”.

A família de Samson é constituída pelos seus pais, por si e um irmão mais novo. Nas visitas, costumam trazer-lhe comida, sobretudo bolachas.

 

Um dia preenchido

Às 16:30, hora da conversa com o Jornal TRIBUNA DE MACAU, o dia de Samson já ia longo, apesar de ter sido ligeiramente diferente do habitual. Acordou pelas 07:30, tomou o pequeno-almoço, viu uma parte de uma telenovela e foi para as aulas às 09:00. “Hoje as aulas foram de História e de Geografia”, conta o jovem que frequenta o 10º ano de escolaridade.

Depois das aulas, por volta das 12:10, chega o período de almoço. Às 12:45 pode novamente assistir ao que está a dar na televisão. “Às 14:00 voltei para o edifício educativo para preparar uns cartazes e um PowerPoint para fazer uma apresentação”. No dia 13 de Dezembro há actividades dedicadas à família. A apresentação de Samson vai focar-se na música, uma vez que no IM há um grupo musical.

Nos dias normais, quando não tem mais nada para fazer, joga futebol. “Mas hoje fui aprender artes visuais com a senhora Choi, uma das monitoras”. “Às 17:00 tenho de voltar para o dormitório, tomar banho e preparar-me para o jantar. Às 18:00 volto para o dormitório, arrumo algumas coisas e leio. Normalmente, também vejo televisão, pelas 19:00, mas hoje tenho uma actividade do grupo musical que começa às 18:45”.

O jovem de 17 anos faz parte da banda. Toca teclado. A actividade chega ao fim pelas 19:30, altura em que tem de regressar à zona do dormitório para ver televisão até à hora de dormir, às 21:45.

Samson não tem amigos em Macau fora do IM, mas lá dentro, dão-se todos bem, assegura. “Não somos muito próximos, mas conversamos e ajudamo-nos uns aos outros. Trato os outros como amigos e eles a mim também”. De qualquer forma, mantém contacto com os amigos que deixou em Hong Kong. “Escrevo-lhes cartas. A alguns escrevo mais, a outros menos”, conta.

A seis meses da libertação, o jovem de 17 anos sente sobretudo falta de não poder passar as ocasiões festivas com os familiares, como os aniversários. “Tudo o resto é menos importante”. “Entrei aqui no início de Junho e fui condenado cerca de 20 dias depois. O meu aniversário e do meu pai têm um dia de diferença, o dele é a 27 de Julho e o meu a 28. A minha condenação aconteceu no final de Junho e logo nesse ano não pude passar o aniversário com o meu pai”, lamentou.

Assim que sair do IM, a primeira coisa que pretende fazer é comer uma refeição com toda a família. Num futuro menos imediato, Samson também parece já ter planos definidos. “Vou acompanhar e dar apoio à minha família. Quero continuar a estudar e ir para a universidade para ser professor do ensino primário. Gosto de crianças”, afirma com um sorriso.

 

Disciplinar, aconselhar, reintegrar

Quando abandonam o IM, os jovens não têm qualquer registo criminal. Aos seus processos é dada uma categoria especial e não é fácil ter acesso a eles.

À chegada ao Instituto, os jovens são submetidos a exames médicos, é-lhes feito um “check-up”. Posteriormente, “a directora do IM tem uma entrevista com os recém-chegados para ficar a conhecer o seu passado”, indica a técnica superior Chong Wai Peng.

Depois o caso é atribuído a um assistente social que fica encarregue de o acompanhar. “Este técnico vai entrevistar o jovem e comunicar com os encarregados de educação para estarem presentes numa entrevista. Nos primeiros tempos, os assistentes conversam diariamente com o internado para dar melhor aconselhamento e também falam com a família para melhorar o relacionamento entre os familiares e o jovem”.

A maior preocupação, destacou a responsável, “é a avaliação da situação emocional do jovem para saber se é agressivo, se pode ferir-se a si próprio”. “Por isso, logo no início, é colocado numa sala individual [do centro de avaliação] para facilitar o acompanhamento e não ter logo contacto com os outros internados”. Este período de “isolamento” dura, no máximo, 20 dias.

“Depois de passarem aquela avaliação, são colocados numa sala colectiva. Nos primeiros tempos, o contacto com o técnico e o aconselhamento são muito importantes”, salienta Chong Wai Peng. Para construir uma relação de confiança entre o jovem e o assistente social, há um monitor que assume o papel de vigilante.

A acção dos profissionais do Instituto de Menores, geralmente, divide-se em três partes. “Primeiro há os trabalhos de aconselhamento, depois os treinos disciplinares e as actividades escolares”.

Nesta última vertente, há turmas de ensino primário e secundário. “Temos professores destacados pelas escolas oficiais e os internados, depois de concluírem os estudos, ficam com um diploma que não tem qualquer indicação de que a sua educação foi feita no IM. É um diploma igual ao emitido pelas escolas formais”, referiu.

Quanto ao trabalho de aconselhamento, há um técnico a acompanhar cada caso, desde que o jovem entra até à sua libertação. “Este técnico também faz aconselhamento familiar e mantém contacto com os encarregados de educação”.

Além disso, no IM fazem sessões de aconselhamento colectivo, nas quais os jovens realizam trabalhos em grupo. As actividades são organizadas consoante o passado de cada um, aquilo que o levou a cometer o crime. “São actividades de prevenção do crime, outras para aprenderem técnicas de comunicação ou para planeamento profissional para o futuro. Têm como objectivo constituir um pensamento e uma atitude correctos”.

Por outro lado, frequentemente são organizadas actividades de aconselhamento que incluem as famílias. “Em Setembro tivemos um seminário com os pais e encarregados de educação para conhecerem melhor o comportamento dos filhos aqui na instituição”, frisou Chong Wai Peng. “O investimento na educação ajuda à futura reinserção social do jovem. O importante é construir uma comunicação mais íntima entre o internado e os familiares”.

A par do acompanhamento e aconselhamento psicológico, há actividades de “treino disciplinar” como marcha ou corrida de longa distância “para treino físico além de formação disciplinar”. “Isto também permite incutir uma atitude de obediência”, sublinhou a responsável.

Além disso, uma componente de trabalho voluntário possibilita aos jovens compreenderem a importância de ajudar e dar atenção aos outros. “[Os jovens] fazem trabalho voluntário em creches ou escolas para crianças com necessidades especiais. Exercem funções de limpeza, alimentam as crianças portadoras de deficiência ou brincam com elas”.

Seis meses antes da libertação, começa a ser delineada uma estratégia e um plano para o futuro do jovem. “É feito um plano para perceber se, por exemplo, continua os estudos ou vai começar a trabalhar”, indicou Chong Wai Peng. “Se escolher trabalhar, temos uma colaboração com o Departamento de Reinserção Social e um plano para convidar empresários a fazer entrevistas no Instituto de Menores. Se o internado for adequado [para o cargo] pode ser recrutado ainda aqui para, logo depois da saída, ter um emprego assegurado”.

Além das aulas do currículo regular do ensino secundário, o IM disponibiliza cursos de formação profissional para os jovens se tornarem empregados de mesa ou para adquirirem mais conhecimentos informáticos. “Temos também cursos vocacionais como mandarim, inglês e uma colaboração com o Centro Cultural de Macau para darmos cursos de artes”.

Chong Wai Peng sublinha que o IM tem três objectivos principais “disciplinar, ajudar aos estudos e aconselhar”. “Temos horários muito completos para os jovens. O internamento aqui não é uma perda de tempo. Durante este período, o IM prepara os jovens para a sua reinserção social”.