A sociedade do território tem ainda um “grande caminho” a percorrer no sentido de aproveitar os benefícios que o desenvolvimento económico trouxe para melhorar as condições de vida da população, nomeadamente facultando mais instrução. Quem o diz é o Padre João Lourenço, primeiro reitor do antigo Instituto Inter-Universitário, actual Universidade de São José, frisando que Macau só consegue manter a sua função “muito singular” se tiver uma identidade cultural própria e um lado mais “humanizador”

 

Inês Almeida

 

Depois de ter vivido em Macau desde 1996 até 2003, o Padre João Lourenço, primeiro reitor do antigo Instituto Inter-Universitário, actual Universidade de São José (USJ), regressa ao território com alguma frequência. Desta vez, fá-lo com uma curiosidade em mente: “Estive aqui e, logo a seguir à minha partida, houve a explosão do jogo. Ainda esta manhã [ontem] passeava pelas ruas e fiz esta reflexão: em que medida o progresso económico se tem repartido pela população em geral?”, sublinhou em entrevista à TRIBUNA DE MACAU.

“Parece haver alguma melhoria nas condições de vida, mas ainda há um grande caminho a fazer, aproveitando as benesses que o jogo pode facultar, como mais instrução e qualidade de vida”, defendeu o actual director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa. Aqui entra também o papel da Igreja Católica no território. “A religião católica em Macau vale mais do que aquilo que significam os seus números porque se a identidade católica tem uma percentagem que não é muito elevada, a Igreja tem uma presença nos serviços que presta a todos os sectores da sociedade, não só católicos mas também de outras identidades, quer religiosas, quer sociológicas”.

Tal reflecte-se “principalmente no campo da educação e da assistência àqueles que são grupos populacionais mais fragilizados”, defendeu o Padre João Lourenço. “No Oriente e na sociedade de Macau, as pessoas fragilizadas, no geral, têm uma certa tendência a ficar um pouco esquecidos neste clima de uma certa excitação resultante do jogo e das mudanças”.

A Igreja deve ter também um papel na educação que poderá trazer mais-valias para o território. “A Igreja tem sempre de apostar em boas opções de formação, de internacionalização, por a sociedade local, pelo menos aqueles que estudam, nem sempre depois regressam”. O seu retorno “poderia melhorar a sociedade”.

“Era importante que uma parte significativa dos que vão estudar para fora viessem com novas experiências, ideias e habilitações e pudessem oferecer isso a Macau para que ao poder económico possa corresponder uma mais-valia técnica, científica e de pensamento porque a sociedade gasta muito tempo no passatempo e pouco a valorizar-se”, defendeu o académico, acrescentando que, embora se faça “muito” na RAEM “pode fazer-se muito mais”.

Neste campo, o primeiro reitor do que é actualmente a USJ defende que o Instituto Inter-Universitário foi criado com o intuito de investir nesta área. “Esta Universidade nunca foi pensada para as massas. Também não quer dizer que seja para as elites, é simplesmente uma instituição que privilegia aquele que era o primeiro objectivo [do Instituto] que era que Macau não perdesse a sua identidade, continuasse a ter esta matriz universalista para receber contributos de outras instituições e não se fechar numa espécie de concha local àquilo que são as mais-valias na área da reflexão, do pensamento, das humanidades”.

Esta última parte, “nem sempre é fácil de executar”, mas as instituições que a Igreja tem na área da assistência devem “privilegiar uma presença mais humana, mais humanística, na educação e contribuir para que haja uma reflexão que não tem a ver apenas com as pessoas serem ou não católicas mas tem atenção aos grandes valores da solidariedade, ética, verdade, capacidade de compreensão e aceitação da diferença”, indicou o director da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa.

 

A diferença de Macau

Tal é ainda mais importante “no meio de uma sociedade com uma matriz muito egocêntrica”. “Macau, mesmo sendo pequeno, terá um contributo valioso se for diferente. Vem-se aqui encontrar muitas coisas que não há no Oriente, só no Ocidente, mas ao Ocidente nem todos vão. Portanto, ao virem a Macau, principalmente os residentes da China, podem descobrir um bocadinho da diferença”, frisou o Padre João Lourenço.

“Ser uma região especial só por ter jogo é muito pouco, é preciso ter uma identidade cultural própria e isso passa, nesta sociedade, por esta diferença humanizante e humanizadora”.

O professor catedrático destaca que o território foi durante séculos porta de entrada para a China, Japão e outras regiões e sede do Padroado português porque também era aqui a porta de entrada do Catolicismo no continente.

“Houve sempre uma posição muito pró-activa e muito bem aceite da parte da China porque nunca representou uma atitude colonizadora. A Igreja nunca reivindicou primazia”. “Não existimos para comandar nada, existimos para servir a sociedade e é nesse serviço, ajudando a sociedade a ser mais humana, a formar cidadãos capazes de ter voz activa e a dar contributos positivos, que reside a maior riqueza que pode ter”, sublinhou.

O Padre João Lourenço está na RAEM para dar um curso intitulado “Linguagem e Teologia de São Marcos” entre segunda e quarta-feira, no Paço Episcopal, organizado pela Diocese de Macau. Já quando vivia no território, além do trabalho académico, o professor dedicava-se a dar alguma formação em termos religiosos e teológicos.

“Desta relação de proximidade [com Macau] que continuo a cultivar bastante resultou organizar a minha vida para, ano sim, ano não, vir passar uns dias a Macau e, nessas vindas, solicitam-me sempre que aproveite para dar alguma formação”. Este ano, foi proposto que falasse sobre os Evangelhos.

“Este ano seria São Marcos porque é o Evangelho que acompanha o que chamamos de ritmo litúrgico da Igreja ao longo de 2018”. “Propus fazer esta actividade relativamente alargada para as pessoas que se interessam e tenham gosto pelo conhecimento destas coisas, aproveitando também para as ajudar na reflexão de outras temáticas adjacentes”, destacou o Padre João Lourenço.

O curso incide sobretudo num conhecimento “do que são os textos fundadores da identidade cristã” e em “oferecer às pessoas alguns critérios, pistas e instrumentos para poderem, ao escutar estes textos nas liturgias e celebrações, ter códigos para decifrar o que era uma cultura diferente, que mensagens tinha e como podemos compreender isso em códigos de simbologia de compreensão de hoje”. Fundamentalmente trata-se de um conjunto “de valores éticos e morais que estão associados a uma mensagem como esta”.

O Padre João Lourenço defende que, quando alguém se desloca a um sítio diferente daquele a que está habituado, tem de pensar naquilo que leva para o local mas também naquilo que de lá pode trazer. “É sempre importante, quando vamos a qualquer sítio, termos a ideia do que é que vamos levar. Eu tenho também sempre a ideia do que venho aqui aprender, porque também levamos daqui algumas dimensões”.

“Isto de nos universalizarmos em mais de uma cultura e de um espaço vivencial ajuda-nos a estar atentos a determinados valores e dimensões que a vida tem e nos enriquecem”. Por este motivo, assegura: não lhe é “indiferente” o tempo que passou em Macau ou o período em que estudo em Israel.

“Nas minhas aulas, muitas vezes, os alunos referem que falo destas realidades de uma forma um bocadinho diferente porque alguns [professores] ficam muito nas hermenêuticas da linguagem”. Por isso, garante, “a dupla inserção na vida, que é levar alguma coisa e também recolher uma mensagem, é sempre muito enriquecedora”. Por isso, “venho para recolher algo que o próprio espaço e identidade deste território contribua para o meu enriquecimento pessoal”.