É hoje inaugurada a exposição intitulada “Entre o Olhar e a Alucinação”, de João Miguel Barros, composta por dezenas de imagens a preto e branco muito inspiradas pela fotografia japonesa “deslumbrante” e “muito crua”, nas palavras do autor. A par da exposição será lançado um livro que apresenta as fotografias intercalando-as com imagens de escadas que permitem seguir “caminhos de crer”, nas subidas, e de “desalento”, nas descidas

 

Inês Almeida

 

Um cão que deambula por um descampado, um nevoeiro tão denso que é capaz de fazer desaparecer imponentes estruturas, um olhar, um sorriso, ou umas mãos. Gestos, situações ou até escadas, para simbolizar um percurso talvez não compreensível de imediato. Através da fotografia, congela-se um segundo da realidade e, a partir daí, tudo é possível, inclusive alguma ilusão.

Em “Entre o Olhar e a Alucinação”, João Miguel Barros apresenta imagens a preto e branco, granuladas e com cores muito marcadas, captadas sobretudo durante a noite, após arrumar os códigos que representam o seu trabalho diurno.

Árvore

“Isto é uma surpresa para muita gente porque estou cá há muitos anos e as pessoas conhecem-me mais por outras guerras, mas este é um projecto importante e já começo a ter idade para fazer coisas de que gosto mesmo”, apontou o advogado em declarações ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU.

Ainda assim, a ligação “até prática” com a cultura é já de longa data, tendo em conta que ainda em Portugal João Miguel Barros trabalhou em curadoria de várias exposições, além de ter feito “muita fotografia”. “Mas nunca tive coragem de começar a sistematizar o trabalho que tinha feito e a pensar nele de uma forma mais organizada e esta exposição é o resultado dessa decisão de pegar nas coisas e começar por um princípio”, indicou.

Mesmo já em Macau, chegou a entregar algumas fotografias para exposições colectivas, pouco antes da transferência de soberania, no entanto, essa participação foi “inconsequente”. Agora, já é altura “de começar a olhar” para este tipo de arte de uma forma mais “profissional”, entre aspas, explica João Miguel Barros, porque o projecto será sempre, na sua essência, amador.

A maior parte das imagens foram captadas recentemente e transparecem uma influência “muito grande” de feiras internacionais dedicadas a este tipo de arte e do que é feito no Japão.

“No Japão há muitos fotógrafos e a fotografia japonesa é deslumbrante, é muito crua, dura. A minha está um bocadinho nessa linha e tem essa inspiração, das imagens muito assentes em motivos centrados. Não é a fotografia bonita das paisagens”, sublinhou João Miguel Barros.

O título da mostra, pretende chamar a atenção do público para o facto de, muitas vezes, se andar na rua e olhar à volta sem, de facto, ver o que nos rodeia. “Somos muito descuidados no dia-a-dia. Olhamos muito, mas vemos pouco”, alertou o autor.

Homem velho

“Imagine andar na rua, olha distraidamente tudo o que se passa à sua volta, mas o conjunto do que se vê, muitas vezes, não tem momentos que sejam verdadeiramente diferenciadores, porque o todo é, muitas vezes anónimo, sem personalidade. Mas quando retiramos algo desse todo, quando conseguimos congelar uma fracção de tempo e captar um olhar ou uma situação mais anormal dentro da normalidade, é possível ver coisas absolutamente fantásticas”, defendeu.

Nesse sentido, “Entre o Olhar e a Alucinação” tem objectivo de mostrar que, a partir do momento em que conseguimos congelar um determinado “clipe da realidade”, “tudo é possível”, sendo que, “de algumas coisas facilmente chegamos à alucinação”.

 

Uma história contada pelas imagens

Quando se fala do que é politicamente correcto na fotografia, indicou João Miguel Barros, pensa-se sempre na lógica do ‘storytelling’, isto é, a fotografia é uma “sequência de imagens que conta uma história e a história só fica completa quando a fotografia que está atrás pode justificar a que vem à frente e a que está à frente se explica depois de se ter visto a anterior”.

Nesta mostra, pretende enveredar por um caminho diferente, que se pauta por “cada fotografia, per si, poder ser uma história”, sem precisar de uma antes ou depois. “O espectador é perfeitamente livre de poder olhar para uma fotografia e perguntar o que aconteceu antes e depois”.

Apesar disso, a exposição dispõe de “dois ou três núcleos” com alguma sequência entre si. “A exposição está pensada ao milímetro. Tenho os desenhos feitos de todas as paredes e da colocação de cada um dos quadros e têm algumas narrativas comuns”. A título de exemplo, João Miguel Barros explicou que há uma parede com imagens de pessoas e outra com aquelas que considera serem as três imagens mais emblemáticas, incluindo “a do cão” que se vê na capa da exposição.

Leitor

Já o livro, “tem uma intencionalidade na paginação ou na organização sequencial das fotografias que não é expressa e que presumo que pouca gente vá perceber”. Por isso, o autor explica: “o livro está organizado misturando pessoas e lugares que não têm, de um modo geral, nada a ver entre si, com algumas excepções, em que há mais do que uma fotografia que tem a ver com o mesmo contexto”.

Porém, ao longo da obra foram incluídas escadas. “Há várias fotografias de escadas porque elas permitem-nos subir e descer. Permitem-nos seguir caminhos de crer, no subir, ou de desalento, no descer”. “As fotografias vão sendo apresentadas, depois aparece uma escada algures, e depois há outras que já não têm nada a ver, como mãos”.

O livro acaba “com uma imagem muito forte, de uma cara de um homem velho, com um sorriso fantástico e cativante, mas com uma cara muito marcada”, conta João Miguel Barros. A intenção de terminar com esta imagem tem dois motivos principais.

“Primeiro, porque a idade é um marco importante e tem um significado na nossa vida. No Oriente, dá-se um valor à idade que talvez não seja tão bem reconhecido no Ocidente. Começo a caminhar para velho, tenho 58 anos, já passei o meio da linha, e acho que temos de valorizar a idade pelo lado positivo”, indicou.

Depois, também porque “um sorriso é sempre um sinal de esperança”. “Uma pessoa que consegue chegar a uma idade avançada e ter um sorriso luminoso, é sempre uma esperança para o que vem a seguir”.

Se este projecto correr bem, João Miguel Barros pretende publicar um novo livro “com a mesma lógica, com outras escadas pelo meio, com outra pessoa idosa a rir no fim, e com os mesmos critérios estéticos de fotografias a preto e branco, granuladas, com cores muito marcadas”.

A decisão de publicar as imagens num livro deve-se ao facto de este ser menos “efémero”. “A exposição está um mês, depois acaba e não sei o que acontece, mas o livro seguramente vai ficar. Uma coisa é consequência da outra”.

Por agora, a mostra vai decorrer apenas na RAEM, mas João Miguel Barros não afasta a possibilidade de a levar também a Portugal. “Se puder levar para Portugal, levo. Ainda não sei se há essa possibilidade. Vou tentar que isso aconteça mas não tenho nada pensado ou contactos feitos”.

A exposição vai estar patente na galeria da Creative Macau, a partir de hoje.