Filha do amor pela arte e da saudade de Portugal, a marca “Sentidos” entrou no mercado da decoração há seis meses. Os produtos comercializados são feitos à mão, com materiais como o tecido e a cortiça importados de Portugal. A fundadora prevê uma extensão a outro tipo de produtos

 

Salomé Fernandes

 

Têm galos e sardinhas. Portadas de Lisboa e do Porto. Azulejos antigos e legos. Os padrões que preenchem as peças criadas por Inês Fernandes são ilustrações da vida de um mundo ocidental, mas que habita a RAEM através de quem sente curiosidade por saber mais de Portugal.

“Em Macau é muito difícil comprar alguma coisa original, dares mais cor à tua casa, ou um toque diferente, teres um bocadinho de ti, de Portugal, das tuas origens do outro lado do mundo”, explica Inês Fernandes, acrescentando que sempre gostou de arte. A ideia surgiu assim de um misto entre o escape ao comum, e como forma de acalmar a saudade.

Mostrar Portugal de forma original é o resultado de três cabeças. Inês Fernandes, que é licenciada em turismo no ramo de ciências empresariais, conta com o apoio da irmã gémea e do namorado na criação dos conceitos dos produtos. “A mistura dos nossos conhecimentos cria sempre algo de bom”, diz.

Os três têm trabalho para além da marca “Sentidos”, da qual ainda não é possível viver. “É muito nova ainda. É um bebé ainda. Mas é um bebé que começa a andar, o que é bom”, refere a empreendedora.

As almofadas, abajures, quadros, carteiras e mantas criadas por Inês Fernandes, tornam-se em raízes fora de terra. Existem para “dar um pouco de alegria, de cor, um pedacinho da nossa terra”. Mas uma terra de financiamento limitado, visto que, admite a fundadora da marca, a margem de lucro é muito pequena. Apesar de ser um negócio, Inês pensou a “Sentidos” de forma a “que vá de encontro a qualquer classe”.

A dificuldade, segundo explica ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, não reside em abrir uma empresa no território, mas em fazer com que prospere. O investimento inicial na marca ainda não foi recuperado, sendo que os produtos comercializados são feitos à mão, com materiais como o tecido e a cortiça importados de Portugal. “As nossas máquinas são as nossas mãos”, indica a mentora do projecto.

“Não temos apoio de ninguém. O investimento é feito pura e simplesmente do nosso bolso, dos nossos ordenados, das nossas economias. Como é uma empresa muito recente ainda não há margem para arriscar em certas coisas”, comenta Inês Fernandes.

A fundadora da marca explica que  aceitação por parte do público é outro factor relevante, sendo que se há clientes que compram várias peças simultaneamente, também há quem desconfie da autenticidade dos seus produtos. O hábito a preços do mercado chinês leva outros a pedir descontos. Um pedido que os cidadãos portugueses aparentam fazer mais vezes.

No entanto, Inês Fernandes considera que faz um preço justo para a competitividade existente. “Porque se formos ver que é feito à mão, não cobre o trabalho. Não cobre o projecto, não cobre a ideia, não cobre o trabalho de cortar, nem de fazer a montagem”, justifica. Apesar disso, considera que a adesão tem sido positiva e tem em mão ideias novas para a marca.

“Há um projecto para remodelar espaços de uma casa de turismo rural nos Açores, que nos surgiu como proposta e que vai permitir à Sentidos dar asas à imaginação” revela a fundadora da marca. Para além da produção de elementos decorativos que unam o tradicional ao moderno, a “Sentidos” vai abrir uma vertente de decoração infantil para remodelar espaços de criança.

A linha de produtos para criança está a ser pensada para venda ao público em geral também. Para além desta linha, Inês Fernandes revela que vai surgir uma outra, “mais pessoal, não de decoração, mas que também leva um bocadinho dos nossos tecidos”, bem como um enfoque em coisas de Macau.

A necessidade de inovar não pára de borbulhar, com a empreendedora a mencionar também a possibilidade de criar porta chaves e candeeiros de pé.

Os meses em que a marca obteve mais clientes foram precisamente o da abertura e Junho, quando lançou as carteiras e outros produtos novos. Inês Fernandes indica que tem uma procura bastante semelhante entre clientes portugueses e chineses, e que o interesse não se fica por aí. “Temos pessoas de Inglaterra, da Austrália. Muita gente de Hong Kong e filipinos, que foi uma novidade para mim”, descreve.

De momento, a marca vende apenas através do Facebook, visto que a loja onde tinha produtos expostos fechou. Mas, vai marcar presença na Feira de Natal nas Casas-Museu da Taipa.