A selecção de futebol de Macau vai defrontar uma jovem formação da RAEHK e por isso pode discutir o resultado. Nicholas Torrão volta a ser a seta apontada ao golo, mas há outros portugueses na equipa. É a edição número 69 do Interport

 

Vítor Rebelo

 

Há uns anos a esta parte os dirigentes associativos insistiam na ideia de apenas convocar, para a selecção principal de futebol de Macau, uma esmagadora maioria de jogadores de etnia chinesa, ou melhor, muitos dos que estavam “sob a sua alçada” (Sub-23) e que participavam no campeonato da I Divisão.

A situação alterou-se um pouco recentemente, com a chamada de mais portugueses e outros, mesmo que estrangeiros, mas já com Bilhete de Residente Não Permanente e a viver há vários anos em Macau, como é o caso do nigeriano Christopher Nwaurou.

Uma equipa “mais diversificada”, em termos de nacionalidades, foi agora escolhida para representar o território em mais uma edição do Interport com Hong Kong, prova que atinge os 69 anos de existência.

A maior parte dos confrontos foi ganha pela antiga colónia britânica, principalmente quando apresentava a sua selecção principal.

Com o decorrer dos anos e face ao modesto nível do futebol de Macau, Hong Kong começou a apostar em formações jovens para estes Interport, para lhes dar rodagem de competição.

Amanhã a situação mantém-se e Hong Kong vai colocar os seus Sub-21 na frente da selecção A da RAEM, o que pode proporcionar um desafio de maior equilíbrio, tal como tem sucedido nos últimos anos.

 

Vitória há dois anos

Recorde-se que em 2011 Macau foi ganhar a Hong Kong por 1-0, golo apontado pelo português Nicholas Torrão e, no ano passado, perdeu em casa por 3-1, novamente com o jogador do Ka I a fazer o gosto ao pé.

A equipa de Leung Sui Wing apresenta-se sem rotina de futebol de onze, uma vez que a Liga de Elite já terminou há alguns meses e actualmente apenas está a decorrer o campeonato de bolinha.

“Esse factor pode funcionar a favor de Hong Kong, mas se eles se apresentarem, como nos chegou a informação, com os Sub-21, então temos boas hipóteses de discutir o resultado e quem sabe ganhar como aconteceu há dois anos”, palavras de Nicholas Torrão, antes de se iniciar mais uma sessão de treino, tendo em vista o Interport de amanhã.

Habitualmente, quando se desloca ao exterior, com viagens mais longas, a selecção do território fica muito desfalcada, em virtude dos problemas de disponibilidade de jogadores que exercem actividade profissional no sector privado.

“Desta feita não há essa dificuldade, porque é aqui ao lado e ainda por cima em dia feriado. Não estamos completos, é certo, mas quase na máxima força. Penso que pode ser um bom jogo e que podemos repetir aquela vitória de há dois anos.”

Nicholas Torrão tornou-se, nos últimos anos, uma referência no ataque da selecção de Macau, mas algumas vezes também indisponível por causa do seu trabalho.

Desta feita poderá ter a seu lado, se o treinador Leung Sui Wing assim o entender, o nigeriano Christopher Nwaurou e o macaense Iuri Capelo, isto para além da hipótese de entrarem igualmente de início Alexandre Matos, Vinício de Morais Alves e o paraguaio Jorge Galeano.

É provável que nem todos estes “não chineses” tenham um lugar reservado no “onze” que vai alinhar à entrada para mais um Interport, até por uma questão táctica e posicionamento dos jogadores convocados pelo técnico, mas a sua convocação já é um aspecto francamente positivo.

“É uma mais valia para a selecção neste tipo de jogos e principalmente os portugueses dão outro nível à selecção. Há outros que poderiam estar aqui, mas isso é uma questão a que só a Associação de Futebol de Macau pode responder”, refere Nicholas, em princípio com entrada no “onze”, ele que tem já experiência, não só no futebol de Macau como em Portugal, onde esteve alguns anos.

 

Estreia de Matos

Uma das novidades nos seleccionados para o embate de amanhã em Hong Kong, é o jovem de 18 anos Alexandre Matos, filho do veterano Paulo Conde, que muitos jogos fez com a camisola da selecção de Macau, contribuindo mesmo para alguns triunfos importantes a nível internacional.

“Não sei se vou jogar, isso depende do treinador, mas gostava de ter a minha primeira internacionalização. É bom estar aqui na selecção principal e ver que há possibilidade dos jovens como eu de actuarem na equipa. Vamos ver se conseguimos repetir a vitória de há dois anos”, salientou Alexandre Matos, que tem actuado este ano na Bolinha, ao serviço do FC Porto, curiosamente ao lado do seu pai.

Para além destes portugueses e “estrangeiros”, a selecção de Macau conta com os habituais chineses influentes na estratégia da equipa, como são, por exemplo, Leong Ka Hang, Chan Man, Leong Ka Him, Tam Heng Wa, Choi Chan In, Lam Ka Pou, Sio ka Un, Paulo Chiang, entre outros.

 

Jovens de Hong Kong

Hong Kong vai aproveitar, mais uma vez, para rodar os jogadores mais jovens, apresentando este ano os Sub-21, que, apesar da idade, irão dar certamente muita luta ao seu adversário, num troféu que outrora registava maior rivalidade e interesse, ninguém o querendo perder.

Nos tempos que correm o Interport acaba por ser um teste mais real às capacidades de Macau do que em relação a Hong Kong, uma vez que a selecção da RAEM tem menos rodagem internacional e precisa deste tipo de confrontos para dar competição aos seus jogadores, misturando-os com outros de maior experiência.

Como curiosidade, diga-se que estes jogos anuais, com a designação de Interport, começaram em 1937, alternadamente em Macau e Hong Kong, contando sempre com representantes oficiais dos dois lados, que se deslocavam ao relvado para cumprimentar os jogadores das duas selecções e o trio de arbitragem, tocando os hinos de Portugal e da Grã-Bretanha, com as bancadas cheias de civis e militares, em campos como o 28 de Maio/Canídromo.

Os jornais davam grande destaque ao acontecimento e por cá havia sempre grande optimismo, porque a diferença de nível era pequena.

Hoje, com as duas regiões administrativas a pertencerem à soberania chinesa, algumas práticas e entusiasmos já não se verificam, ainda que os dirigentes associativos façam questão de dar alguma “pompa” ao confronto entre os territórios “rivais”.

 

Vitórias nas três primeiras edições

Macau ganhou os três primeiros Interport, entre os quais em 1941 por 1-0, em equipa de que faziam parte Artur dos Santos, António Colaço, Alexandre Airosa, Américo Córdova, Gomes e Delfim de Carvalho. Depois de três anos sem Interport (1942 e 1945), por causa da guerra, a formação macaense perdeu por 3-2, à base de elementos policiais, mas voltou a ganhar em 1947 por 4-2, depois de estar em desvantagem ao intervalo por 2-0. Em 1951 Macau alcançou o resultado mais dilatado (3-0), perdendo no ano seguinte por 4-0, mas desforrando-se em 1953 (3-2), com Augusto Rocha na equipa (viria a representar Portugal no Mundial de 1966, em Inglaterra), assim como Afonso, Francisco Cunha, Luís Cunha, Filomeno da Rocha, Baptista, Alfredo Cotrim, Carlos Paulo, Abel Chung ou João Rocha, orientados pelo capitão Palmela. A partir daí poucas vezes Macau levou a melhor e pode dizer-se mesmo que, de 1956 até aos nossos dias, estes Interport perderam a importância e o impacto que tinham, com Hong Kong a desvalorizá-los, deixando de apresentar a sua principal selecção.