Há 13 meses, Au Lai Chong começou a assumir gradualmente os destinos do grupo Banco Delta Ásia e hoje encara com optimismo as tarefas que tem pela frente, embora reconheça que se trata de uma missão “desafiante” atendendo a que a instituição ainda não saiu da lista das sanções dos EUA e permanece à margem do circuito financeiro global. Em entrevista ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a filha de Stanley Au, líder do Delta Ásia, promete atribuir grande importância à formação dos funcionários e melhoria dos serviços, fomentando a proximidade com a população de um território onde a instituição bancária já opera há oito décadas. “Quero trazer novas ideias para o banco”, sublinha Au Lai Chong, assegurando ainda que a família pretende manter o controlo do grupo financeiro

 

Viviana Chan

 

-Tendo em conta que há quem a veja como muito rebelde, o que a fez mudar de ideias e voltar a trabalhar no Banco Delta Ásia?
-O facto de voltar a trabalhar na empresa da minha família não quer dizer que tenha as mesmas ideias de outros membros. Esta é a segunda vez que integro o grupo financeiro Delta Ásia. Quando terminei os estudos universitários comecei logo a trabalhar na empresa e, naquela altura, a minha ideia era continuar a estudar, em diferentes áreas. Trabalhei então em vários departamentos do banco, numa espécie de estágio em diferentes sectores do grupo, incluindo o ramo bancário e o departamento de investimento e fundos. Mais tarde, decidi sair porque queria estudar mais e conhecer o mundo.

-Depois de se formar, durante quantos anos desempenhou funções no Banco Delta Ásia? E como avalia essa experiência?
-Durante sete anos. Exerci sobretudo funções de estagiária na área de gestão, ocupando-me de trabalhos da linha da frente, e isso deu-me um conhecimento mais global sobre o nível do funcionamento da empresa. Lembro-me que comecei no departamento da banca comercial, onde tinha reuniões com clientes para avaliar propostas de empréstimos. Isso permitiu melhorar a minha capacidade de avaliação, em termos de saber se é razoável emprestar dinheiro a determinado cliente. Quando saí, já estava a exercer funções no departamento de gestão de contas.

-Este percurso significa que tem sido preparada para um dia herdar o banco Delta Ásia?
-O banco é um negócio de família e queremos que passe de geração em geração. Stanley Au dá muita importância à formação de quadros e compreende que os funcionários desejam estudar mais para se tornarem melhores profissionais nesta área. Por isso, os funcionários que revelam potencial têm oportunidades de estudar em diferentes campos. A ideia é dar-lhes a possibilidade de crescermos juntos.

-Após abandonar o grupo financeiro Delta Ásia, onde e como prosseguiu a sua actividade profissional?
-Comecei a trabalhar num Fundo, o que foi algo relativamente novo para mim. Trabalhei 10 anos nessa área em Hong Kong e, apesar de não poder dizer que já sei tudo, penso que aprendi o suficiente. Entretanto, Stanley Au não parava de me chamar de volta para o ajudar e trazer novas ideias para a empresa. Portanto, decidi regressar ao Delta Ásia.

-Ao longo do seu trajecto universitário, estudou finanças ou economia?
-Não. Estudei ciência clínica, um curso mais focado em investigação. Normalmente, os licenciados desse curso vão trabalhar para laboratórios, desenvolvendo estudos científicos.

-O que a levou a abandonar a área que estudou?
-O meu plano inicial era seguir essa via, mas senti que poderia tornar-se mais aborrecida. Ao mesmo tempo, gosto de falar com as pessoas. Essa comunicação dá-me muita inspiração.

-Quando voltou ao grupo Delta Ásia?
-Há um ano e um mês. Actualmente, continuo a trabalhar mais em Hong Kong, mas o grupo financeiro do Banco Delta Ásia tem sempre serviços em Hong Kong e Macau e penso que se podem complementar para funcionar como alavanca. Em Macau, o negócio cinge-se ao banco, mas Hong Kong é um centro financeiro internacional.

-Vai passar a gerir todo o grupo?
-Sim, passo a passo.

-Há um calendário concreto para esse processo?
-É difícil planear essas coisas, por isso, em vez de dizer que vou tomar conta da empresa, prefiro destacar que vou trabalhar em conjunto com os nossos colegas.

-Em que se baseia o serviço da instituição em Hong Kong?
-Envolve sobretudo as áreas do investimento e gestão da riqueza.

-Como encara a responsabilidade de assumir a gestão da empresa? Vai pedir apoio a Stanley Au?
-Ele tem um princípio de gestão segundo o qual, embora seja uma empresa familiar, o Banco Delta Ásia deve ser mais institucionalizado. Aliás, Stanley Au não quer que seja apenas uma pessoa a decidir tudo na empresa. Sem dúvida, continua a ser uma pessoa importantíssima para o grupo, mas temos uma assembleia que pode influenciar a nossa orientação.

-Que tipo de novas ideias pretende implementar no grupo?
-Obviamente, neste regresso, quero trazer novas ideias para o banco. Essa é a minha intenção principal. Por outro lado, espero aproveitar as vantagens que a empresa conseguiu obter ao longo de 80 anos e potenciá-las ou canalizá-las de outra forma. Também pretendo interpretar ideias antigas sob uma nova perspectiva. Quero que as pessoas vejam este grupo como um companheiro do seu próprio crescimento. Atribuímos muita importância tanto aos nossos trabalhadores como aos nossos clientes.

-O Banco Delta Ásia sofreu perdas elevadas após ter sido alvo de acusações e consequentes sanções impostas em 2007 pelos Estados Unidos devido a alegadas transacções ilícitas com a Coreia do Norte. O facto do banco continuar incluído na lista de sanções do sistema financeiro norte-americano e à margem do circuito global dificultará o seu trabalho ao nível da gestão?
-Os nossos negócios em Macau são diferentes dos de Hong Kong. No Fundo onde trabalhei era responsável pelo “marketing” e agora estou a apoiar Stanley Au a tomar conta dos negócios em Hong Kong. Não digo que seja uma tarefa difícil, mas é desafiante.

-Mas, quando estiver à frente da gestão de todo o grupo financeiro, como é que vai encarar este dilema derivado das sanções aplicadas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos?
-Qualquer empresa pode enfrentar dificuldades e problemas. Vou focar-me mais no futuro. Queremos melhorar o nosso serviço e a interacção com os clientes, além de reforçar o sector dos empréstimos. Já estamos em Macau há mais de 80 anos e quero que o banco assuma um papel que acompanhe o crescimento das pessoas locais. Por exemplo, quando as pessoas quiserem poupar dinheiro para casar ou as empresas pretenderem empréstimos para os seus negócios, penso que o Banco Delta Ásia poderá ajudá-las.

-Planeia avançar com algumas medidas em concreto?
-Vamos começar a renovar as sucursais do banco. O objectivo é ter espaços com um “design” mais confortável. Vamos fazer obras, primeiro, na sucursal do Iao Hon. Além disso, queremos transformar a sede do Banco, na Rua do Campo, para reforçar os serviços de gestão de riqueza.

-Quais são as maiores diferenças que encontra hoje em dia entre Macau e Hong Kong?
-Não cresci aqui, mas acho que as pessoas de Macau têm uma relação mais próxima entre si e a sua cultura é única. A cultura portuguesa influencia muito Macau e, sempre que passo pela zona antiga, sinto uma atmosfera europeia. Hong Kong continua a ser totalmente diferente, é um centro internacional de finanças, mais urbano e, por isso, o ritmo de vida é muito mais acelerado.

-Identifica-se mais como uma pessoa de Hong Kong ou Macau?
-De Hong Kong, porque vivo lá há muitos anos. Mas, os meus pais moram aqui, por isso, Macau também será sempre a minha casa.

-Como avalia o desenvolvimento do território nos últimos anos?
-Macau tem mudado muito desde a liberalização do sector do jogo e tornou-se mais conhecido a nível internacional. Além disso, o Governo tem promovido outras áreas, como as indústrias criativas.

-A falta de profissionais qualificados é uma questão sempre presente em Macau. Esse problema também se sente no sector financeiro?
-Não penso que a situação dos recursos humanos seja má em Macau. O nosso grupo realiza, todos os anos, concursos sobre conhecimentos culturais e sociais e já vi jovens de Macau com muito potencial. Por outro lado, Macau tem uma população reduzida e uma taxa de desemprego muito baixa. Quase toda a gente tem emprego, portanto, torna-se necessário ver de que forma podemos atrair pessoas para a nossa companhia.

-O Governo Central tem manifestado interesse em apoiar Macau no desenvolvimento do sector das finanças, nomeadamente, na área da locação financeira. Como vê esta estratégia?
-Os bancos desempenham um papel importante nas comunidades e espero que o nosso serviço possa aproximar-se mais dos clientes. Ao mesmo tempo, queria ver uma maior diversificação da economia local, com o desenvolvimento de outras áreas para além do jogo.

-Acredita que a família Au conseguirá continuar a passar o Banco Delta Ásia de geração em geração?
-Queremos manter o nome do Delta Ásia. Se tivermos oportunidade de continuar a gerir a empresa deste modo, isto é, se tivermos filhos interessados em desempenhar essa tarefa, acredito que o banco vai manter o mesmo modelo de gestão. Porém, a realidade social e outros factores também podem afectar a estratégia da empresa.

-E os seus irmãos manifestam interesse em trabalhar no Delta Ásia?
-Tenho três irmãos. Alguns não trabalham na área das finanças, outros vivem no estrangeiro mas acham que não é a altura de regressar. Para já, apenas eu estou envolvida no banco.

-Hoje em dia, é mais fácil ser empresária ou persistem os preconceitos sociais no sentido de que os cargos mais importantes devem ser ocupados por homens?
-As pessoas não devem discriminar alguém por ser empresário ou empresária, basta preocuparem-se com a área que integram. Compreendo que as pessoas possam julgar que as mulheres devem pensar noutras coisas, mas tanto em Macau como em Hong Kong a posição social das mulheres é elevada.

-No ano passado, concorreu às eleições de um distrito de Hong Kong. Qual foi o objectivo da sua participação política?
-Uma pessoa pode ter diferentes identidades e a minha participação política teve como objectivo cumprir um dever cívico. Aprendi isso com o meu pai, porque ele, além de assegurar o funcionamento da empresa, desenvolveu trabalhos de solidariedade.

-Stanley Au tem sido um dos maiores defensores dos interesses das pequenas e médias empresas locais, liderando mesmo a associação do sector. Também considera que o Governo deve apoiar mais as PME?
-Não conheço muito bem a situação em Macau mas, em qualquer sociedade, as pequenas e médias empresas são importantes para a economia. Embora sejam empresas de menor dimensão, abrangem muitas áreas e essa diversificação é a base de uma economia saudável.