Tristeza e indignação juntaram dezenas de pessoas no centro de Macau na sexta-feira para uma homenagem ao activista chinês Liu Xiaobo. Na AL, Ng Kuok Cheong e Au Kam San também evocaram o papel de Liu na luta pela democracia

 

Liu Xiaobo “estava a lutar pela democracia na China, pelo seu povo, e foi isto que recebeu em troca”. “Uma pessoa que não é violenta, que usa a sua vida para lutar pelo que acredita, recebeu isto”, disse à agência Lusa Mee Fong, de 58 anos, de Hong Kong, referindo-se ao seu encarceramento e impedimento de sair da China para procurar assistência médica para o cancro no fígado.

Sentimento semelhante foi manifestado por Ching, de 39 anos: “Juntei-me à vigília porque respeito muito Liu, as suas acções, que são muito pacíficas. Concordo com o que ele queria fazer”.

Ching, que vive em Macau mas é de Taiwan, diz ter muito presente o papel do Nobel da Paz durante os protestos de Tiananmen, onde negociou a libertação de centenas ou milhares de estudantes. Mas foi a continuação do seu trabalho de promoção dos valores democráticos que veio cimentar o seu respeito.

“A continuação das suas acções por tantos anos, sob tanta pressão do Governo, é algo muito raro. O Governo (chinês) não pareceu disposto a dar-lhe assistência médica adequada. Ele venceu o Prémio Nobel da Paz e acho que devia ter sido muito mais bem tratado”, disse.

A vigília de sexta-feira foi convocada pela Associação Novo Macau (ANM), que fez um minuto de silêncio às 17:35, hora a que as autoridades disseram que Liu Xiaobo morreu. A associação colocou uma fotografia a preto e branco de Liu, junto a uma cadeira onde repousava o “Carta 08”, o seu manifesto democrático, assinado por centenas de intelectuais, que lhe valeu uma condenação a 11 anos de prisão por subversão. Um painel branco compunha a instalação, onde as pessoas podiam deixar mensagens. Em inglês podia ler-se “Mourning for Liu Xiaobo” (“De luto por Liu Xiaobo”).

Izzie, de 25 anos, não conseguiu convencer os amigos a participar, mas fez questão de ir. “Acho que temos de vir aqui e dizer ao Governo que fazer isto não é bom, não é justo”, disse.

Apesar de considerar que Macau “tem algum espaço livre” para divulgar a luta de Liu Xiaobo, Izzie disse que “muito poucas pessoas sabem o que lhe aconteceu” e que a maioria “apenas aproveita Macau e não quer saber nada sobre política”.

Sentada num banco, atenta aos discursos da Novo Macau, uma residente com “mais de 50 anos”, hesitou em falar, mas acabou por aceitar sob anonimato. “Fiquei muito triste, dói aqui”, disse, apontando para o coração. “Só queria estar aqui, homenageá-lo, lembrá-lo por ter lutado pela liberdade de falar”, afirmou, emocionada.

Sobre a fraca adesão à vigília, admitiu que “as pessoas de Macau não querem fazer as coisas muito abertamente, é um sítio muito pequeno, toda a gente tem medo de perder o emprego”.

Questionada sobre se também não sente medo, respondeu: “Também tenho, mas não muito porque já tenho idade para não me preocupar. Mas estou satisfeita porque trabalho numa escola e falámos sobre isto com estudantes e professores. É uma escola católica e rezámos pela alma dele. Algumas pessoas ainda têm coração”.

O presidente da ANM explicou que a iniciativa foi organizada para exigir “democracia e liberdade, em Macau e na China”. Apesar de não ter juntado muitas pessoas, a vigília atraiu atenção, já que, localizada junto à igreja de São Domingos, é local de passagem frequente, tanto de residentes como de turistas.

“Acho que muitas pessoas, especialmente os turistas da China, podem não saber da notícia. Somos uma região administrativa especial, temos liberdade de expressão e de imprensa, queremos levar essa liberdade aos chineses e partilhar a história de Liu”, afirmou.

Sulu Sou disse não tomar a liberdade de Macau como garantida. “Perdê-la é muito fácil, preocupo-me com isso. Lutamos por um bocadinho de democracia em Macau e é muito difícil. Perder a liberdade de expressão, de imprensa, a liberdade de não ter medo, é muito fácil”, afirmou.

“Ontem os chineses souberam que Liu morreu e hoje quatro deputados do campo pró-democracia (foram afastados em Hong Kong). Preocupamo-nos que a liberdade se esteja a perder muito rapidamente. É muito triste”, comentou, referindo-se à decisão de um tribunal de Hong Kong de afastar do cargo quatro deputados eleitos pela população (ver página 12).

 

Ng e Au “levaram”

Liu Xiaobo à AL

Também na sexta-feira, Ng Kuok Cheong e Au Kam Sam usaram o período de intervenções antes da Ordem do Dia da Assembleia Legislativa (AL) para manifestar consternação pela morte do Nobel da Paz.

As posições de Liu são no sentido do “progresso do Estado para que os cidadãos sejam livres” e os chineses “devem lutar por este objectivo”, disse Ng Kuok Cheong, enquanto Au Kam Sam considerou a morte do activista um “retrocesso na luta pela democracia e direitos humanos” na China, e apelou para que esse combate continue.

Ng Kuok Cheong pediu também a libertação da mulher do dissidente, Liu Xia, em prisão domiciliária desde 2010 sem qualquer acusação formal, sublinhando não estar em causa com esta posição qualquer “inimizade em relação ao Governo central” da China.

O vice-presidente da AL, Lam Heong Sang, advertiu os parlamentares de que não podem aproveitar o período anterior à ordem do dia para abordar questões relativas à China, em respeito da Lei Básica de Macau e do princípio “um país, dois sistemas”.

Já em Hong Kong, milhares de pessoas participaram na noite de sábado numa vigília por Liu Xiaobo, numa iniciativa que o “South China Morning Post” classificou como uma “poderosa mensagem” dirigida a Pequim.

Na sexta-feira, Pequim disse ter enviado protestos diplomáticos a vários países, entre os quais EUA, França e Alemanha, bem como o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, por “comentários irresponsáveis” sobre o caso de Liu Xiaobo. “Apresentamos protestos a alguns países para mostrar o nosso descontentamento”, afirmou o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Geng Shuang, considerando que as críticas “têm fins ulteriores”, “não têm base nenhuma” e figuram como uma “interferência” nos assuntos internos do país.

As autoridades chinesas garantiram que Liu Xia “é livre”, mas os amigos mais próximos da viúva têm denunciado que não podem contactá-la e que está sob vigilância do regime.

“O governo chinês vai proteger os direitos legítimos de Liu Xia com base na lei”, garantiu Zhang Qingyang, porta-voz da agência de informação do governo de Shenyang, onde o activista morreu. Questionado sobre se Liu Xia poderá viajar para o estrangeiro como pretende, respondeu que a viúva “é livre”, mas que neste momento sente um “enorme pesar” pela morte do marido e as autoridades “respeitaram o seu desejo de não ser incomodada”.

Estas declarações foram feitas durante uma conferência de imprensa em que se anunciou que Liu Xiaobo tinha sido cremado depois de uma cerimónia “privada” num hospital com fortes medidas de segurança. As autoridades garantem que a família decidiu cremar o corpo e celebrar “um funeral simples”, versão que os amigos da família refutam, assegurando que Liu Xia está sob estrito controlo das forças de segurança.

 

JTM com Lusa

 

Excluído de antologia para evitar

“confrontação desnecessária”

Dois poemas de Liu Xiaobo foram rejeitados pelo editor do livro “500 Poemas Chineses” com tradução em português, lançado em Macau, em 2013. Em declarações à Rádio Macau, Carlos Morais José, da Livros do Meio, sublinhou que era uma “confrontação desnecessária”. O editor explicou que não quis confundir poesia com activismo político num projecto que nasceu para celebrar “uma festa, que são os 500 anos de encontro entre portugueses e chineses”. A obra foi lançada, em 2013, pela Livros do Meio, editora de Carlos Morais José, em parceria com a Casa de Portugal em Macau, com o apoio do Instituto Cultural. Segundo a Rádio, a informação de que dois poemas de Liu Xiaobo tinham sido recusados foi revelada por António Graça de Abreu, escritor e tradutor, convidado a seleccionar poemas para a antologia. Carlos Morais José disse ter optado por não usar os poemas de Liu porque o dissidente “era considerado um criminoso pelas pessoas que estavam a pagar o livro”. Garantindo que a decisão foi individual e que não sofreu qualquer pressão, explicou que “o dinheiro vinha da Fundação Macau, do governo chinês”, pelo que não quis “estar a fazer problemas a quem estava a dar o dinheiro, sabendo que esses problemas iam acontecer”.