Consulta sobre Plano Geral do Turismo atraiu 1.185 opiniões
Consulta sobre Plano Geral do Turismo atraiu 1.185 opiniões

Os cidadãos que participaram na consulta pública sobre o Plano Geral do Turismo mostraram-se maioritariamente contra a construção de parques temáticos em Macau, devido à concorrência regional e problemas de espaço. Por outro lado, a ligação do território ao mar e à costa foi frisada por diversas vezes como sendo um ponto forte a desenvolver, bem como exaltada a necessidade de museus, espectáculos e espaços de convívio para famílias

 

Liane Ferreira

 

Entre Maio e Julho de 2016, a Direcção dos Serviços de Turismo (DST) levou a cabo uma consulta pública ao Plano Geral do Turismo, tendo sido recolhidas 1.185 opiniões.

A maioria dos participantes manifestou-se em relação aos recursos e produtos turísticos (30,1%), flexibilidade e desenvolvimento de áreas urbanas (17,4%), bem como exploração de potenciais mercados de origem e de visitantes de qualidade (10,6%).

No entanto, um dos pontos que desperta especial atenção é a natureza das opiniões sobre a construção de parques temáticos no território. Entre as posições manifestadas, destaca-se a associação “Este-Oeste Instituto de Estudos Avançados” que rejeita totalmente a criação de um parque temático internacional em Macau, por já existir uma forte concorrência de Hong Kong, com a Disneylândia, e de Hengqin, com o Chimelong. Para além disso, frisa ser necessário muito terreno e aponta como preferível a aposta na complementaridade regional por forma a facilitar as visitas a esses parques.

Um cidadão considerou mesmo “irrealista e inviável” um espaço dessa natureza, igualmente devido à concorrência, ao frisar que sete dos 20 melhores parques na Ásia encontram-se nesta região do mundo. Para além disso, enfatizou o facto de Macau possuir uma população muito pequena que não suportaria uma infra-estrutura deste género.

Por outro lado, alertou para o impacto negativo que os parques temáticos nos escassos recursos humanos existentes. Em contraponto, sugere a criação de um centro de entretenimento para famílias e desenvolvimento das zonas costeiras com jardins, áreas de descanso e comércio, como o “Puteri Harbour”, na Malásia.

Um professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau também se mostrou desfavorável, dizendo que não é preciso um parque de grandes dimensões, sendo mais importante que seja fechado, devido ao clima local, e ofereça uma experiência única.

Um representante da imobiliária “Jones Lang La Salle” também chamou a atenção para a concorrência e sustentou ser necessário analisar os recursos físicos a investir apenas num parque.

Aqueles que se manifestaram a favor, defenderam que preferiam a criação de um espaço ligado à cultura e história de Macau, sendo que também há quem privilegie um “museu multifuncional em vez de um parque temático de cópias”.

Aliás, a ideia de museu multifuncional com maior capacidade é repetida no documento, chegando os académicos Penny Wan e Francisco Vizeu Pinheiro a propor um museu marítimo com uma réplica em tamanho real de uma nau portuguesa do século XVI, juncos chineses e embarcações de Macau, como a Lorcha. A dupla de professores relembra que os museus existentes têm 30 anos e é necessário dar aos turistas experiências autênticas com base nas tradições locais.

Neste ponto, a pastelaria Lord Stow’s pede para que os Estaleiros de Lai Chi Vun não sejam totalmente destruídos em prol de uma réplica, devendo apostar-se na requalificação do autêntico.

A pastelaria, que é um ponto turístico quase obrigatório, deixa ainda alguns alertas ao Governo: “Macau deve parar de tratar os turistas como gado”; “o Governo deve respeitar verdadeiramente o património e isso inclui as áreas verdes” e “o turismo de massas não pode ser direccionado para as comunidades, porque compromete a privacidade das mesmas”.

Com sede em Coloane, a Lord Stow’s apela à reabilitação da vila e ao renascimento do molho de ostras típico.

 

Participação abrangente

No relatório de quase 190 páginas, encontram-se também sugestões de jornalistas do Jornal do Cidadão, Hou Kong Daily, Jornal Ou Mun, membros da União Geral das Associações dos Moradores, do Instituto de Planeamento Urbano de Macau, Conselho Consultivo da Zona Central, Associação das Mulheres, Macau Fair & Trade Association, e ainda membros da Comissão de Desenvolvimento de Talentos e Câmara do Comércio Norte-Americana.

Um representante de mercado da delegação da DST em Hong Kong também não se coibiu de participar, afirmando que não existem instalações de divertimento como um parque ou actividades aquáticas (além dos “resorts”). Sugerindo a oferta regular de espectáculos de opera chinesa e de Fado, disse que deve ser encorajado o turismo gastronómico, o sector de congressos, as rotas pedonais, o aluguer de bicicletas, a criação de áreas para piqueniques, descanso e miradouros para ver o pôr-do-sol.

Penny Wan e Francisco Vizeu Pinheiro sugeriram ainda a extensão da linha de teleférico da Guia até à Doca dos Pescadores e zona do Museu de Ciência. Além disso, o edifício da TDM poderia ser convertido num “hotel boutique”, devendo ainda ser melhorada a qualidade da água e areia nas praias.

Vizeu Pinheiro defendeu a utilização pública de espaços como a Fábrica de Panchões e a criação de uma zona pedonal à beira-mar ligando o Porto Exterior à Estátua de Kun Iam e Lagos Nam Van.

 

Operadoras opinam

Entre a vasta relação de opiniões, encontram-se ainda sugestões da MGM e Sands China. Esta operadora diz, por exemplo, ter recebido queixas de turistas indianos que participaram em grandes conferências no sentido de que os procedimentos alfandegários demoram muito tempo. Assim, propõe um canal especial para esses eventos e o reforço da formação dos agentes da Alfândega sobre o atendimento ao turista, porque a primeira percepção afecta muito a imagem de Macau.

A Sands sugere ainda a promoção do entretenimento e eventos culturais, com o Governo a apoiar esta componente, nomeadamente através de importantes cerimónias regionais de entrega de prémios. No mesmo sentido, a MGM indica que seria benéfico ter um calendário regular de festas para os visitantes programarem fins-de-semana e pequenas visitas, como acontece com o Grande Prémio. Um festival anual de gastronomia e artes com eventos trimestrais é a proposta.

Defendendo a integração regional com um itinerário unificado, a MGM diz ser “crucial garantir a complementaridade e não a duplicação” no Delta do Rio das Pérolas.

Curiosa foi a referência da MGM à zona B dos Novos Aterros, ao afirmar que “concentrar os edifícios do Governo na zona B, como foi visionado pela Direcção dos Serviços de Solos, Obras Públicas e Transportes, não beneficia o potencial do local para criar um skyline reconhecido internacionalmente”. Noutro tópico, volta a reiterar que a zona B “está perfeitamente posicionada” e é uma “propriedade imobiliária de primeira” para ser transformada numa orla costeira reconhecida, como as de Sydney ou Xangai.

Com base nas opiniões, o Governo assegurou que vai alterar o plano geral em termos de “reforço do planeamento e promoção de rotas turísticas temáticas; promoção de viagens individuais em iates, passeios de barco de recreio e meio de transporte marítimo e promover adequadamente o desenvolvimento de novas zonas turísticas”.

Par além disso, serão feitos ajustamentos às campanhas promocionais e desenvolvidas estratégias direccionadas às “camadas altas de visitantes”, destacando “as conotações culturais de Macau”.

O Plano Geral do Desenvolvimento da Indústria do Turismo de Macau deve estar concluído em meados de 2017, de acordo com a DST.