Ao longo dos quase três anos à frente da Universidade de São José (USJ), Peter Stilwell reduziu o corpo de docentes, cortou do currículo cerca de 30 cursos, relançou a construção do futuro campus da instituição, tomando decisões que admite poderem ter “ferido” algumas pessoas. Em entrevista ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, o reitor e padre garante que implementou medidas “pelo bem maior” que era “salvar a instituição” e reitera que não agiu motivado por questões pessoais. Habituado a gerir o diálogo inter-religioso no Patriarcado de Lisboa, descreve-se como uma “figura pacificadora”, “capaz de ultrapassar as divisões entre grupos”, que em Macau teve, contudo, “que cortar a direito” logo no início para não prolongar as “agonias”. Assegurando que as contas da universidade foram “equilibradas”, Peter Stilwell acredita que, em breve, a USJ estará “ao nível” do que é oferecido pela Universidade Católica em Portugal
Fátima Almeida
– Assumiu o cargo de reitor há três anos. Conseguiu efectuar as mudanças que pretendia no início?
– Tinha três objectivos que estão intimamente ligados: estabilizar a situação financeira da universidade, garantir a qualidade académica e ver se relançava a construção do novo campus. Não era possível estabilizar financeiramente enquanto não se credibilizasse a universidade e só se credibiliza a universidade através da qualidade académica. A qualidade académica não é completamente visível e se a universidade continuar perdida em andares no meio da cidade, sem ter um campus, ainda se torna menos visível. Conseguimos relançar a construção do novo campus e esperamos que ao longo deste ano venha a ser concluído. Em relação à estabilidade financeira, penso que conseguimos procurá-la ao longo dos últimos dois anos e este ano vamos colher, pela primeira vez, os frutos de termos as contas equilibradas. Mas o terceiro objectivo, ou seja, a qualidade académica, é o mais difícil, uma vez que esta questão se prende com a qualidade dos alunos e dos professores. Prende-se também com algo mais difuso de atingir: criar uma cultura institucional, em que há um brio por parte dos professores em conseguirem que os seus alunos atinjam um determinado patamar de desenvolvimento. Esta parte estamos ainda a caminho de a conseguir.
– Como?
– Em primeiro lugar, para determinar a qualidade dos alunos à entrada já estabelecemos algumas regras. Agora, a qualidade dos professores é uma questão que se prende com a estabilidade financeira, precisamos de ter um quadro permanente de nível internacional, e os professores desse nível só vêm para Macau dar aulas numa pequena universidade, por um vencimento atraente. Temos a crise financeira em Portugal que funciona a nosso favor. Há pessoal na área universitária que ganha mais aqui do que em Portugal. É muito difícil para uma pessoa que está dentro da instituição fazer a avaliação académica, mas tenho a impressão que melhorámos. Contudo, só há uma prova dos nove, que é termos uma acreditação de uma agência internacional que venha avaliar a universidade e ver se atingimos ou não certos patamares, se precisamos de alterar isto ou aquilo. Isso coincide com a exigência que está a ser colocada pelo Governo local, que todas as universidades e instituições devem procurar uma acreditação internacional.
– E a Universidade de São José vai fazê-lo?
– Vamos começar a nível de um programa, que é o da Arquitectura, por razões óbvias. Uma pessoa, quando sai do curso de Arquitectura, não lhe basta o curso para poder profissionalizar-se, é preciso que o curso seja reconhecido pela sociedade profissional dos arquitectos. Estamos a ver se fazemos a acreditação deste curso através de Hong Kong. Mas, depois não poderemos seguir uma acreditação curso a curso porque é um processo longo. Teremos que avançar para uma acreditação institucional, ou seja, em que uma entidade venha cá e avalie a universidade como tal. Julgo que estaremos em condições de iniciar uma acreditação desse tipo quando tivermos o novo campus. Neste momento se viesse uma equipa internacional, uma das primeiras coisas que nos diria é que as nossas instalações não são as ideais para uma universidade. Dentro de pouco tempo penso que estaremos ao nível daquilo que, por exemplo, a Universidade Católica oferece em Portugal, a qual em determinados cursos entra nos rankings internacionais.
– Quando chegou a Macau disse que queria fazer uma “poda” na universidade. Teve que despedir muita gente?
– Não era uma questão pessoal, de me dirigir contra esta ou aquela pessoa. Quando cheguei não tinha os dados que me permitissem fazer juízo sobre pessoas. O que tinha era a consciência que a Universidade cresceu muito rapidamente. Começámos como uma instituição para mestrados, doutoramentos, e pós-graduações e, a certa altura, o professor Rúben [Cabral] olhando para aquilo que estava a acontecer em Macau ao nível do ensino superior – o surgimento da Universidade de Ciência e Tecnologia, o crescimento da Universidade de Macau, o desenvolvimento da população, que procurava cada vez mais o ensino superior – achou que era importante alargar o nosso ensino para o nível das licenciaturas e passar de instituto para uma universidade, e isso significou criar cursos. Houve uma fase de grande criatividade em que foram lançados cursos muitos diversificados. E o que eu entendia por “poda” era olhar para esses cursos e seleccionar aqueles que nos pareciam ser os mais importantes do ponto de vista estratégico. Se um curso começa com 10 alunos significa que, provavelmente, no segundo ano terá seis, no terceiro ano quatro e dois alunos no quarto ano. Mas, tendo dois ou 40 alunos, preciso do mesmo número de professores e vou ter um curso que desequilibra completamente as contas da universidade. Eu e a minha equipa, depois de analisada a situação, chegámos a fechar cerca de 30 cursos. Alguns deles tinham uma mão cheia de alunos dispersos ao longo dos anos. Ainda estamos a fechar alguns desses cursos, em que há alunos a terminá-los ou a entregar dissertações que estavam “penduradas” durante alguns anos.
– E ao nível dos professores?
– Ao nível do quadro de docentes houve uma selecção que naturalmente aconteceu por consequência de fecharmos os cursos. Pessoas cujos contratos terminaram. Houve um número significativo que saiu, mas pelo seu próprio pé porque tinham interesse em ir para outros lados, ou então por indicação do conselho executivo, decisão que depois assumi. Hoje em dia temos um quadro residente mais restrito. Estamos ainda a fazer uma análise do nosso quadro e tentar avaliar o equilíbrio entre aqueles que são os docentes permanentes e os visitantes, porque muitas vezes os visitantes são uma mais valia – trazem uma riqueza e outra visão que tem muito interesse – mas se não houver um quadro residente estável que acompanhe os alunos e dê o contexto de cultura institucional, a riqueza dos professores visitantes perde-se um pouco.
– Referiu que não houve questões pessoais nas mudanças efectuadas. Mas, sente que as pessoas consideraram estas decisões como uma perseguição ou ataque pessoal?
– Quando o senhor Patriarca de Lisboa me chamou, e é ele o chanceler da Universidade (embora com a nova lei, estatutos, a proposta que fizemos ao Governo é que o chanceler venha a ser o Bispo de Macau), disse-me que havia uma crise em Macau com a Universidade e informou-me que tinha 15 dias para fazer as malas.
– Não lhe deu alternativa?
– Perguntou-me se eu aceitava e eu disse: ‘se o senhor Patriarca diz que precisa eu estou à sua disposição’. Portanto, cheguei cá com a indicação que a universidade estava numa situação grave, da qual não se sabia a extensão dessa gravidade. Que havia muita coisa que se dizia nos jornais, mas que não se podia acreditar em tudo; muita coisa que se dizia nos bastidores, mas também não se pode acreditar em tudo. E disse-me: ‘vá e veja o que consegue fazer para estabilizar esse projecto que é único para Macau e importante para a igreja local e para a sua rede de ensino’. Cheguei com uma urgência. Não viria com oito anos pela frente, mas com quatro. A minha idade já indicava que, ao terminar o meu mandato, – que será algures no próximo ano, ainda que possa ser estendido mais um bocadinho – teria 70 anos, que é a idade da jubilação. Em quatro anos teria de colocar a situação em condições para que outra pessoa pudesse tomar as rédeas e levar isto por diante. Por isso, não havia que andar por aí a perguntar se isto é assim ou assado, tinha que tomar as medidas necessárias e dolorosas e essas é melhor tomá-las no início do que andar a prolongar as agonias. Fiz o possível para ajuizar a situação com objectividade e imparcialidade e tomei as decisões pelas quais sou responsável. Mas, não foram de modo algum tomadas decisões por não gostar de determinada pessoa. Naturalmente, se eu estou numa instituição e chega um novo reitor, olha para o meu contrato e me diz que termina daqui a dois meses, eu fico aborrecido, vou ter que encontrar outro sítio, e acho que até valho alguma coisa, que fiz bom trabalho, e provavelmente fiz, e provavelmente até há alguma injustiça no olhar deste novo reitor. Percebo que as pessoas se sintam feridas, mas a questão era salvar a instituição. E, para salvar a instituição alguém iria sentir-se ferido ou a instituição desabava e todos se sentiam feridos.
– Como lidou com essa multiplicidade de sentimentos?
– Gosto de me dar bem com as pessoas e, portanto, escolhendo a minha opção sou uma pessoa que não cria conflitos. Fui sempre uma figura pacificadora no Patriarcado de Lisboa onde era responsável pelo diálogo inter-religioso, tinha óptimas relações com a comunidade judaica, muçulmana, por isso, tenho experiência que me diz que sou capaz de ultrapassar essas divisões entre grupos. Por natureza não é meu feitio cortar a direito e ferir as pessoas, mas aqui era uma tarefa que me era entregue e um dever que tinha de cumprir e tinha em vista o bem maior, que era o bem da Universidade de São José e da Igreja Católica de Macau e não o benefício para sair daqui com uma medalha ao peito. Portanto, fiz coisas que nunca tinha feito na vida: foi ter que olhar para os números e as condições objectivas e dizer que tem que se cortar a direito aqui e ali. Eu disse: não há possibilidades e estas coisas na universidade não se podem fazer às pinguinhas; tenho de perceber se este curso é viável ou não. E cortado agora o curso ainda vai durar mais quatro anos até fechar. São decisões que ficam comigo. Um dia as pessoas farão uma avaliação e dirão: foi bruto, podia ter feito de outra maneira, melhor. Isso cabe à história julgar. Eu tive que julgar no momento da decisão.
– Um dos casos mais polémicos foi o despedimento do professor Eric Sautedé. Este também é um despedimento entendido pelo bem maior da universidade?
– Mantenho aquilo que disse. Tinha opções para tomar em relação à universidade, sobre casos individuais não me pronuncio. Já não faz sentido que o reitor se pronuncie sobre esses casos individuais, uma vez que a pessoa não está aqui para responder. É evidente que todas as pessoas que foram despedidas ao longo deste tempo terão razões de queixa. Procurámos seguir tudo aquilo que estava previsto na lei, mas se sentiram que foram mal tratadas o lugar próprio é protestar junto das instituições da universidade, da Fundação Católica, do chanceler. E, no caso de sentirem que a lei não foi cumprida, há os tribunais e a Direcção dos Serviços para os Assuntos Laborais. Já correu muita tinta sobre isso, se calhar tinta demais… se as pessoas forem olhar um dia para o que escreveram nos jornais hão-de sentir, perceber e ver o contexto.
– De todas as decisões que teve que tomar há alguma que lhe cause arrependimento?
– Quando sair escrevo as minhas memórias. Neste momento é a minha responsabilidade e não vou estar a lamentar, a encontrar desculpas ou formas de me colocar melhor ou pior diante da opinião pública. As decisões são tomadas por quem tem que as tomar. Infelizmente, às vezes são desagradáveis para as pessoas, mas decisões, sobretudo numa universidade, não se tomam por causa da opinião pública. Somos escolhidos pelos responsáveis da universidade e temos que prestar contas a essas pessoas e às entidades que investem na universidade como a instituição que para elas é importante: neste caso são a Igreja Católica, a Fundação Católica e a Universidade Católica.
– Do lado da Igreja Católica qual é a vontade para o desenvolvimento da universidade, tendo em conta que propuseram ao Governo que o bispo local seja o chanceler, ao invés do Patriarca de Lisboa?
– A norma geral para as universidade católicas é que o seu chanceler seja o bispo local. Neste caso, como foi criada num período de transição com forte apoio da Universidade Católica Portuguesa pareceu, que no contexto político, social e eclesial da altura – 1996/1997 – o mais seguro para garantir a estabilidade da instituição fosse optar pelo chanceler da Universidade Católica. Já lá vão quase duas décadas. Entretanto a universidade estabilizou e está a ganhar agora raízes locais; então é natural que seja o Bispo de Macau. Podemos contribuir muito para a Igreja Católica. A Diocese em geral tem ao nível primário e secundário uma grande fatia das escolas locais e hoje em dia, à medida que Macau vai qualificando o seu ensino, necessita da melhoria e formação dos seus professores. Portanto, faz sentido que seja feita ao nível do ensino superior.
– Ensina no curso de Teologia, cujos alunos vêm maioritariamente do exterior. Macau pode socorrer-se das pessoas que vêm de fora para assegurar mais párocos?
– A Diocese tem que fazer uma opção, olhar para o seu clero ver a sua idade, observar o que é o processo das vocações. Ler um bocadinho da história de Macau mostra-nos que essas opções não precisam de ser diferentes daquilo que foram no passado, em que Macau não tinha vocações locais – tinha algumas, mas não as suficientes para servir a comunidade local. Era uma Diocese que se estendia daqui a Malaca, Singapura, Timor-Leste. Se a Diocese disser que vamos precisar de vocações, vamos a Portugal, ao Myanmar, à Coreia, a Timor-Leste ver se há jovens que queiram vir para Macau não só para estudar Teologia, mas para se tornarem padres para a Diocese local onde vão ter que aprender cantonês, mandarim, conhecer a cultura. É uma decisão da Diocese que não podemos interferir. O que podemos garantir é termos um curso de grande qualidade. Neste momento, quem mais está a usar este serviço são os padres e as irmãs dominicanas e é muito interessante não só o facto de serem os dominicanos em si mas as irmãs [dessa Ordem] que representam quase 50% do nosso corpo discente nesta área. Com uma formação que antigamente se dava apenas aos padres estamos a formar também irmãs. Estamos a valorizar o sector feminino dentro da Igreja, o que vai ter uma consequência de longo prazo.
– Estaremos também a pensar na mudança da figura do padre como homem?
– No Vaticano, o Papa João Paulo II colocou uma indicação que esta não era uma matéria a discutir para a Igreja Católica, por isso, não é por aí. Sabemos que na História, nos séculos XVI e XVII, quando os missionários europeus e os primeiros padres de origem chinesa se tornaram presentes na China, surgiu o problema da envangelização e do baptismo do sector feminino, porque o mundo das mulheres e dos homens estava separado. Surgiu um grupo daquilo que hoje em dia chamaríamos mulheres consagradas que davam catequese e faziam o baptismo no sector feminino. Há aqui uma tradição curiosa no Oriente e estamos a voltar a essa situação.
– Em termos da relação com a China, soube-se que estão à espera de uma resposta para a vinda de párocos…
– Temos um sector de estudos religiosos e claro que tínhamos todo o interesse que esse sector tal como os outros fossem frequentados por alunos que viessem da China Continental, assim como há estudos religiosos nas grandes universidades na China. Mas não é isso [a vinda de párocos] que nos preocupa. Interessa-nos em parte por uma questão de sobrevivência – a juventude apta para entrar no ensino superior está a diminuir em Macau e as grandes universidade locais estão a crescer, por isso, fica-nos uma fatia cada vez mais estreita. Para a nossa sobrevivência precisamos de mais [sítios] onde ir recrutar alunos. Já do ponto de vista de identidade é porque Macau foi sempre o lugar de encontro de culturas, com o colégio de São Paulo, o Seminário de São José. Para isso, é preciso que haja uma autorização do Governo Central, do seu Ministério da Educação, que diga que a universidade é aceitável, para que os alunos que se candidatem possam receber um visto para estudarem cá. Este caminho não está fechado. No ano passado, foi-nos dito para esperarmos enquanto não temos capacidade para acolher os alunos em termos de residência, de segurança e ligámos isso à questão do novo campus. Precisamos de completar as instalações e tenho esperança que depois isso vá acontecer.
– O que aconteceu com o campus para demorar tanto a ser construído e se falar em mais investimento, sob pena de algumas obras ficarem suspensas?
– A proposta de construção da universidade foi feita em 2006 ou 2007, passaram quase 10 anos e nesse tempo registou-se um crescimento de construção em Macau. Houve ali um soluço em 2008 e 2009, em que as coisas sofreram um abalo por causa da crise internacional, mas depois continuou tudo de vento em popa e com a construção dos empreendimentos no COTAI os preços subiram em espiral. Aquilo que era uma obra que custaria 300 e tal milhões de patacas em 2006, em 2011, quando assinámos o contrato passou, não digo para o dobro, mas para um valor substancialmente maior. Se o apoio dado pelo Governo hoje em dia fosse o montante estimado em 2007 estávamos ainda longe em termos de fundos públicos. O Governo local diz apostar no ensino superior e tem feito investimentos nas nossas congéneres e não só nas públicas, por isso, considerámos que fazia sentido – se vissem que temos valor local – que houvesse investimento na Universidade de São José. Dissemos que precisávamos de ‘x’ para completar a obra.
– Esse montante foi concedido?
– Estamos a caminho de o conseguir. Houve um apoio importante. Temos sido bem tratados pelo Governo, agora temos que cumprir as regras que eles nos põem em termos de efectuar os pedidos. Caminhamos optimistas de que vamos completar a obra ainda este ano.
– Apesar de ter apoio financeiro do Governo, a USJ sente que já há essa autonomia académica e não existem pressões?
– Essa é uma questão que se coloca em todos os países e em todas as universidades, sobretudo às universidades públicas que todas elas recebem… pergunte em Portugal qual é a pressão que sentem as universidades que recebem do erário público. É natural que quando uma instituição pública dá dinheiro a outra instituição, seja ela pública ou privada, a sua responsabilidade é garantir que o lugar onde esse dinheiro é investido sirva para o bem público. As regras que se seguem para garantir a autonomia académica nessas circunstâncias são as seguintes: estabelecem-se critérios objectivos para todo o ensino superior, em termos de normas publicadas pelo Governo e depois procura-se aferir o funcionamento da instituição. Há um outro elemento, que já mencionei, para garantir que as instituições atinjam determinados patamares de qualidade, mas que isso não seja através da ingerência dos poderes públicos, mas das garantias de uma instituição independente. É nesse sentido que o Governo está a trabalhar. E estamos a colaborar para que se faça a acreditação através de agências internacionais.




