Thomas Lim, realizador, actor e guionista, está em Macau para leccionar um curso sobre guiões ao estilo de Hollywood. Em Abril, estará de regresso para gravar o seu segundo filme com o território como pano de fundo, depois de “Roulette City” em 2012. Ainda sem nome, o novo trabalho será um thriller psicológico “sobre como a obsessão leva à loucura”. Em entrevista ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, defende que o Festival Internacional de Cinema de Macau deveria ter uma secção de filmes locais, embora reconheça serem necessárias mais longas metragens para tal acontecer. Para além disso, considera que o território precisa de mais produtores e mentores que orientem os cineastas no sentido de perceberem como funciona o sector

 

Liane Ferreira

 

– O novo filme que vai começar a gravar na RAEM em Abril já tem nome?

– Tinha um nome, mas descobrimos que é igual a uma marca de roupa japonesa, por isso, estamos a ver se vamos usá-lo ou não. Ainda não encontrámos uma combinação tão boa como a original. Estou a escrever agora o guião. Temos duas personagens principais, uma delas é representada por Sally Benson e é sobre um trabalho de prostituição elaborado como um esquema para apanhar um político corrupto. Tem três personagens: um homem de Macau de meia idade, que ainda estou à procura, uma actriz japonesa com quem já trabalhei no Japão e Sally Benson. É um thriller sobre como a obsessão leva à loucura e deixamos de ver claramente.

 

– Onde irão decorrer as filmagens?

– Ainda não sei, nesta viagem estou a tentar ver locais. Mas, estou interessado em Coloane, porque é mais silencioso. Na Península há sempre barulho de fundo e isto aprendi com “Roulette City”. Preciso de dois apartamentos e gosto do aspecto das casas em Coloane e das vielas porque a textura faz-me sentir muitas coisas. Nunca gravei em Singapura porque a cidade é muito macia e limpa, não me inspira muito. Terei de gravar algumas cenas na Península ou mesmo no COTAI, porque a história continua a ter como pano de fundo Macau como cidade de jogo. Muitas pessoas e cineastas locais têm relutância em usar Macau como cidade de jogo, ficam na defesa porque não querem que Macau seja visto apenas dessa maneira e eu concordo. Mas, não sou a melhor pessoa para fazer isso, os cineastas locais é que têm esse papel. De fora as pessoas vêem Macau como eu, por isso, temos de usar os recursos existentes e não tentar evitar propositadamente porque não gostamos. Vou tentar o melhor para fazer cenas que só podem acontecer aqui. A atracção de Macau é que tem muitas histórias para contar que ainda não foram contadas, especialmente em filme, e visualmente é muito rico, tanto de dia como de noite. Também é pequeno, por isso, é fácil viajar de um lado para o outro, poupamos muito tempo e muito dinheiro, porque podemos gravar mais no mesmo dia. Este filme vai ser todo gravado em iPhone, acho que vai ser o primeiro feito assim na Ásia.

 

– Quais são as dificuldades que antevê nas gravações?

– Acho que Macau carece de algumas “soft-skills”, mas desde que estejamos preparados não há problema. Por exemplo, queria gravar com uma câmara que se chama “magia negra”, mas é muito cara, por isso pensámos em alugar e falei com uma produtora local, que encontrou uma numa empresa de talentos, que nem sabe quanto cobrar. Tornou-se tão complicado que colocámos a ideia de parte. Aqui não encontramos coisas que facilmente descobrimos noutros sítios. Julgo que desta vez vou estar mais preparado para as dificuldades. Escolhi Macau porque os benefícios serão maiores do que as limitações que me poderiam impedir a gravar.

– O panorama cinematográfico em Macau está a melhorar?

– É um processo, lento, mas está a acontecer. Espero que o apoio do Governo tenha tido impacto, porque permite às pessoas fazerem filmes. Não é que não haja concorrência em Macau, mas é fácil obter a atenção que um filme precisa e acho que os cineastas têm de ter isto em consideração. Quando muitas pessoas pensam assim, pode-se chegar a um nível vibrante e saudável. Está melhor do que antes, mas ainda é lento. Macau faz muitas curtas metragens, mas precisa de mais longas metragens, ou seja filmes com cerca de 90 minutos. Quando fiz parte do júri de um festival japonês quis recomendar filmes de Macau e tive um encontro com representantes do Centro Cultural que me deram um monte de DVD’s e confirmaram a ideia de que havia demasiadas curtas metragens e muitas com comprimentos estranhos, de 30 a 40 minutos. As curtas metragens têm de ter 15 minutos, porque com 30 ou 40 minutos os festivais não conseguem colocá-las entre as longas metragens para fazer os blocos de duas horas de exibição. São longos demais. Fazer apenas o que queremos é algo muito imaturo. Pelo menos metade do filme tem de ter em conta outras situações, por exemplo se poderá ser inserido nos festivais.

 

– Isso quer dizer que há falta de orientação, de mentores?

– Sim. Este tipo de conhecimento vem exactamente de pessoas com experiência que fizeram filmes de 40 minutos e foram rejeitados por serem muito longos. Também acho que Macau precisa muito de produtores, uma posição que não existe de todo cá. Ser director, actor ou editor é a parte sexy do trabalho, mas ser produtor, embora seja sexy no nome, na realidade quer dizer que se tem de fazer o trabalho mais duro, incluindo reunir o dinheiro e resolver problemas no “set”. Em Macau há uma grande falta de produtores que escrevam propostas e arranjem financiamento. O problema não é a falta de dinheiro e se existissem mais produtores haveria mais incentivos e esperança para aqueles que escrevem poderem realizar os filmes. Depois de fazerem o guião, as pessoas pensam então o que é que faço com ele? A quem entrego? Isto é muito importante, porque os cineastas e as pessoas em volta do filme têm de se manter animados, caso contrário afecta a confiança de quem faz o filme. Mentores na forma de produtores seriam muito importantes cá, mas não sei como fazer para que surjam em Macau. Em Los Angeles estou a ter aulas de produção para perceber como funciona o negócio. É preciso conhecer o negócio, caso contrário vivemos no nosso próprio mundo. Não sei se aulas ajudariam em Macau.

 

– O que o fez gostar de Macau e continuar a voltar?

– Comecei a minha carreira em 1999 em Singapura e conheci um grupo de teatro de Macau, que está agora no topo da carreira. Continuei a estudar e fui para a China, onde fui actor, e quando decidi vir embora para ser cineasta, Macau surgiu como uma escolha possível, porque não me queria afastar de todo da China, onde ainda tinha contactos e oportunidades. Na altura, Hong Kong era muito caro e eles [membros do grupo de teatro] encorajaram-me a vir para cá filmar. Sinto que existem muito poucos filmes feitos por cineastas locais em Macau. Para além do público de Macau, Hong Kong e Taiwan, o resto do mundo ainda não viu um filme do território. Esta é uma das maiores razões porque filmo em Macau, que é muito rico em textura visual e atraente para as audiências. Cada filme deve ter algo com o qual as pessoas se relacionam imediatamente e Macau tem essa vantagem. O nome de Macau está a crescer, especialmente na Ásia, mas [as audiências em geral] não sabem nada sobre o território.

 

– Planeia voltar a filmar cá depois deste filme?

– Espero voltar a filmar em Macau em 2018, um filme de terror. Consigo imaginar facilmente alguns sítios assombrados em Macau, que é um sítio óptimo para fazer este tipo de filmes. Como “set” de filmagens é um dos sítios mais atraentes onde estive e faz-me imaginar histórias. Para além disso, cineastas locais não farão filmes de terror em Macau.

 

– Como antevê o futuro Festival Internacional de Macau, recentemente anunciado?

– Li na Variety que o Festival será feito por americanos, que segundo parece encontraram alguns problemas na China. Macau é um sítio diferente onde têm a liberdade de fazer o que querem. No artigo, não li nada sobre uma secção para realizadores locais, como acontece normalmente nos festivais, já que um dos objectivos destes é apoiar a comunidade local. Para além disso, [os festivais] normalmente são 50% financiados pelo Governo. É um bocadinho decepcionante, mas ao mesmo tempo ‘são precisas duas mãos para bater palmas’. É preciso haver produções de Macau suficientes para justificar uma secção local, pois não se pode ter apenas duas a competir uma contra a outra. No final de contas, tudo passa pelos realizadores locais que precisam de fazer mais filmes, antes de pedirem uma secção de Macau.

 

– E porque é que não há mais filmes locais?

– Muitas pessoas em Macau, e noutros sítios, dizem que não há apoio suficiente, mas a maneira de mudar disso é mostrarem que vale a pena serem apoiados. Se depois disso ainda não for suficiente, então têm uma razão para questionar porque é que não há apoio quando já mostraram resultados. O Governo de Macau é muito diferente de há 10 anos e oxalá que o panorama cinematográfico local melhore de acordo com isso e ambas as partes possam elevar o patamar. Gostava que a presença de Macau no festival viesse a ser reforçada, por exemplo com apresentadores locais. Isto para que o festival seja algo que tem de acontecer devido a todo o apoio concedido e à vibrante atmosfera, e não um evento que por acaso se realiza aqui. O festival também recebe a atenção e o apoio que precisa do Governo, porque não há concorrência em Macau.

 

– Em suma, os cineastas locais precisam de ser mais proactivos?

– É um problema de atitude e mentalidade. Agora podemos fazer um filme e editá-lo num iPhone. Não há desculpa se forem cineastas novos, com poucas responsabilidades na vida. Há sempre razões para não filmar, mas também há para o fazer. Temos de usar as nossas limitações e torná-las em pontos fortes, em vez de deixar que isso nos pare. O facto do Governo apoiar é bom, mas se os cineastas não têm capacidade, será que sabem usar o dinheiro? Não tenho a certeza de quanto está a ser dado, mas acho que deve rondar 100 a 150 mil dólares americanos (800 mil a 1,2 milhões de patacas), valor que é apropriado para o nível da cidade, e até é demais porque muitos países nem apoios concedem. Os cineastas também devem escrever sobre o que os apaixona, não sobre o que lhes interessa, caso contrário daqui a três meses gostam de outra coisa e perdem o interesse. Isto é um projecto a longo prazo porque são precisos no mínimo dois anos para fazer um filme. Para além disso, os cineastas têm de olhar para o panorama em geral, por exemplo, como chegar à audiência.

 

– O que é o que apaixona actualmente?

– Escrever. Para já, o thriller psicológico que vai ser gravado em Macau e depois o filme de terror, porque é um género de que gosto como espectador e porque pode generalizar-se facilmente. Tenho 38 anos e quero fazer disto o meu meio de vida. Muitos cineastas não vivem à custa dos seus filmes, mas de outras coisas à volta deles, como dar aulas. Gostava de fazer filmes que me ajudassem a ter uma vida confortável. Quero fazer um bom filme de terror, mas é difícil porque tenho de pensar numa ideia que nunca tenha sido concretizada. Ao mesmo tempo, estou a pensar no mercado da China, onde os filmes de terror são proibidos. A China baniu géneros que Hong Kong fazia muito bem, como filmes de horror, zombies, gangsters e policiais, porque nos filmes com polícia de Hong Kong os oficiais de topo são sempre os vilões e na China não se pode dizer isto, porque a polícia é sempre boa. Os realizadores de Hong Kong que vão para a China não se dão muito bem, porque não podem trabalhar naquilo que são bons. Para além disso, não conhecem a cultura chinesa tão bem como os realizadores do Continente. Tenho de perceber a minha situação na Ásia, o que o mercado quer e o que posso fazer.

 

– Quais as grandes diferenças entre os estilos asiático e de Hollywood em termos de filmes e guião?

– Em termos de guiões, em Hollywood há uma estrutura tripartida com princípio, meio e fim. Já na Ásia até ouvimos falar de realizadores que filmam sem guião ou actores que dizem que gravaram tudo, mas tiveram de regravar porque o guião não era bom. Na América não se ouve isso, porque o investimento é feito com base na força do guião e das estrelas. Actualmente nos EUA é muito difícil ter investimento, ao contrário da China Continental, onde é muito mais fácil. A China está a mudar rapidamente e há quem diga que as receitas das bilheteiras vão ser mais elevadas do que as dos EUA em 2017. Isto vai mudar o cenário cinematográfico, a não ser que algo aconteça em termos políticos. Nos EUA estão agora a fazer filmes para o público chinês, daí os “remakes” dos “franchisings” que as audiências chinesas conhecem mas nunca viram nos cinemas. Por exemplo, conhecem o “Terminator” mas até ao ano passado só o viram em filmes pirata. O desempenho do filme não foi bom nos EUA, mas não se importam porque sabiam que o alvo era a China. Há um enfoque muito grande no Mundo, mas principalmente na China e isto muda os conteúdos dos filmes de forma clara, porque nunca poderemos ter um vilão chinês.

 

– Qual será o impacto na região dos estúdios de cinema que estão a ser feitos em Zhuhai?  

– Não sei qual o formato dos estúdios, mas se construírem um “set” que parece a Cidade Proibida ou um palácio mesmo que numa escala menor, vai aumentar a actividade em Zhuhai. Provavelmente haverá mais produções de Hong Kong a filmarem lá, bem como chinesas e mesmo coreanas ou americanas que precisem desse tipo de cenário. É bom, primeiro para as pessoas que vivem lá, porque vão recorrer a figurantes locais e animar a região. Também aumentarão as hipóteses de pessoas em Macau gravarem em Zhuhai ou contribuírem com outros serviços.