Em quase oito anos, mais de um milhão de utilizadores visitaram o blogue Macau Antigo. Para o autor, este é o reconhecimento “do mérito” de um projecto que pretende divulgar a história do território. João Botas gostaria de fazer “algo diferente”, porém, “sem apoios é muito difícil”

 

Inês Almeida

 

Ultrapassar a marca de um milhão de visitantes em quase oito anos “significa o reconhecimento por parte dos leitores do mérito deste projecto em que me propus divulgar a história de Macau, tendo por base uma linguagem simples e uma forte aposta nas imagens, com recurso a uma plataforma que chega a todas as partes do mundo”, explicou ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, o autor do blogue “Macau Antigo”.

De acordo com as contas de João Botas, “em média registaram-se 125.000 visualizações por ano, ou seja, todos os meses passaram pelo blogue cerca de 10.500 pessoas, numa média diária de 350 leitores”. Portugal reina em termos de audiência, seguindo-se Macau, EUA e Brasil.

Para atingir este marco, contribui sobretudo “o empenho” do autor e “a qualidade do trabalho apresentado”. “A dinâmica que tento incutir, não só aos conteúdos, mas também à forma, ajudam a explicar a manutenção do fluxo constante de leitores, a par de iniciativas diversas com os passatempos em que os prémios para os leitores são livros”.

A propósito da meta agora alcançada, o autor vai oferecer 80 livros até ao final do ano.

Ao longo destes oito anos de história, houve muitos episódios marcantes relacionados com o blogue, mas João Botas escolhe recordar apenas alguns dos mais recentes. “Dois jovens artistas de Macau, Eric Fok e Wong Ka Long, passaram por Portugal e fizeram questão de se encontrar comigo. Não os conhecia antes. Foi através do blogue. Estivemos várias vezes juntos, visitámos marcas de Macau em Lisboa, e falámos muito sobre a história, mas também sobre o quanto está por fazer em prol da arte em Macau. Foi muito gratificante”, contou.

Outra situação que relembra está relacionada com um norte-americano “tão apaixonado pela história dos Descobrimentos portugueses, que até está a aprender português”. “É leitor assíduo do blogue e, numa viagem a Portugal, contactou-me para trocarmos ideias”.

“Recordo-me ainda das muitas pessoas que me contactam via e-mail, solicitando mais informações sobre familiares já desaparecidos que viveram em Macau e querem saber como era a vida no território numa determinada época”.

“Macau Antigo” abarca o período entre os séculos XVI e XX, sendo “o maior acervo documental online sobre a história de Macau acessível gratuitamente”. “Nos últimos oito anos foram redigidas cerca de 3500 publicações” e apresentadas “mais de 30.000 imagens”. “Além dos 253 leitores registados na plataforma blogspot, o projecto conta com 1718 registos na rede social Facebook”.

A par do blogue, João Botas iniciou um projecto de “recolha de objectos do quotidiano de Macau no século XX”, incluindo postais, moedas, notas, carteiras de fósforos, mapas, livros, jornais, guias turísticos, fotografias, selos, calendários, lai sis, facturas ou bilhetes de espectáculos. “Já reuni mais de um milhar de peças que conto um dia passar para livro e fazer uma exposição”, explicou.

 

Falta de apoios

No entanto, para “almejar algo diferente” seria necessária alguma ajuda. “Sem apoios é muito difícil. Ideias não me faltam e entusiasmo também não, mas já não embandeiro em arco com promessas de apoio que se ficam pelas palavras, nomeadamente de instituições de Macau, públicas e privadas, com responsabilidades nesta área”, destacou, sem indicar nomes.

“Tenho vários projectos em carteira, mas tenho por norma não fazer coisas para o umbigo. Se encontrar as parcerias certas para os concretizar, estou disposto a fazer ainda mais pela divulgação de Macau”, garantiu.

Como exemplo de trabalhos sem destino devido à falta de apoios, referiu ter pronta uma biografia de Manuel da Silva Mendes (1867-1931), com “muito material inédito”. “Cheguei a ir a Macau fazer uma apresentação pública do projecto, surgiram publicamente vários interessados na edição, mas não passaram das palavras aos actos”, lamentou.

O autor solicitou apoio à Fundação Macau (FM) “que concedeu um apoio de 5.000 patacas, na condição de eu lhes oferecer 50 exemplares. Ora, ao preço que estão os livros, e o transporte dos mesmos de Lisboa para Macau, teria de ser eu a subsidiar a FM, e isso é um absurdo, portanto, recusei”.

Outra ideia está relacionada com a história do turismo em Macau. “Apresentei uma proposta à actual directora dos serviços e aguardo uma resposta”, explicou.

João Botas referiu ainda que já várias pessoas lhe disseram que seria “uma excelente ideia fazer uma versão em livro” dos “conteúdos inéditos” que escreveu no blogue e muitos outros que já tem preparados mas ainda não publicados. “Parece-me ter pernas para andar, mas só avanço caso tenha apoios”.