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Associação ficou surpreendida com o abandono do Lam Pak, clube com tradições no futebol de Macau

 

 

Terminam esta tarde as inscrições das equipas para a próxima Liga de Elite, tudo apontando para as desistências de Lam Pak, Kuan Tai e Lam Ieng. A Associação de Futebol de Macau vai ter de preencher as vagas

 

Vítor Rebelo

 

Oficialmente só às 18:30 de hoje é que a Associação de Futebol de Macau saberá ao certo quais os clubes que se irão registar para o próximo campeonato da I Divisão, a designada Liga de Elite.

No entanto, há algum tempo que se vai sabendo nos bastidores da modalidade que aqueles três emblemas não estarão a competir na época que se avizinha, obrigando os dirigentes associativos a procurarem soluções para preencher aquelas vagas.

O JTM contactou elementos directa ou indirectamente ligados às três equipas e ficou a saber que, na realidade, vão mesmo estar ausentes e que a própria Associação de Futebol tem já disso conhecimento, tendo elaborado uma lista de clubes interessados em jogar na Liga de Elite, aplicando os regulamentos normais nestas situações.

“Sim, de facto começámos já a fazer alguns contactos, na sequência das notícias do abandono de Lam Pak, Kuan Tai e Lam Ieng, mas só depois das 18:30 de hoje é que saberemos efectivamente que equipas vão participar. É pena de facto haver desistências, mas cada clube tem a sua forma de estar no futebol e de decidir o que fazer. A partir de segunda-feira iremos então trabalhar no preenchimento das vagas, tentando saber qual a disponibilidade dos clubes que querem estar na I Divisão”, palavras de Daniel Sousa, vogal da Associação de Futebol de Macau, para quem o caso mais surpreendente é o do Lam Pak.

“Trata-se de um clube com história, com tradições, que abandona, mas não podemos fazer nada”, disse.

 

Tristeza para todos

Chan Man Kin esteve como treinador do Lam Pak durante mais de vinte anos. Saiu este ano, aparentemente por divergências com o presidente.

“Tenho saudades do clube, claro e não entendo esta decisão. Estou triste depois de trabalho de tantos anos, mas não posso fazer nada. O Lam Pak vai fazer falta ao futebol de Macau”, afirmou Chan Man Kin.

Um dos jogadores mais ligados ao Lam Pak nos últimos anos é Emanuel Noruega, algumas vezes “desviado” para a equipa irmã, Lam Ieng, que curiosamente também não se irá inscrever.

“Estive ligado ao Lam Pak durante dez anos e é com tristeza que vejo o clube deixar o futebol. É uma equipa com enormes tradições, reconhecido até a nível internacional. Havia muitos jogadores que queriam continuar, mas não sei realmente quais as razões. Fala-se que terá sido por causa das novas regras e de questões relacionadas com a Associação, nada a ver com dinheiro, porque isso nunca foi problema para os patrões do clube”, afirmou Emanuel Noruega.

 

Desfecho inesperado

O brasileiro Timba jogou no Lam Pak na época transacta, ao lado do compatriota William Carlos Gomes e diz que nada fazia prever este desfecho.

“As indicações que foram dadas pelos dirigentes eram de continuidade. O patrão disse-nos para esperarmos, que iria procurar um novo treinador, após a saída de Chan Man Kin. Algum tempo depois tivemos a notícia de que o Lam Pak não ia formar equipa. Fiquei triste, pois trata-se de uma das equipas mais tradicionais, do qual me habituei a gostar. O FC Porto já tinha desistido, agora é o Lam Pak, um dos mais campeões de Macau. O campeonato fica, na minha opinião, mais fraco.”

Dani chegou a vestir a camisola do Lam Pak com a qual foi campeão. “Joguei no clube uma temporada, no Bolão e na Bolinha. É de lamentar este abandono, era um dos grandes do futebol de Macau, perdeu algum gás nos últimos anos, mas ninguém esperava este desfecho. É uma medida drástica cujos motivos desconheço. Se é por não poder acompanhar outros clubes que estão a investir, é pena. Mas isso é o progresso do futebol, o investimento não pode parar. Não é por causa de falta de investimento de algumas equipas que as outras vão desistir. Mas já assistimos noutros tempos a abandonos, como foram os casos de Hap Kuan, Negro Rubro, Wá Seng, Chong Son. Quando o patrão deixa de estar interessado, tudo vai por água abaixo.”

Fernando Silva, agora com funções de dirigente no Benfica, reconhece que tudo isto vai provocar um fosso entre as equipas: “O Lam Pak é uma equipa com história, já existia há muito quando vim para Macau. Se se confirmar vai fazer muita falta ao campeonato, pois era dos mais fortes. Havia cinco que lutavam pelo título e agora irá registar-se um grande fosso entre as principais equipas e as restantes. É pena”.

 

Orçamentos elevados

O outro clube de algum prestígio que abandona é o Kuan Tai, situação confirmada pelo número um do clube, João Rosa.

“Vou apostar mais forte nas camadas jovens às quais tenho estado ligado há vários anos e agora ainda mais com as escolas do IDM. Por isso não tenho muito tempo para me dedicar a sério ao Kuan Tai. Por outro lado, não podemos investir mais na equipa, quando actualmente os jogadores estrangeiros são praticamente profissionais e têm de ser pagos. Os tempos mudaram e nós não temos sponsors, é impossível continuar”, explicou.

João Rosa tomou conta do Kuan Tai em 1997, depois de Fernando Lopes ter lançado a equipa, que subiu à I Divisão em 2003 e só desceu uma vez, em 2008/2009.

“Chegou à altura de nos dedicarmos cada vez mais aos jovens locais. Vou fazer isso noutra equipa, o Ching Fung, na IV Divisão”.

 

Situação invulgar

Fica assim registado o abandono de três equipas da Liga de Elite, invulgar (talvez até inédito) no futebol de Macau, curiosamente numa altura em que há clubes a investir num semi-profissionalismo, em projectos em que alguns jogadores locais têm uma palavra a dizer, como são os casos de Monte Carlo, Ka I e Benfica.

Estes três são agora os grandes candidatos ao título para a edição 2014 do campeonato, que arranca a 17 de Janeiro, podendo esperar-se alguma réplica de outras equipas, em especial o Chau Pak Kei, de Josecler.

Resta aguardar alguns dias pela confirmação do trio de clubes que se vai juntar aos sete que permanecem na Liga de Elite, sabendo-se que haverá equipas que não aceitarão o convite da Associação, preferindo continuar no escalão secundário, por causa do investimento que teriam de fazer.

Sub-23 e Kei Lun, que desceram na época passada, serão os primeiros a ser convidados a permanecer e depois o terceiro da II Divisão a ter a prioridade para subir.

As inscrições terminam hoje para as equipas, enquanto que a nível de jogadores o prazo fecha no dia 10.