Durante quatro anos desempenhou funções diversas na Administração do território. Júlio Meirinhos está de passagem pelo território e contou as memórias que levou de cá, à margem de comentários sobre o plano de desenvolvimento de Macau, que considera inteligente. Enquanto Grão Mestre da Grande Loja Legal de Portugal, segue para a Índia para actividades ligadas à Maçonaria

 

Salomé Fernandes

 

Chegou a Macau em 1986, e ficou por quatro anos, tendo regressado por várias vezes. Júlio Meirinhos regressou agora à zona dos casinos roubada ao mar, tendo comentado que o COTAI é “um surto de desenvolvimento incrível, fantástico”.

“A dimensão do que ali está é uma planificação inteligentíssima de uma Administração que sabe o que quer, que centra aqui um segmento do turismo único, difícil de verificar-se na Europa”, disse o jurista. “Se tivesse caído de paraquedas naquele sítio era impensável reconhecer a cidade”, comentou ainda. Júlio Meirinhos identificou o Istmo, por onde andou numa mota 1300 Kawasaki, por conseguir nessa recta experimentar velocidade. Agora, com a mota vendida a Edite Estrela, também o cenário mudou.

Antigo dirigente do Turismo do Porto e Norte de Portugal, garantiu que é impossível esta dimensão de captação de turismo acontecer em qualquer parte da Europa, e que a vitalidade envolvida no plano de desenvolvimento de Macau merece reconhecimento.

“Mantém-se um aspecto ainda da Coloane mais profunda, bucólica, natural e verde, mas esta intervenção do COTAI é algo de fantástico de modernidade, de vias, de ligação, preparando uma zona e um delta com ligações rodoviárias de dezenas de quilómetros que é algo surpreendente”, comentou.

Um crescimento que não se adivinhava no período em que residiu no território. “Quem estava por aqui, tirando aqueles que planificavam alguma coisa, dificilmente poderia pensar algo parecido. Eu estava no Leal Senado, fazíamos obras, o Canal dos Patos foi uma obra na altura de uma grande revolução que agora é uma obra pequenina, de bairro”, disse. Daí que não acredite que o público em geral ou mesmo dirigentes médios da administração portuguesa adivinhassem o desenvolvimento que Macau veio a atingir.

Um crescimento que, além de ainda não ter parado, como apontou face aos recentes desenvolvimentos no Metro, está a ser feito com a população em mente, acredita. “Está-se a fazer com harmonia, equilíbrio, por forma a que não seja algo penoso para a zona e para os residentes e que seja absorvido suavemente para a qualidade de vida”, considerou Júlio Meirinhos.

Exerceu funções de secretário geral e notário privativo do Leal Senado de Macau, foi Juiz Presidente do Tribunal Administrativo de Contas, bem como docente na Faculdade de Direito de Macau. Quatro anos de actividade intensa no território. Entre eles, fundou  o Instituto Jurídico com outros juristas, como o dr. Júlio Pereira, para estabelecer uma ligação com juristas chineses. “Abrimos portas da mentalidade aos colegas, para que o direito civil fosse uma arma importante neste espaço”, afirmou.

Durante o seu período como Juiz, marcaram-no principalmente os réus julgados por estarem ilegais em Macau, depois de deixarem a família em busca de melhor qualidade de vida. “Sofriam da ausência dos filhos e da mulher para poderem trabalhar, não para fazer crimes, e lhes proporcionar boas condições de vida, e quando eram apanhados obviamente eram detidos e eram deportados”, disse.

Casos que o sensibilizaram porque o seu pai era passador nacional para a França nos anos 60, e o próprio Meirinhos chegou a ser preso na fronteira com a Espanha por estar a ajudar pessoas a fugir da miséria criada por Salazar.

Regressou para a inauguração do Aeroporto de Macau, porque foi o juiz relator do contrato da construção, que só passou depois de rectificado. E tornou a Portugal para abraçar o desafio de voltar a ser presidente de Câmara de Miranda do Douro. Foi para este Trás-os-Montes profundo que de Macau, levou um carro, faxes e maior serenidade.

“Levei uma peça muito grande, de seis metros de comprimento, por dois e vinte de largura, que foi o carro de Stanley Ho, um Lincoln Continental, um carro novo, mas com três vidros partidos e um martelo dentro. E isso constitui um feng shui negativo, de morte, ninguém tocava no carro e eu comprei-o. Arranjei os vidros usados nos Estados Unidos e continua em Miranda do Douro”, comentou Júlio Meirinhos, acrescentando que anda pouco na estrada porque “as ruas têm de ser grandes e costuma-se dizer que é preciso estar com um regador de gasolina por trás”.

A matrícula, MA-99-99, deixou-a cá. Arranjou outra em Portugal, quando recuperou o carro. Uma compra que resultou do seu fanatismo por veículos clássicos, conhecido por um funcionário com que trabalhou no Leal Senado. Daqui levou também um aparelho de fax, em substituição dos telexes, que era então uma modernidade. Ficou por cá o à vontade financeiro para gerir. “Tinha que adaptar a minha administração e gestão aos dinheiros que tínhamos em Portugal, que eram muito aquém do à vontade que tínhamos no Leal Senado”, indicou.

Júlio Meirinhos reconheceu que Portugal teve uma grande evolução depois de aderir à União Europeia, mas que em Macau o poder económico para satisfazer as necessidades dos cidadãos de forma imediata é maior. E que a população portuguesa no território lhe “expressa apreço e simpatia do que aqui tem”.

Quem ficou, mostrou-lhe satisfação com o que foi acordado no processo de transição e indicou-lhe que a China está cumprir o seu compromisso. “E daí a razão de muitos quadros continuarem aqui há 10, 15 e 20 anos, com as saudades à flor da pele com Portugal, mas que continuam aqui por alguma razão”.

O jurista afirma que também ele poderia ter ficado por 30 anos, mas o desafio do povo mirandês chamou mais alto. Depois de, em 1979, se ter tornado o presidente camarário mais jovem do país ao liderar a Câmara de Miranda do Douro aos 23 anos, voltou a ser desafiado para concorrer novamente e não resistiu. “Mas em nada teria sido triste nem mau se eu tivesse continuado em Macau onde me senti verdadeiramente realizado e bem”, sublinhou.

Este regresso a Portugal foi marcado também por uma bagagem política que acredita que lhe deu maior serenidade e uma nova forma de pensar. “Nós fomos forjados um pouco entre a ditadura e a democracia, mas em Macau tive contacto com outro regime, que tem uma pujança fantástica no mundo do crescimento, de determinação, que o povo chinês é capaz de fazer e isso só pode servir para nos ensinar. Por isso eu tenho o privilégio de ter estas visões políticas que sendo blocos diferentes, se complementam”, explicou Meirinhos.

 

A expansão maçónica

Sobre esta breve visita à RAEM, Júlio Meirinhos explicou que foi um desvio numa viagem que serviu para “matar saudades” dos amigos e familiares que cá vivem.

“Estou de passagem, porque vou na sexta-feira para a Índia. Sou, de momento, o grão mestre da maçonaria regular portuguesa e fui convidado pela Grande Loja da Índia para assistir e para reatar relações de amizade, porque querem que a gente venha a fazer uma sessão de loja em língua portuguesa, o que é fantástico”, disse.

O grão mestre afirmou que já existem relações entre a Grande Loja Legal de Portugal (GLLP) e a Grande loja da Índia há mais de 20 anos. No entanto, a proximidade é maior com a maçonaria daqueles que são mais próximos, como o Brasil, por causa da língua. “Mas este gesto é importante porque a Índia tem muitos obreiros. Havendo irmãos na Índia que falam português, aproveitamos este convite para fazer uma sessão de loja em língua portuguesa, o que muito nos honra”, frisou.

Um convite que nunca recebeu da RAEM porque “em Macau, a existir alguma loja, tem de ser em língua portuguesa”, comentou. Até ao momento, são conhecidas duas lojas com ligações maçónicas portuguesas, o Grande Oriente Lusitano, e a Loja Luz do Oriente, embora apenas esta última assuma o designado cariz regular (ou seja, reconhece a existência de um deus embora não se cinja a uma só religião). E reconheceu que em Macau existiram “sempre valorosos maçons, pessoas de grande culto, de grande gabarito, de todos os géneros”.

Em relação à presença de chineses na maçonaria, indicou ser insipiente. “A China sabe da existência da maçonaria, mas ainda é um movimento que não está implementado no continente chinês. Existe a grande Loja da China e Taiwan, mas é em Taiwan. Existirão certamente lojas inglesas na China, mas são relações que funcionam entre a China, os governos e as grandes lojas”, indicou, acrescentando que “não há nada que num Estado soberano possa existir a nível maçónico que não seja por consentimento e aprovação dos dirigentes políticos desse Estado”.

De acordo com Júlio Meirinhos, a maçonaria tem um papel social que não pretende substituir o poder político instaurado. Mas quando as necessidades do povo não são garantidas pelo Governo “a maçonaria não pede licença. Está estruturada, está firmada, e faz o seu papel de solidariedade que é uma das suas obrigações”, afirmou o grão mestre. Motivo pelo qual o aparente crescimento da maçonaria no oriente contrasta com a queda de poder verificada na Europa, que indicou já ter liberdades mais estabilizadas.