O presidente do Instituto Politécnico de Macau acredita que o ensino da língua portuguesa é uma “grande oportunidade” para o Centro Pedagógico dirigido por Carlos André. Para Lei Heong Iok, Macau tem condições para liderar o movimento crescente de ensino de português no Continente, até pela facilidade em trabalhar com as instituições de ensino superior em Portugal. Na abertura do 2º Fórum Internacional de Ensino da Língua Portuguesa na China, que decorre até sexta-feira, a falta de formação de docentes e materiais didácticos foram identificados como os problemas a solucionar

 

Sandra Lobo Pimentel

 

Na cerimónia de abertura da segunda edição do Fórum Internacional de Ensino da Língua Portuguesa na China, o presidente do Instituto Politécnico de Macau (IPM) assumiu que quer liderar o movimento de ensino de português no Continente, sendo “uma grande oportunidade, em particular, para o Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa”, dirigido por Carlos André.

“Quando decidimos criar este centro, já tínhamos em mente as dificuldades e a situação do ensino da língua e cultura portuguesa na China e queríamos contribuir para colmatar esta falta, não só na formação de docentes, como na preparação de materiais”.

Sobre a capacidade de Macau para responder a esse desafio, o presidente do IPM entende que também há melhorias a fazer, mas sublinha a facilidade em “trabalhar com Portugal, concretamente, com as universidades, politécnicos e outras instituições de ensino superior”. Assegurou ainda que “Macau tem condições, o problema é a vontade e depois investir mais”.

Leong Heong Iok revelou que para além de Carlos André, que desempenhou as funções de director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, “o IPM tem outros professores do Politécnico de Leiria e de Lisboa e já convidei outra professora de Coimbra”.

Na cerimónia de abertura, que contou com a presença de Vítor Sereno, Cônsul-geral de Portugal, foi traçado o actual panorama do ensino da língua portuguesa na China e os desafios presentes. Zhao Hong Ling, professora da Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim, entende que o ensino da língua portuguesa se encontra numa fase de necessidade de “amadurecimento”, e não tanto de aumentar o número de universidades que leccionam.

Para a docente, há, contudo, outras necessidades no ensino de português na China. A professora entende que parte do corpo docente precisa de formação contínua, uma vez que “os professores são muito jovens e precisam de actualização de conhecimentos”. “Só com melhores professores podemos formar bons alunos”.

Lei Heong Iok concorda. “A maioria dos docentes que estão a participar têm menos de 30 anos, o que significa falta de experiência. Estes docentes precisam de formação, como frequentar mais cursos de mestrado e até doutoramento, daí a realização deste encontro e do curso de pedagogia”.

“Participei no primeiro fórum e já naquela altura se ouviam queixas de falta de docentes e de materiais de leitura ou audiovisuais e equipamentos. Ao mesmo tempo foram aumentando as universidades que criaram ou vão criar cursos de português, e daí a importância da plataforma que representa este fórum”.

A professora de Pequim também chama a atenção para a falta de materiais didácticos para várias disciplinas. “É um problema que encontrámos há muito tempo. Está a melhorar, mas temos que reforçar os materiais adequados aos alunos chineses”.

O problema adensa-se porque “os professores estão dispersos por várias universidades” e também, identifica Zhao Hong Ling, “não há ainda um organismo onde possamos reunir e discutir um programa”.

Se houver manuais comuns e uniformizados, “é uma forma de estabelecer o nível de ensino para todas as universidades”, mas, por enquanto, “é difícil, até porque o objectivo de cada universidade varia”.

“Outras línguas têm um programa para toda a China”, como por exemplo em espanhol, sendo facilitada a avaliação dos conhecimentos dos alunos. No entanto, sublinha que há professores a preparar materiais conforme o seu critério e os alunos que com eles aprendem, “um sinal de melhoria neste sentido”.

Na sua opinião, o contributo do IPM tem sido importante e lembra que “no ano passado até publicaram manuais”, mas atenta que “a realidade de Macau é diferente”, em especial, o mercado de trabalho que está ao dispor dos estudantes de português. “A China tem muito contacto comercial com África, especificamente, com Angola, e os alunos têm sido enviados para estas empresas que têm planos de construção lá”.

 

Cerca de 70 participantes

Lei Heong Iok contou que a organização deste evento não era para ter cabido ao IPM. O fórum esteve para ser realizado em Dalian, no nordeste da China, decisão tomada em consenso. “Não podíamos ir contra a vontade da maioria”. No entanto, a universidade organizadora contactou o IPM, “há uns meses”, comunicando dificuldades na organização, o que desviou a responsabilidade deste segundo fórum para Macau.

O presidente congratulou-se pela presença do Cônsul-geral de Portugal e outros dirigentes da RAEM e classifica como “não só dever, mas um prazer e uma honra”, que o IPM possa realizar o evento.

Até sexta-feira, encontram-se a participar no fórum e no curso de formação em pedagogia de ensino 70 participantes, 45 docentes vindos de 18 universidades do Continente, e os restantes de Macau, do IPM e dos serviços de educação da RAEM.

Joana Wu, coordenadora do curso de formação e do curso de tradução Português-Chinês da Escola Superior de Línguas e Tradução do IPM, identificou a necessidade de formação, falta de mestrados e doutoramentos como o motivo para que o IPM tenha decidido aliar o curso de formação à organização do Fórum.

“Antes de decidirmos, pedimos informações a outros professores de outras universidades e todos acharam boa ideia”. O professor de linguística aplicada da Universidade de Brasília, José Carlos Paes de Almeida Filho, foi um dos convidados para ministrar o curso que terá a duração de cinco dias. Outra parte da formação será conduzida por alguns professores do IPM, que consiste numa simulação prática de como dar aulas.

 

Executivo quer reforçar cursos para profissionais bilingues

O coordenador do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) garantiu ontem que o Executivo está decidido a reforçar os cursos para profissionais bilingues, noticiou a Rádio Macau. Mas Sou Chio Fai disse que ainda está a ser feita uma análise sobre o tipo de cursos que podem ser criados. O GAES quer cooperar com instituições do território no reforço de cursos bilingues de chinês e português. Nesse sentido, foram contactados o Instituto Politécnico e a Universidade de Macau revelou Sou Chio Fai. Deverá ainda ser feita uma estimativa da procura para os próximos anos, nomeadamente de tradutores qualificados. O coordenador do gabinete indicou que a estimativa será feita através da base de dados dos recursos humanos, tendo em conta o número de pessoas que frequentam ou já frequentaram cursos na área.