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Visitas institucionais do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa revelaram a necessidade de mais formação para quadros docentes de língua portuguesa na China. Para já, o Centro do IPM vai promover um curso intensivo de duas semanas para 26 professores do Continente e pretende produzir materiais didácticos mais adequados para docentes chineses

 

Liane Ferreira

 

Com a conclusão de uma das fases de trabalho de pesquisa “in loco na China Continental, o Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa (CPCLP) descortinou que a grande tarefa deve residir na formação de professores que actualmente revelam um baixo nível linguístico de português.

Em declarações ao JTM, Carlos André, director daquele Centro do Instituto Politécnico de Macau (IPM) revelou que cerca de um terço das viagens de auscultação e troca de contactos institucionais no Continente Chinês encontra-se concluído. O contacto directo com membros de alto nível das instituições de ensino possibilita o estreitamento de laços institucionais e, a um segundo nível, os encontros com os docentes permitem perceber as necessidades destes, que o centro pode ajudar a colmatar. Nesse sentido, a formação e os materiais didácticos foram os temas centrais debatidos nestas reuniões.

Carlos André explicou que é feito “um retrato dos estudantes e do corpo docente”, sejam eles professores de português de origem portuguesa, brasileira ou chinesa, de modo a compreender a situação real. Em muitos casos os próprios docentes revelam níveis de proficiência baixos, pelo que o CPCLP propõe-se a apoiar ao nível da formação.

Às auscultações segue-se agora um inquérito online, para refinar a “leitura” feita, de modo a haver um “diagnóstico perfeito”, referiu o mesmo responsável.

Para já, com vista a atenuar as lacunas detectadas, vai arrancar um curso intensivo de 60 horas, durante duas semanas, que se pretende que seja anual. A turma contará com 26 alunos, um de cada universidade, tendo os formandos de pagar apenas as viagens, uma vez que tudo o resto fica a cargo do IPM.

Para além de Carlos André, que vai leccionar uma componente de cultura e literatura, o programa do curso intensivo será ministrado por duas professoras doutoradas que fazem parte dos quadros do centro.

Carlos André adiantou ainda que tem registado boa receptividade à ideia de avançar para um segundo tipo de formação, a ser desenvolvida numa área geográfica partilhada por um conjunto de universidades durante uma semana.

 

Carência de materiais

A falta de materiais didácticos é apontada como uma das grandes necessidades dos docentes de português. Para Carlos André, é “utópico, irreal e equívoco” ensinar português na China com recurso a manuais e materiais feitos em Portugal, uma vez que “o contexto linguístico onde aprendem a língua é outro, porque um chinês na China não ouve português à volta dele”.

Nesse sentido, o CPCLP pretende produzir materiais em consonância com quem os usa, ou seja os professores, pelo que para isso também é necessário um diálogo contínuo.

Actualmente, existirão mais de 100 docentes de língua portuguesa na China, em 26 a 28 cursos universitários e com “tendência para crescer”.

Carlos André revelou a propósito que três professores do IPM têm um convite formal para leccionar aulas pontuais de língua e cultura portuguesa na Universidade de Xian, estando a ser desenvolvidos também contactos informais com docentes da Universidade de Comunicação de Nanquim.

Sobre o “grupo nevrálgico de Xangai”, que reúne Xangai, Hangzhou e Nanquim, destacou o facto da Universidade de Xangai ter um nível de proficiência linguística muito elevado.

Por outro lado, em Chengdu, outra etapa do périplo pelo Continente, Carlos André entende que “estão criadas as condições para lançar o português”. Na capital da província de Sichuan, ainda não há um curso de português, apenas aulas leccionadas por professores com um ano de formação no IPM.

 

Mudança de paradigma na lusofonia

No rescaldo da deslocação à China, o director do CPCLP sustentou que existe actualmente um “paradigma novo e diferente” no que diz respeito à lusofonia.

Se anteriormente as grandes figuras da lusofonia surgiram ligados à cultura e literatura, o fenómeno que está a acontecer na China, com um crescimento exponencial do ensino do português, está apenas ligado à lei de mercado.

“O mercado é Angola, Moçambique e Brasil e Portugal para chegar a todo este mundo”, disse ao notar que, com base nesta realidade, “podemos dizer que o primordial é falar a língua, ser compreendido”. Embora seja necessário conhecer a cultura, esta “entra subsidiariamente no processo, e a cultura não é a cultura portuguesa”, mas sim a cultura da lusofonia, pois este é o mundo que os novos falantes de português vão encontrar, defendeu o mesmo responsável.

Os novos falantes querem maioritariamente ser tradutores e o facto de terem emprego garantido no final do curso começa a gerar médias de entrada elevadas. Exemplo disso é o caso de Xian, onde o curso de português tem a segunda média de entrada mais elevada no departamento de línguas.

Esta notoriedade do português gerou só na Universidade de Harbin cerca de 156 novos falantes, e em termos gerais os “cursos são bem organizados, com os alunos a estudar durante um ano, num país lusófono”.

Na opinião de Carlos André, esta procura vai continuar, devido ao elevado investimento chinês em países lusófonos, que gera um fluxo de pessoas e, claro, a necessidade de tradutores.