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Às vezes Carlos André pensa que andou “demasiado devagar” até conhecer os “ritmos do território”, mas os passos que deu para a criação do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do IPM permitiram traçar um plano que será possível pôr em marcha em breve ao ter disponível um corpo docente. Nos últimos seis meses, o ex-director da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra lançou um inquérito a todas as universidades chinesas que ensinam Português para conhecer a sua realidade. Em entrevista ao JTM, fala das necessidades de formação na China e frisa que o Centro não vai concorrer com as instituições locais que ensinam Português, mas apostar na qualificação de docentes. Para o académico, o legado deixado por Portugal em Macau é motivo de orgulho e a comunidade deve ser a primeira a preservá-lo

 

Fátima Almeida

 

– Tomou posse da coordenação do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa em Maio. Que planos estão já em marcha para a promoção do Português em Macau e na China?

– O Centro nasceu com três ou quatro objectivos muito claros a que depois se foram acrescentando mais alguns. Hoje já temos um plano razoavelmente bem definido que ainda está em concretização lenta por uma razão: a contratação de pessoal docente demora tempo. Foram submetidas propostas de duas contratações para aprovação da tutela, e quando estiver concluído o processo podemos avançar com um conjunto de acções.  Mas já iniciámos o nosso trabalho, ou seja, o Centro assumiu toda a parte que não é científico-pedagógica das escolas do Instituto Politécnico de Macau (IPM), o que significa que organiza as palestras de língua e cultura portuguesas bem como as intervenções externas. Mas, diria que o trabalho mais importante até agora foi de inventário. Promovemos um inquérito aos docentes e às instituições de ensino superior da China que ministram Português para saber várias coisas: primeiro, fazermos um levantamento mais ou menos completo na grande China; segundo, para saber qual é a situação concreta dos docentes; e terceiro, perceber quais são as necessidades e os problemas com que se debatem.

 

– A que conclusões já conseguiram chegar com esse inquérito?

– As conclusões são francamente interessantes e algumas já conhecidas: houve um explosão – que um professor do IPM chamou de erupção vulcânica – do ensino do Português na China nos últimos seis/sete anos. Há 10 anos havia quatro instituições a ensinar português e neste momento elas aproximam-se das 30, o que significa que em quatro anos ultrapassarão aquele número. Não vejo quaisquer perspectivas de haver um travão a curto prazo. Em segundo lugar, os docentes de português nessas instituições afirmam-se com problemas de preparação. Não vou dizer que são mal preparados, porque seria agressivo e indelicado, mas com problemas de preparação num sentido: tudo quanto cresce rapidamente tem problemas e estes professores formaram-se – a maioria nas instituições mãe, que são a Universidade de Comunicação de Pequim e Universidade de Estudos Estrangeiros – e começaram logo a dar aulas. E mesmo nos casos em que têm mestrado – e curiosamente há quase metade dos docentes chineses de Português na China que já concluíram aquele grau – não são mestrados no ensino do Português como língua estrangeira, porque este é um domínio científico recente e que só existe em três ou quatro universidades em Portugal. O que significa que carecem de métodos, instrumentos de trabalho e sobretudo materiais didácticos. Estes são concebidos para o mundo em geral, mas o ensino do chinês tem características muito específicas. Este é um trabalho que tem de ser feito.

 

– Como?

– Daí termos tomado a decisão de visitarmos todas as instituições universitárias chinesas no sentido de estabelecermos um diálogo e ver onde podemos ser úteis. Já começámos um trabalho com a Universidade de Cantão. O trabalho de visita vai começar no próximo ano civil e vamos poder estabelecer as bases de cooperação.

Os projectos agora estão a começar a multiplicar-se e quando tivermos as professoras a trabalhar com o Centro, que são doutoradas na área do Português como língua estrangeira, daremos o salto que temos de dar para a formação.

 

– São docentes que virão de Portugal?

– Uma será professora visitante, da Universidade de Coimbra – esperamos que o Executivo aprove a sua vinda – e a outra é uma professora da Universidade do Porto cuja contratação resulta de um concurso. Haverá lugar a mais contratações, porque o quadro aprovado pela tutela tem espaço para outras pessoas, uma vez que o objectivo deste Centro é dar formação, que é do que se sente mais falta aqui. Em conversa apercebi-me, contudo, que há alguns equívocos sobre a nossa função, porque várias pessoas pensam que o Centro vai ministrar cursos para as pessoas [que querem aprender português]. Nós não vamos fazer concorrência nem substituir-nos às instituições que no território estão a fazer e a fazer bem feito o que fazem, ou seja os cursos de Português para cidadãos interessados, realizados pela Escola Portuguesa e pelo IPOR. Já tive reuniões com estas duas instituições e foram francamente positivas. O objectivo deste Centro é trabalhar em cooperação com essas instituições e não em competição. Essas instituições têm um problema que é o da formação e nós entramos nesta vertente. Nós pretendemos apenas ter pessoal altamente qualificado para dar formação, porque o que se passa em Macau e na China é a necessidade de preparação.

 

– Essa formação irá resultar em cursos para formar professores?

– Vai resultar em cursos de formação contínua e outros modelos em que podemos caminhar para formação aprofundada com vertente de grau académico.

 

– Que tipo de grau académico está a ser ponderado?

– Refiro-me a mestrados. Vamos caminhar seguramente para mestrados e estamos a estudar uma cooperação nesse campo, sempre assente em parcerias estratégicas entre instituições universitárias portuguesas, o IPM e instituições universitárias chinesas, porque este Centro foi criado com o objectivo de estar voltado para a grande China. O problema de crescimento não é propriamente um problema de Macau, mas da própria China, e é nessa direcção que temos de voltar o nosso olhar.

 

– O objectivo do Centro não é concorrer, mas considera que em Macau existem instituições suficientes para ensinar Português?

– Não posso responder, porque não tenho essa leitura. As instituições com as quais tenho contactado, muito dedicadas ao ensino de Português, são o IPOR e a EPM, e estão a funcionar bem dentro dos meios que dispõem. Se eventualmente for necessário mais podemos entrar nesse campo, mas não é o nosso objectivo imediato. Somos um centro pedagógico e científico, por isso também teremos projectos de investigação.

 

– Recentemente realizou-se a 4ª Conferência Ministerial do Fórum Macau, em que a promoção da Língua e Cultura Portuguesas foi evidenciada. Sente que há essa preocupação ou ainda faz parte apenas de um discurso político?

– Há cada vez mais essa preocupação e uma certa apetência dos cidadãos na aprendizagem do Português. Esta explosão que acontece na China não acontece por acaso, são as leis do mercado que a determina. O mercado lusófono é neste momento o ideal. A China está de facto apostada nessas economias e Macau também fará, necessariamente, parte dessa aposta, já que tem uma situação privilegiada para estabelecer essa ponte. Acredito que as pessoas estão interessadas, umas estarão mais do que outras, mas essa discussão sobre a pertinência do debate político em relação à realidade é sempre aquela velha discussão do ovo e da galinha. Não estou há tempo suficiente no território para poder fazer essa análise. Quero ir conhecendo a realidade pouco a pouco e o que sei é que a EPM tem cada vez mais solicitações no sentido do Português, o IPOR tem as turmas cheias e as escolas luso-chinesas precisam cada vez mais de professores. Se me disser que ninguém fala Português na rua eu não tenho disso uma visão negativa. Macau não é território português e nem sequer de língua portuguesa, é um território onde uma das línguas oficiais é o Português e temos de ter muito orgulho nisso, porque é um legado cultural que Portugal aqui deixou e que o Governo legítimo de cá assumiu. Por isso temos de saber honrar esse legado histórico. Já sinto orgulho de encontrar palavras portuguesas em todo lado ainda que muitas vezes mal escritas. Não posso querer que o Português seja o mesmo que em Angola e Moçambique, porque nesses territórios é língua-mãe.

 

– Ainda assim não seria de esperar que o Português, mesmo que não falado nas ruas, fosse mais vivo e mais bem cuidado?

– Deveremos, nós, que somos portugueses, ter esse cuidado. Nós somos estrangeiros neste território e para honrarmos esse legado devemos fazer esse trabalho. Eu tenciono pensar nisso, não é uma prioridade, mas quero pensar. A mim, claro que não me agrada chegar a um sítio público e às vezes ver que, devido à simples queda de uma letra, está um palavrão em vez de uma palavra. Não é prioritário mas devemos fazer alguma coisa. Ainda assim consigo receber, por exemplo, as contas do banco em Português. Claro que a minha vida quotidiana não passa pelo Português, mas há um caminho aberto e nós não podemos deixar que se feche.

 

– Recentemente o deputado Leonel Alves sugeriu a criação de um centro de línguas para que pudesse agregar todas as instituições. Seria uma boa política ter só uma escola para as línguas?

– Sei que há uma ideia antiga que vai no sentido de criar um instituto para a Língua Portuguesa, uma faculdade, e a qual pudesse resultar numa parceria entre as instituições de ensino superior que se dedicam ao Português e nas quais a Língua Portuguesa tem um peso considerável, nomeadamente o IPM e a Universidade de Macau. Tenho ouvido falar nessa parceria estratégica, mas esse passo não é um passo científico mas político e por isso tem de ser dado pelos órgãos legitimamente constituídos no território. Entendi sempre que me fica mal a mim, como estrangeiro, estar-me a pronunciar. Eu encaro essa ideia com simpatia e sei que o IPM, na pessoa do seu presidente, também a encara assim.

 

– A UM tem um novo campus, que é promovido no sentido de melhorar a qualidade do ensino. A UM vai distanciar-se das outras instituições e o IPM irá, por exemplo, perder visibilidade?

– Não creio. A UM tem a sua estratégia e o seu próprio projecto que assenta muito numa variedade enorme de formações, e o IPM tem o seu projecto que é razoavelmente mais limitado, por isso, não acredito que haja qualquer tipo de tentativa de um ofuscar o outro. Cada uma tem a sua vocação específica e o IPM não vai perder prestígio por outra universidade crescer. E oxalá cresça e cresça em qualidade porque isso será bom para todos nós. O IPM tem a sua tradição de qualidade nesta área do Português e não há dúvida que os melhores tradutores são formados aqui.

 

– Mas que depois não podem continuar a sua formação na mesma instituição…

– Então não podem? Vai haver um mestrado em pouco tempo. Como já foi anunciado vamos ter um mestrado em Tradução através de uma cooperação entre o IPM, a própria Administração Pública do território, os serviços de Interpretação da União Europeia e a Universidade de Lisboa. E portanto é algo de grande qualidade.

 

– Quando é que terá início esse mestrado?

– Estou convencido que não precisamos de esperar muitos meses.

 

– Será possível no próximo ano lectivo?

– Porque não neste? Os mestrados nem sempre coincidem com o calendário lectivo. Acredito que vamos ter condições para fazer funcionar este mestrado, que foi anunciado já há algum tempo. As negociações foram desenvolvidas no tempo próprio pelas várias entidades e estou convencido que não deve faltar muito para essa porta ficar aberta.

 

– A Universidade de Coimbra está a tentar cativar mais alunos chineses, provavelmente para todas as áreas. Será uma oportunidade para formar no âmbito do Português?

– Pode ser. Ontem [quinta-feira] tive uma reunião com o reitor da Universidade de Coimbra e estivemos horas a conversar. Há projectos de cooperação que envolvem a Universidade de Coimbra, portanto, eu conheço a sua estratégia e acredito que seja uma estratégia que possa ser conseguida. A Universidade de Coimbra tem tido muito sucesso no ensino do Português como língua estrangeira. Uma boa parte dos quadros superiores de Macau estudou em Portugal na década de 90. Fui também professor dessas turmas. E por que é que Coimbra tem esse sucesso? Porque conta com quase 100 anos de experiência no ensino de Português como língua estrangeira, foi a primeira universidade a ser acreditada.

 

20131216-101p– Referiu anteriormente que Portugal andou distraído desta realidade. Está a começar a despertar?

– Acho que Portugal está a começar a acordar e já o devia ter feito há mais tempo. Portugal não se deu conta do “boom”  que aconteceu na China no que diz respeito ao Português. Quase ninguém se deu conta, tanto que quando um dia o afirmei foi de imediato publicado nos jornais. E isso despertou algumas consciências. É verdade que temos de fazer esta afirmação com clareza, temos de olhar para este crescimento do Português na China porque é muito original. Numa fase da sua história, o Português já cresceu muito nos EUA, mas esse crescimento estava associado aos interesses científicos e no caso da China estamos a falar do mercado, da lei da economia. Passámos de 200 ou 300 estudantes de há 10 anos para 1.500 neste momento e as minhas projecções levar-me-ão a mais de 2.500 nos próximos 10 anos e, por isso, temos aqui um potencial de crescimento na nossa língua e de afirmação no mundo, pelo que seria uma irresponsabilidade não olharmos para tal com atenção.

 

– O que levou Portugal a ficar tanto distraído?

– Se o crescimento na China é a economia a distracção de Portugal é financeira. Não digo que politicamente tenha passado despercebido. Mas, depois há aqui interesses. A rede do Português no mundo está estabilizada e passa por um conjunto de influências grandes que faz com que haja muitos leitores em diversas universidades na Europa e na América. Talvez devêssemos ter tido a capacidade de previsão deste crescimento na China e ter colocados lá mais leitores suportados por Portugal. Ou então encontrarmos formas mais engenhosas. Acredito que há, neste momento, muitos jovens diplomados em Portugal que aceitariam vir ensinar Português para a China mesmo com os salários baixos que são praticados. São jovens e se estiverem aqui dois ou três anos não enriquecem, mas em Portugal estão no desemprego e assim conseguiriam ganhar currículo e construir a base de uma carreira. Acredito que se for feita um pedagogia neste sentido provavelmente se encontrará uma forma de cooperação com as instituições universitárias chinesas muito mais proveitosa do que simplesmente deixarmos que as coisas aconteçam. Se não tivermos intervenção continuaremos a ter falta de formação.

 

– Depois deste tempo a trabalhar no projecto quais são as suas expectativas?

– Continuam bastante altas. Às vezes, ponho-me a pensar que andei demasiado devagar, e reconheço isso, mas não conheço os ritmos do território pelo que tive de os aprender e isso leva muito tempo. Numa coisa que é nova todos os passos que dou estão condicionados pela novidade. A partir do momento que se faz um retrato que passa pela formação não há passos possíveis sem que tenha corpo docente, não posso fazer sozinho esse percurso de formação. As bases estão lançadas. Está ainda em curso o processo de alargamento da área de Português à Biblioteca do IPM, ou seja, há uma proposta de aquisição de muitos livros, o que significa que haverá um enriquecimento no que diz respeito à literatura, cultura, identidade, coisas que têm a ver com Portugal e os países lusófonos. Os resultados não se vêem no imediato. Aprendi a ter paciência.

 

– O presidente do IPM falou também na criação de um Centro deste género em Pequim. Como está esse processo?

– Tem-se falado, o senhor embaixador já falou nisso, o próprio Governo chinês também o tem feito e tem apontado muito nesse sentido. Seria muito positivo e, a vir a criar-se, esse centro deveria ter uma ligação muito estreita com Macau. Mas, o resto são passos políticos que terão de ser dados pelas instituições de poder na República Popular da China.

 

– Embora estejamos num território cuja língua principal é o chinês, não deveria haver uma política de ensino do Português cada vez mais cedo?

– Acho que sim e que Macau caminhará para isso. As próprias autoridades já têm consciência que o Português é fundamental para a identidade do território. Olhemos para a História: o que é Macau? Uma coisa pequenina situada no Delta do Rio Das Pérolas. E o que lhe deu identidade foi o facto de ser um território administrado por Portugal desde o século XVI até ao XX. Ainda ontem ouvia o reitor da Universidade de Coimbra dizer que se Portugal não tivesse administrado o território será que Macau tinha a importância que tem? O que a distinguiria então de Zhuhai? Foi através desta ligação a um país chamado Portugal que Macau alcançou este estatuto próprio e que lhe deu depois esta importância. Acho que isso é uma razão para que em Macau se tenha uma consciência clara desta realidade que é um motivo de grande orgulho.

 

– Hoje em dia fala-se um pouco do risco de perder essas características mais próprias…

– Não creio que tal vá acontecer e a classificação de Macau como Património da Humanidade pela Unesco ajudou a atenuar esse risco. Este Centro Turístico que Macau é tem muito a ver com essa identidade resultante da fusão de culturas, e isto não se vai perder rapidamente, mas claro que é preciso ter atenção e que as autoridades tenham isso em conta. Porém, acredito que não há esse risco e as suas características vão manter-se porque o território vive bem com esta sua identidade.

 

Espaço para se reencontrar

Quando o corpo repousou numa casa sobre o rio despiu-se de um turbilhão e daí nasceram páginas, horas a pé, poesia. Carlos André encontrou em Macau um relógio que bate a um ritmo capaz de mudar a sua vida. Na passagem de director de Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra a coordenador de um centro voltado para a promoção da Língua Portuguesa, num território chinês lapidado por Portugal, o académico “descobre-se” a cada dia. “Ganhei um pouco de tempo para me encontrar a mim próprio. Tive sorte de ter uma casa sobre o rio, o que me dá tranquilidade, posso dedicar-me mais à reflexão, à minha escrita que é algo que gosto. Continuo a trabalhar cientificamente e uma das minhas áreas de trabalho é a literatura latina. Estou a traduzir livros”, descreve. O essencial dos seus dias é passado no escritório e aos fins-de-semana percorre as ruas da RAEM ou retrata a beleza do Continente chinês com a sua câmara. Postais que reflectem também como 15 anos frenéticos – na pele de professor, director de faculdade, governador e CEO de empresas que o obrigavam a viajar mensalmente até Nova Iorque – se transformam na calma de olhar para si com a convicção que vai continuar neste lado enquanto tiver um “papel útil” no desafio que aceitou.