Ernesto Matos, António Correia e Teresa Portela estiveram ontem na Fundação Rui Cunha para apresentar “A Poética da Luz na Calçada Portuguesa”, numa iniciativa que inclui uma exposição e lançamento de um livro. Este trabalho é o resultado de uma década de viagens por vários continentes onde a pegada portuguesa toma a forma de pedras pretas e brancas, mas que para os autores da obra são muito mais do que isso

 

Inês Almeida

 

A calçada portuguesa esteve ontem no centro das atenções ao final da tarde na Fundação Rui Cunha durante a sessão “A Poética da Luz na Calçada Portuguesa”, que incluiu uma exposição de 25 fotografias e o lançamento de uma obra que além das imagens da calçada portuguesa incluem poemas sobre ela.

António Correia, autor dos versos integrados no livro “Calçada Portuguesa – Lux Platearum”, explica que as palavras lhe foram surgindo à medida que se deparava com as imagens. “Há poemas da calçada portuguesa de todas as partes do mundo, mas os que mais me encantam, aqueles que são a minha paixão, são sobre Macau”, indicou em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Digo numa nota introdutória que, de facto, nunca olhava para o chão. Foi Ernesto Matos quem me pôs a olhar e há desenhos magníficos no chão que pisamos com muito desdém. Se reparar, consoante a luz solar ou os néon à noite, todos aqueles desenhos têm uma vida própria”, defende o autor.

A arte de calcetar está a perder-se porque os grandes mestres já estão todos reformados, no entanto, em Macau há uma esperança de continuidade. “Quando foi a transição houve grandes mestres que vieram a Macau e ensinaram os chineses e eles agora são uma esperança de futuro para a calçada portuguesa. Já se vem à China contratar calceteiros”, sublinhou.

Ernesto Matos, autor das imagens expostas, considera um “trabalho exaustivo” o de percorrer o mundo para captar exemplos de calçada portuguesa durante uma década mas está satisfeito com o resultado final. O percurso que teve início em Portugal passou peça Bélgica, Espanha, Angola Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Qatar, Macau, Pequim, Xangai, Timor-Leste, Malásia, Estados Unidos, e Brasil, terminando nos dois arquipélagos portugueses.

“É com grande orgulho que vejo novamente as calçadas [de Macau], ver que estão bem conservadas, não há uma pedra levantada, não se perdeu o hábito de fazer calçada e continua com motivos orientais e ocidentais, demonstrando a interculturalidade dos povos”, indicou Ernesto Matos.

A exposição patente na Fundação Rui Cunha inclui ainda pinturas de Teresa Portela baseadas na ideia lançada por Ernesto Matos, de representar a calçada portuguesa, o que a pintora fez dando-lhe um toque diferente. “Pintei primeiro as pedras e depois pensei: se isto vai para Macau, porque não hei-de juntar as duas artes? Então, juntei a arte chinesa dos ‘lai sis’ à arte portuguesa da calçada”.

Assim, as pinturas mostram uma situação que “é como se um ‘lai si’ tivesse caído ao chão”, indicou a autora ressalvando, porém, que tudo depende também da interpretação dada pelas pessoas que apreciam as obras.