A eleição de António Guterres para o cargo de Secretário-geral da Organização das Nações Unidas é bem vista por académicos de Macau que o consideram capaz de contribuir para a resolução de alguns conflitos do mundo actual, tendo em conta, sobretudo, a sua acção enquanto desempenhou funções de Alto Comissário para os Refugiados. O antigo Primeiro Ministro português é ainda reconhecido pelo papel que teve na luta pelo referendo pela auto-determinação de Timor-Leste, país que, na opinião de Rui Flores, “deve muito” a Guterres

 

Inês Almeida

 

Os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) decidiram ontem, por unanimidade e aclamação, propor à Assembleia-Geral – que por norma ratifica a escolha daquele órgão – a nomeação de António Guterres como secretário-geral da organização. Esse feito é muito bem visto por personalidades da comunidade portuguesa de Macau que elogiam o percurso de um homem com especial mérito nas funções de Alto-Comissário para os Refugiados.

José Luís Sales Marques encarou “com grande satisfação” os resultados da votação. “As perspectivas de que ele tem, à partida, condições políticas para exercer ou para começar muito bem o seu desempenho como Secretário-geral, parece ser evidentes”, frisou o presidente do Instituto de Estudos Europeus em declarações ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, acrescentando que “conhecendo o seu [de António Guterres] perfil e desempenho, é a melhor solução possível para o mundo actual”.

Sales Marques acredita que o sucessor de Ban Ki-moon irá fazer “um grande esforço diplomático num período de grandes e conturbadas situações de conflito armado, com imensos custos humanos e vagas de refugiados. São situações de grande gravidade e, portanto, o esforço de António Guterres de procurar o diálogo com sabedoria, é extremamente importante”.

Para o mesmo responsável, esta eleição representa “em certa medida, um cansaço da guerra”. “O mundo e as Nações representadas no Conselho de Segurança têm a percepção de que o mundo não pode continuar assim. Há situações em que é preciso procurar a paz e penso que é isso que António Guterres vai pôr em cima da mesa”.

O presidente do Instituto de Estudos Europeus recordou ainda a ligação do antigo Primeiro Ministro português a Macau, já que esteve envolvido no último período da transferência de soberania. “Macau e a China conhecem António Guterres, o que é uma coisa boa”.

Além disso, não esqueceu o facto de Guterres ter inaugurado a Escola Portuguesa de Macau. “Faz parte da EPM ter sido inaugurada pelo, então, futuro Secretário-geral da ONU”.

Também Francisco José Leandro vê com bons olhos a eleição de Guterres, destacando sobretudo as suas qualidades enquanto Alto-Comissário para os Refugiados já que essa é actualmente “uma questão central da política externa”.

“Vindo de um percurso político fundamentalmente doméstico, depois tendo ganho experiência enquanto Alto-Comissário, e vindo de uma pequena potência europeia, está exactamente como se pretende que o Secretário-Geral seja, isto é, alguém que vai procurar consensos sem ter ‘telhados de vidro’, sem ter interesses directos nas grandes questões internacionais”, afirmou o académico.

O professor da Universidade de São José salienta ainda que Guterres é “simultaneamente alguém que conhece o terreno, que é prático, que fala com as pessoas, tem uma postura de diálogo, muito importante em termos da Assembleia Geral”. Elogia-o ainda por ser “um verdadeiro Estadista”. “É uma pessoa que persegue o interesse público, neste caso o interesse da comunidade dos países da ONU, e isso é uma coisa que me toca particularmente. Já há poucas personalidades assim”, frisou.

Rui Flores enaltece, “acima de tudo, o papel que desempenhou à frente do Alto Comissariado para os Refugiados”. “Guterres teve situações complicadas no Iraque, na Síria, no Irão. Teve um papel decisivo em salientar a necessidade da Europa apoiar mais os refugiados que continuam a chegar atravessando o mediterrâneo”, afirmou ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU.

Guterres foi, entre Junho de 2005 e Dezembro de 2015, responsável pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, não se cansando de advertir os países mais endinheirados para que fizessem mais pelos refugiados. “Os que dizem que não podem receber os refugiados sírios porque são muçulmanos estão a apoiar as organizações terroristas e permitindo que elas sejam muito mais eficazes a recrutar”, alertou em Dezembro do ano passado, pouco antes do fim do seu mandato.

O gestor do Programa Académico da União Europeia na RAEM indicou também que “o Secretário-Geral tem de opinar, intervir, em todos os assuntos do mundo e o mundo não está em grande forma”. Além disso, “o Secretário-Geral faz, muitas vezes, um trabalho que não vem nas páginas dos jornais, que é o de tentar obter consensos. É uma tarefa complicadíssima de avanços e recuos. Guterres, nesse aspecto, é o candidato ideal”.

Ainda assim, ressalva, também “era muito importante ter uma mulher à frente da ONU, por ter uma visão diferente”.

Arnaldo Gonçalves entende que “o perfil [de Guterres] é o que mais se ajusta a um tempo em que a vida internacional precisa de um árbitro, de um mediador de conflitos, de além que trate ‘tu cá, tu lá’ os grandes líderes internacionais, sem complexos de inferioridade”.

O académico acredita que António Guterres pode contribuir para uma reforma na ONU. “A organização está sobredimensionada para os seus objectivos, tem programas gizados na década de 1970 que já não fazem qualquer sentido, tem agências especializadas que deveriam acabar”, sublinhou.

Destaca ainda “a enorme sensibilidade de Guterres como responsável pelo apoio aos refugiados e às pessoas que procuram asilo fugindo às guerras e calamidades no seus países”. “Guterres foi um homem de terreno e não de gabinete que acorreu aos locais onde havia crises humanitárias. Isso dá-lhe um traquejo que mais nenhum candidato tinha”.

 

“Timor-Leste deve muito

a António Guterres”

Um dos “grandes feitos” de António Guterres enquanto Primeiro Ministro foi “garantir o referendo em Timor-Leste que acabou por confirmar a auto-determinação” do país, salienta Rui Flores. “Tem todo o mérito de ter conseguido, na altura, desbloquear uma situação que se arrastava há vários anos”, disse, ao frisar que “Timor-Leste deve muito a António Guterres”.

Arnaldo Gonçalves sustenta que “Guterres teve um papel importante a gizar uma solução internacional para Timor-Leste e a sua relação com Bill Clinton ajudou a contrabalançar o peso internacional da Indonésia e a ‘vender’ a causa timorense”. “Isso dá-lhe a vantagem de saber actuar nos bastidores, o que lhe vai ser fundamental para o mandato”.

Já Francisco José Leandro entende que a situação de Timor-Leste foi importante, porém, ressalva: “ele [Guterres] não tinha chegado onde chegou só por Timor. Foi só um degrau”. O seu percurso “faz-se com toda a passagem pela política portuguesa, mas também depois no momento em que decide enveredar por esta carreira internacional”. “Lembro-me que quando António Guterres foi para Alto-Comissário era ainda uma figura relativamente desconhecida. Esse é o degrau que o projecta para a credibilidade de uma perspectiva internacional”.

Quando em 1999, Timor-Leste, vivia uma onda de violência após o referendo para se declarar independente da Indonésia, foi também Guterres quem liderou os esforços diplomáticos da ONU para restaurar a paz.

Durante anos acreditou-se que Guterres seria candidato à Presidência da República Portuguesa, no entanto, na altura, numa entrevista à RTP afirmou que “preferia jogar futebol a ser árbitro”. “Gosto da acção, de estar no terreno. Gosto de ser obrigado a intervir permanente”.

Ingressou no Partido Socialista após o 25 de Abril. Em 1976 foi eleito deputado nas primeiras eleições democráticas após a Revolução dos Cravos. Em 1992 tornou-se secretário-geral do partido. Três anos depois levou o partido à vitória e tornou-se Primeiro-Ministro. Agora foi escolhido para liderar as Nações Unidas.