20140401-103f

RESTANTES FOTOS: Foto cortesia Edgar Martins (www,edgarmartins.com)/Agência Espacial Europeia (www.esa.int)

É um projecto pioneiro. Edgar Martins conseguiu fotografar o mundo da Agência Espacial Europeia (ESA) sem abandonar a sua vertente crítica e criativa, reflectindo este trabalho de quase dois anos no livro “The Rehearsal of Space and the Poetic Impossibility to Manage the Infinite” e numa exposição itinerante que o fotógrafo português, que cresceu em Macau, quer também que chegue a este lado do mundo. Em entrevista ao JTM, o artista conta como as portas da ESA se abriram e como reforçou a ideia que os programas de exploração espacial são de extrema importância para o desenvolvimento do planeta e que se vai entrar numa nova era dourada

 

Fátima Almeida

 

Para Edgar Martins o interesse pelo Espaço e o Infinito vem de sempre e recentemente converteu-se num projecto sem precedentes. As portas da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla inglesa) abriram-se às lentes críticas e artísticas do fotógrafo português que cresceu em Macau. O resultado de quase dois anos a fotografar os recantos “invisíveis” de várias instalações de agências europeias está agora patente no livro “The Rehearsal of Space and the Poetic Impossibility to Manage the Infinite”, que será lançado em Maio, e numa exposição que vai correr o mundo.

Com um trabalho que desde há muito tem vindo a fazer referência a disciplinas como a cosmologia, física e astronomia, “sempre com o intuito de suplantar a função documental da fotografia e de a conectar a um leque de referências mais lato”, Edgar Martins não perdeu a oportunidade de lançar uma proposta ambiciosa. Tudo começou quando leu um artigo do director da ESA “a explicar a importância da agência se abrir ao público de forma mais marcante”.

“Nesse momento escrevi uma carta à ESA a explicar que queria produzir a mais completa descrição de sempre de uma das mais importantes organizações científicas e espaciais e dos seus programas. Mencionei que acreditava que o futuro da exploração espacial exigia um contínuo diálogo social e cultural, no qual as artes, e em particular a fotografia podiam desempenhar um papel dinâmico e vital”, explicou Edgar Martins ao JTM.

Não se tratava meramente de um registo fotográfico mas de promover “um diálogo entre a exploração espacial, a ciência, a arte fotográfica contemporânea e o público em geral”.  Por isso, durante esta viagem, que percorre o seu imaginário, Edgar Martins nunca despiu o seu lado artístico e crítico. “A proposta que apresentei foi de facto bastante ambiciosa: propunha participar de forma crítica nos programas da ESA, tais como nos programas de microgravidade, navegação, telecomunicação, exploração lunar, de Marte, de Mercúrio, entre muitos outros, elaborando ao mesmo tempo reflexões acerca das novas políticas de exploração espacial bem como do impacto deste tipo de aplicação tecnológica na nossa consciência social”, referiu o artista que depois de ter crescido em Macau estudou e vive em Londres.

A proposta arrojada, que tinha ainda como objectivo “representar uma reflexão sobre a nossa relação com a tecnologia” foi aceite pela Agência Europeia Espacial. Fundido todas estas vertentes inaugurou-se um novo olhar. As portas abriram-se pela primeira desta forma a um artista visual. O livro e a série de mais de 80 fotografias articulam assim um mundo que agora pode começar a falar mais com o imaginário e a poética de cada um de nós.

O trabalho pioneiro não se isola na vasta carreira de Edgar Martins. A viagem pelas instalações da ESA surge na sequência de um trabalho anterior que o fotógrafo produziu em várias centrais hidroeléctricas, “onde explorava o conceito de utopias tecnológicas e o enquadramento utópico da década de 1960 relativamente ao processo de modernização da indústria portuguesa”.

Porém, neste novo capítulo o que interessou mais explorar ao artista português foram “as derivações poéticas e ressonâncias culturais e ideológicas. “As instalações da ESA são espaços heterogéneos, sítios onde confluem uma multiplicidade de funções, sentidos e temporalidades”, descreve Edgar Martins. “De forma que o trabalho adopta uma abordagem descritiva e especulativa, documentando e desmontando as várias camadas de significação dos espaços e objectos fotografados”, acrescentou.

 

Desafios do Espaço e a sua arte em reflexão

Para explorar os limites e as fronteiras instáveis que atravessam o Espaço e o infinito, Edgar Martins já esperava encontrar condicionantes logísticas e operacionais, mas a maior luta para o autor foi tocar com a sua arte aqueles que há muito trabalham com as tecnologias espaciais. “O maior desafio que enfrentei foi no sentido de mobilizar e despertar a curiosidade e interesse dos funcionários dos locais que visitei e sensibilizá-los ao mesmo tempo para a minha forma de trabalhar e ideias”, recordou o fotógrafo.

Com o apoio da ESA conseguiu percorrer as instalações de países como Reino Unido, França, Alemanha, Espanha, Rússia e Cazaquistão. Embora com liberdade para criar, muitas vezes teve de obter autorização das instâncias locais para aceder a determinados locais. “Apesar de ter o apoio incondicional da administração da ESA foi necessário negociar as condições de acesso aos vários locais, nos próprios locais. Há que ter em conta que a minha forma de trabalhar é quase antagónica à realidade dos espaços que estava a fotografar. Para além disso, é preciso salientar que a Agência Espacial Europeia não tinha, na altura, uma cultura de diálogo com artistas”, deu conta o fotógrafo.

Iniciando essa conversa com aqueles que trabalham com o Espaço, Edgar Martins conseguiu produzir “um projecto original, coerente e multifacetado”. “De forma geral a prestação e atitude da ESA e dos seus funcionários foram louváveis. O apoio logístico que me facultaram foi tremendo”.

Durante estes quase dois anos, Edgar Martins conseguiu descobrir não apenas as diferenças entre a metódica de cada país – por exemplo que na Europa do Norte são de uma eficiência tremenda e o trabalho produzido nestes locais beneficiou bastante o pragmatismo típico destas culturas – mas sobretudo observar e explorar o desenvolvimento da tecnologia na sociedade.

Trabalhar este tema “reforçou a minha convicção de que os programas de exploração espacial são de extrema importância para o desenvolvimento da ciência, tecnologia, engenharia, educação, medicina, bem como de uma variedade de outros sectores a todos os níveis da vida”, afirmou Edgar Martins, notando que têm benefícios económicos vitais.

O fotógrafo verificou ainda as relações do Espaço com o futuro. “Embora o quadro de exploração espacial tenha estado tradicionalmente ligado à segurança nacional e às aspirações políticas de Estados, hoje, numa época de crise económica mundial, os cortes orçamentais abriram as portas para a comercialização e privatização”, referiu. “Actualmente a indústria comercial de satélites tem crescido para um nível impressionante. Através de satélites de observação na Terra, ajuda os governos locais e as empresas privadas a desenvolver uma infinidade de tarefas”, constatou o fotógrafo.

Com novos e entusiasmantes programas a serem desenvolvidos neste campo, Edgar Martins refere que “estamos a entrar numa nova era dourada da exploração espacial”. “Lentamente estamos a chegar a uma nova imagem do Universo” em que se dilatam os limites do entendimento das actuais teorias cosmológicas, fazendo com que a confluência entre infinitamente largo e o infinitamente pequeno seja uma proposição cada vez mais viável.

Além da percepção em que convergem aqueles conceitos, a descoberta mais interessante para o autor deste trabalho foi chegar a um acordo entre esses dois conceitos simples: “O vazio tornou-se no conceito mais movimentado conhecido pela humanidade e [por outro lado] para todos os avanços da tecnológica e da robótica, a exploração espacial ainda é intrinsecamente depende do indivíduo”.

Edgar Martins fotografou vários espaços nas instalações da Agência Espacial Europeia, alguns que se abriram pela primeira vez para a sua perspectiva, mas o sentido humano esteve sempre presente, impressionando-o.

Ao todo são mais de 80 fotografias, desde o macro – foguetes , satélites, módulos de formação, salas limpas – a micro-componentes pouco visíveis ao olho nu. A partir de 6 de Maio esta abordagem que é tanto “descritiva” como “especulativa”, vagueando consistentemente entre o “facto e ficção”, viaja por vários olhares. Primeiro com uma mostra no “Wapping Project Bank-side”, em Londres, depois para a Fundação Gulbenkian, a 28 de Junho, com a grande exposição “O Ensaio do Espaço e a Impossibilidade Poética de Conter o Infinito”.

Edgar Martins disse ao JTM que está a trabalhar para que o projecto chegue também a este lado do mundo para que nos possamos confrontar com os limites e o seu infinito.

1.2- Câmara de vácuo grande para simulação térmica do ambiente espacial, ESA-ESTEC, Noordwijk, Países Baixos 1.8-Módulo de formação de astronautas Columbus, ESA-EAC (Colónia, Alemanha) 1.7-Maquete do módulo Node 2 ou Harmony no centro Erasmus da ESA-ESTEC, ESA-ESTEC (Noordwijk, Países Baixos) 1.6-Luva espacial, Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin, GCTC (Cidade das Estrelas, Rússia) 1.5-Fato Sokol pressurizado junto do módulo de treino Soyuz, Centro de Treino de Cosmonautas Yuri Gagarin, GCTC (Cidade das Estrelas, Rússia) 1.4-Edifício de abastecimento de propergóis de lançadores e cápsulas espaciais, Porto Espacial Europeu, CSG (Kourou, Guiana Francesa) 1.3-Capacete de um fato SCAPE (Self-Contained Atmospheric Protection Ensemble), Porto Espacial Europeu, CSG (Kourou, Guiana Francesa)