A 2ª edição do Festival Internacional de Cinema está prestes a arrancar num ambiente de expectativas divergentes entre várias figuras ligadas à Sétima Arte. Fernando Eloy tem uma visão positiva, sobretudo tendo em conta a oportunidade de contactar com outros profissionais do sector. Já Hong Heng Fai e Vincent Hoi tecem várias críticas, que se prendem com problemas ao nível da organização e divulgação do evento e com a distribuição gratuita de bilhetes que, depois, resultam em salas vazias. Por sua vez, Tracy Choi apela a uma maior participação da população

 

Inês Almeida*

 

Arranca amanhã a 2ª edição do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM, na sigla inglesa), evento que volta a suscitar opiniões divergentes entre os profissionais do sector.

“O que se espera é que continue na linha do que foi o ano passado e, pelo que me parece, há condições para isso. Há projectos interessantes”, disse Fernando Eloy, ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. “Como se costuma dizer, prognósticos só no fim do jogo. Vamos ver como corre, mas as expectativas são boas”, acrescentou.

O realizador vê com bons olhos o impacto do evento no território, até pelas pessoas que traz até à RAEM. “O que nos interessa, como realizadores e produtores é o que [o IFFAM] pode fazer por aquilo que fazemos aqui. O contacto com pessoas como John Woo e outros que vão passar pelo Festival é o mais importante para nós, não há dúvida nenhuma”.

“Estes contactos são fundamentais. Como dizia há uns anos um produtor de Hong Kong que trabalhou com Jackie Chan, ninguém faz filmes sozinhos. Precisamos de interagir uns com os outros. As equipas mudam, os produtores mudam. Estes momentos são essenciais para saber o que se passa na indústria, para ter contactos, porque, às vezes, mais importantes que o dinheiro, são os contactos que se fazem.

Por sua vez, Carlos Sena Caires espera “uma grande edição, que seja melhor que a do ano passado e traga excelentes filmes ao Festival e ao público de Macau”. Especificamente, o coordenador do Departamento de Design da Universidade de São José, especializado em narrativas fílmicas interactivas, procura este ano um Festival “melhor na qualidade dos filmes, na quantidade de público e na utilização das salas”.

Relativamente ao programa, destaca que parece “muito diversificado”. “Parece que há algumas rubricas de filmes clássicos e algum cinema chinês. Tem uma curiosidade: começa com um filme bastante comercial para atrair algum público, o ‘Paddington 2’”. “Penso que é uma estratégia de marketing, não é algo inédito, já se fez noutros festivais, mas parece-me bem”.

O académico acredita que o IFFAM reveste-se de importância no sentido em que “sensibiliza o público para esta área, e dá a possibilidade de trazer alguns nomes importantes, pessoas que falem sobre cinema”. Além disso, “chama a atenção dos media e isso é óptimo, permitindo fazer sinergias para a criação de novas produtoras, na área do cinema e do audiovisual e isso seria importante”.

Entre os profissionais da sétima arte de origem chinesa, reina um clima de pessimismo. Hong Heng Fai acredita que o evento apresentará problemas semelhantes aos da sua estreia. O primeiro realizador local nomeado para os prémios “Golden Horse”, em Taiwan, reconhece as “boas intenções” que presidem à organização do evento, porém, entende que “o trabalho não foi bem feito, pois, o evento não tem uma definição”.

“No ano passado até houve vários filmes que estrearam em Macau, porém, nesta edição, muitos filmes incluídos já foram projectados”. Além disso, alertou o realizador, “entre tantos festivais de cinema a nível mundial, os organizadores têm de ponderar o que pode distinguir o evento no território dos outros”. Nesta linha de pensamento, deu o exemplo do “Golden Horse” que fomenta a produção de películas em língua chinesa.

Em relação às transformações entre a primeira edição do IFFAM e a de este ano, Hong Heng Fai apontou como evolução positiva a inclusão de legendagem em chinês nos filmes. Ao mesmo tempo, enaltece a inclusão de curtas-metragens locais, uma vez que em 2016, apenas longas-metragens tinham destaque.

Apesar de, tendencialmente, Dezembro já se estar a tornar o “mês do cinema” em Macau, continua a existir uma “barreira” entre o Festival e os cidadãos, pois a organização “não está a dar importância suficiente” à divulgação de conteúdos concretos e informação sobre os filmes que vão ser exibidos no âmbito do Festival. “Como não há informações concretas, muitos espectadores têm de pesquisar, por si próprios, na internet”.

De qualquer modo, na qualidade de trabalhador da indústria do cinema, Hong Heng Fai espera que o IFFAM continue e que a sua organização seja cada vez melhor, não apenas crescendo em termos de dimensão. “Embora a Direcção dos Serviços de Turismo seja a principal organizadora do Festival, deve ser reforçada e aprofundada a sua vertente cultural”, destacou.

A frequência do evento, actualmente anual, não mereceu quaisquer reparos, apesar de haver quem diga que deveria decorrer de dois em dois anos para evitar o desperdício de verbas. No entender de Hong Heng Fai, “a questão não é a frequência, mas a sua eficiência”. “Na última edição foram gastos 50 milhões de patacas que deviam permitir a concretização de outro tipo de trabalhos do que os que de facto foram feitos”.

Nesse sentido, se a execução do festival conseguir corresponder às expectativas da indústria cinematográfica, tornando o IFFAM numa “marca célebre de Macau” no mundo, “mesmo sendo o evento anual, não se iria falar de desperdício de fundos”.

 

Contra os bilhetes gratuitos

Vincent Hoi também deixa reparos à organização do IFFAM. “No ano passado, houve uma sessão de bolsas de contacto para investimento nos filmes, mas ninguém sabia”. Este ano decorre um evento semelhante com investidores da indústria incluindo produtores europeus, americanos, do Japão, Coreia do Sul e até da Tailândia.

“Se os investidores tiverem interesse nas nossas obras, podem chegar a nós e também estamos preparados para falar com alguns investidores directamente”, frisou o realizador local, ressalvando que, neste momento, “é difícil comentar se o mecanismo pode contribuir para o desenvolvimento da indústria cinematográfica”. No entanto, “nem sempre funciona”.

“No ano passado o IFFAM foi o lugar de estreia de muitos filmes e estimo que muitos visitantes assistiram aos filmes para avaliar o seu valor ao nível do investimento”. Nesse contexto, o festival poderá trazer novas oportunidades ao sector local, defendeu.

O realizador deixou ainda reparos ao sistema de distribuição dos bilhetes. “Tenho conhecimento de que houve bilhetes distribuídos gratuitamente, tal como aconteceu no ano passado e isso está extremamente errado. Nunca se deve distribuir bilhetes gratuitamente. Isso nunca aconteceu em Hong Kong ou Taiwan. Qualquer pessoa deve pagar para assistir aos filmes”.

Vincent Hoi acredita que este tipo de práticas representa “uma grande falta de respeito pelos realizadores dos filmes e outras pessoas que, de facto, pagaram para assistir”. Ainda assim, reconhece: a distribuição gratuita já é um hábito local. “Sempre que há um qualquer evento artístico em Macau, os interessados começam por perguntar se há bilhetes gratuitos e isso é mau”.

Os artistas locais têm tentado mudar esta cultura ao longo de mais de 10 anos e, actualmente, a situação está melhor, tendo em conta que já há pessoas dispostas a gastar 100 patacas para assistir a um filme local, no entanto, o IFFAM vem contribuir para esta prática. “A distribuição grátis de bilhetes tem ainda outra consequência negativa. No ano passado, esgotaram os bilhetes para alguns filmes exibidos no Galaxy, impedindo que o público os adquirisse, mas depois via-se que dentro da sala não estavam sequer 10 pessoas”, contestou Vincent Hoi.

Tracy Choi, premiada na primeira edição do IFFAM com o filme “Sisterhood”, espera que o evento conte com mais participação da população local, lamentando o facto de nenhum dos filmes na categoria “Competição” ser uma produção de Macau.

A realizadora compreende que é difícil produzir longas-metragens, tendo em conta a indústria local, no entanto, a situação pode melhorar passo a passo. “O Instituto Cultural tem um plano de apoios financeiros para longas-metragens mas só é concedido a cada dois ou três anos, pelo que não permite concluir os filmes para o Festival”, frisou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Numa nota mais positiva, Tracy Choi deseja que o evento ganhe mais projecção internacional para impulsionar o desenvolvimento do sector local.

Comparativamente à última edição, a realizadora local acredita que mais pessoas poderão assistir aos filmes, tendo em conta que os bilhetes para algumas sessões “já esgotaram”.

 

* com V.C. e R.C.