Uma estreia no Festival Rota das Letras e, consequentemente, em Macau, um lugar próximo de Goa pelo passado histórico e multiculturalidade. É desta forma que Jéssica Faleiro encara as primeiras impressões sobre Macau. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a escritora recorda os primeiros passos na literatura e explica a forma como coloca em palavras o facto de se sentir parte de uma “terceira cultura”

 

Catarina Almeida

 

Jessica Faleiro nasceu em Goa, cresceu no Kuwait, viveu em Mumbai, Miami, Paris e Londres. Na capital britânica permaneceu 16 anos até que regressou à ex-colónia portuguesa já lá vão quatro anos. Qualificada em política ambiental trabalhou no ramo da investigação e chegou, inclusive, a seguir carreira internacional no Afeganistão, Filipinas, Haiti, Zâmbia, entre outros.

A escritora convidada para o Festival Literário – Rota das Letras, sentiu bem cedo que a escrita seria o caminho a seguir. “Ninguém na minha família seguiu uma carreira criativa, mas antes nas áreas de negócios, engenharia e banca. Nunca fui influenciada a seguir esse caminho artístico. Aos 16 anos, disse ao meu pai que gostaria de seguir essa carreira e ele disse-me que só o convencia quando conseguisse fazer da escrita o meu ‘ganha-pão’”, recordou Jessica Faleiro ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Do “casamento” entre querer fazer justiça social e tornar o planeta mais sustentável nasceu, a dada altura, a escrita como ocupação a tempo inteiro. “Tentei desenvolver uma carreira na política ambiental, inseri-me em várias corporações mas acabei por dedicar-me a organizações sem fins-lucrativos. Adorava o meu trabalho”, disse. “Adoro a forma como vivo agora, demorei muito tempo para perceber que precisava de escrever”, sublinhou a autora de “Afterlife: Ghost stories from Goa”.

Este livro marca a sua estreia no romance literário embora, explicou, também retrate um multiculturalismo sobre o qual “procura escrever” e que é indissociável do seu percurso enquanto pessoa que se considera parte de uma “terceira cultura”. “Quando digo que me sinto da diáspora goesa é algo ainda mais profundo do que isso. Actualmente, estou a trabalhar numa série de ensaios pessoais sobre o conceito de ‘criança de terceira cultura’”, ou seja criadas numa cultura diferente dos seus pais e, por isso, têm uma percepção multicultural do mundo, dos valores culturais, dos sistemas, entre outros, apontou.

“O meu primeiro livro é um romance centrado numa família de classe média goesa num contexto em que o patriarca da família vai festejar o aniversário para o qual convidou vários membros da família que, a dada altura começam a partilhar histórias e durante esse processo apercebem-se que há segredos de famílias obscuros”, explicou a escritora.

Se, para uns, o livro retrata uma história de ficção para outros vai além disso: “do lado académico a percepção é outra porque abrange a ideia de como a classe média de Goa tenta corresponder, entre outros, às expectativas que a sociedade lhes interpõe”, destacou.

Quanto a Macau, lugar que nunca antes visitou e que juntamente com o pai está lentamente a descobrir, Jessica Faleiro destaca as grandes semelhanças com Goa. “Ouvi falar muito de toda a atmosfera em torno dos casinos mas não é isso que me interessa. Já fui ao templo de A-Má, caminhei até ao Largo do Lilau e era isto que procurava: a fusão em Macau, pequenos detalhes. Antecipei alguma fusão porque é o nosso ambiente em Goa, com uma mistura da Índia, Goa e Portugal. Em Macau é semelhante, com a única diferença de que é uma mistura entre o Ocidente e Oriente”, apontou Jessica Faleiro.

A autora está também “entusiasmada” com a visita de amanhã à Escola Portuguesa de Macau para um workshop sobre os caminhos da escrita criativa. Jessica Faleiro participa ainda em duas sessões de debate, uma das quais será partilhada com Brian Castro para falar sobre as metamorfoses do escritor. Na quinta-feira apresentará o primeiro livro no Edifício do Antigo Tribunal.

Por gostar de “experimentar diferentes formas de escrita”, Jessica Faleiro vai publicar entre Abril e Maio deste ano um novo livro de ficção. “É mais pequeno, conta cinco histórias de cinco mulheres de classe média que residem no sul de Goa. São mulheres que vivem na periferia daquilo que a sociedade de classe-média permitiria: uma personagem é alcoólica mas é uma pianista reconhecida; e outra é uma mulher muito jovem que foi abusada pelo pai”, revelou a propósito de uma obra que demorou dois anos a terminar.