São cada vez mais os solteiros e é mais tardio o casamento em Macau, onde culturalmente o matrimónio aconteceria cedo e com casa incluída. As questões relacionadas com a habitação, nomeadamente o facto de ser “basicamente incomportável” comprar uma fracção, destacam-se entre os factores que a académica Agnes Lam considera estarem a afectar a idade média do casamento, que passou a ser de 29,5 anos

 

Liane Ferreira

 

Nem a ideia romântica de casamento consegue sobreviver às dificuldades do dia-a-dia em Macau, tendo em conta que, segundo dados do Intercensos de 2016, a idade média do primeiro matrimónio subiu de 29 anos em 2011 para 29,5 no ano passado. De acordo com a Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), a média da idade do primeiro casamento aumentou tanto no caso dos homens como das mulheres, revelando uma “contínua tendência” de adiamento.

No mesmo sentido, os solteiros passaram a representar 29,9% da população com idade igual ou superior a 16 anos, tendo a sua proporção crescido 0,7 pontos percentuais, face ao Intercensos anterior.

“Nos últimos cinco anos, a proporção de mulheres solteiras aumentou 1,4 pontos percentuais, atingindo 29,4%, enquanto a de homens solteiros diminuiu tenuemente, situando-se em 30,4%, reduzindo-se a distância até 1,0 pontos percentuais”, lê-se no relatório, que mostra ainda que a percentagem de solteiras (26,9%) foi inferior à dos solteiros (29,5%).

Uma análise por grupo etário indica que a mais elevada proporção de solteiras em 2016 envolve a faixa dos 35 ou mais anos, enquanto em 2011 esse pico registava-se dos 40 ou mais anos.

Confrontada com estes números, Agnes Lam, académica da Universidade de Macau, sublinha que esta evolução demográfica caminha “lado a lado com os problemas de habitação e da economia”.

“Podemos ver que a tendência mundial é casar mais tarde e ficar solteiro até mais tarde, mas em Macau, entre 2001 e 2011, as pessoas casavam muito mais cedo. Nessa altura, as pessoas ganhavam mais, devido ao florescimento da indústria do jogo. Simultaneamente, comprar casa era mais em conta e mais fácil”, começou por referir a professora ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, acrescentando que “especialmente, entre 2002 e 2008, era muito fácil para as pessoas terem um salário alto e comprar casa”.

“Mas, depois disso os preços da habitação começaram a subir muito rapidamente e isso começou a ser um problema. Depois tivemos a crise financeira internacional e nestes últimos dois anos as receitas do jogo também estiveram a decrescer, o que alterou as coisas”, frisou Agnes Lam, notando que a RAEM começou a seguir a tendência internacional.

Destacando que no Intercensos de 2011 Macau apresentava uma tendência contrária, a académica referiu que o território “era único, simplesmente porque ser rico, mas agora comprar casa é basicamente incomportável”.

Para além disso, continua a ser muito importante na cultura chinesa casar e ter casa, pelo que as dificuldades sentidas na aquisição de um imóvel podem contribuir para o adiamento do matrimónio.

Por outro lado, Agnes Lam também salienta que antigamente muitos jovens estudavam no exterior e regressavam com grandes vantagens no mercado laboral e prontos a casar. “Normalmente, os jovens estudavam e trabalhavam no estrangeiro algum tempo e alguns anos depois regressavam e tinham uma elevada mobilidade de emprego, ou seja, conseguiam posições elevadas mais rapidamente. Mas, agora as hipóteses já não são as mesmas”, disse, convicta de que “o território é menos atractivo para estes jovens”.

Dados da Divisão de População do Departamento de Assuntos Económicos e Sociais da ONU indicam que em 2015 a idade média do casamento na Alemanha era de 33,1 anos, seguida do Brasil (30,8) e Japão (30,5). Os EUA e Reino Unido registavam um média de 27,9 anos, inferior a Macau. Já na China Continental a média situava-se nos 25,3 anos.

As informações da DSEC mostram que, em comparação com o estado civil normalizado de 2011, também se detectou um aumento de 0,5 pontos percentuais nas pessoas separadas/divorciadas, que agora são 3,3% da população. Em sentido contrário, as proporções de casados (63,2%) e de viúvos (3,7%) diminuíram 0,8 e 0,4 pontos percentuais, respectivamente.

Por outro lado, a proporção de homens separados/divorciados atingiu 2,0%, contra 4,4% das mulheres.

Nos casos de viuvez, como as mulheres têm uma maior esperança de vida, a sua proporção foi de 6,1%, significativamente superior à dos viúvos (1%).