Deve começar em Setembro um novo curso em patuá leccionado por Alan Baxter, na Universidade de São José, desta vez, com moldes ligeiramente diferentes, focando-se sobretudo na produção de materiais didácticos, dada a sua escassez. Os estudantes que participaram na primeira edição da iniciativa elogiaram-na, pois não só lhes permitiu conhecer mais sobre as suas raízes como abriu espaço para a comunicação num dialecto que já não é utilizado no dia-a-dia

 

Inês Almeida

 

Já os alunos tinham fechado os cadernos e guardado os textos que leram ao longo da última aula quando Alan Baxter lhes deu uma novidade: no próximo semestre haverá na Universidade de São José (USJ) um novo curso dedicado ao patuá, apesar de decorrer em moldes diferentes.

“No próximo semestre vamos lançar um curso que é essencialmente para a elaboração de materiais didácticos, na forma de diálogos. Pretendo fazer isso tendo por base materiais escritos que já foram identificados como sendo os mais autênticos e fiéis à tradição linguística do patuá e com gravações da década de 60, de pessoas já idosas, além de algum material vídeo”, explicou o director da Faculdade de Humanidades da USJ em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Vamos elaborar uma sequência de diálogo com temas pré-definidos. Cada sessão funcionará como uma espécie de ‘workshop’ para elaborar esse tipo de material. Depois a ideia seria gravar, também”, frisou Alan Baxter.

Apesar de se focar na produção de auxiliares didácticos, o docente assegura que não se trata de um curso dirigido apenas à comunidade académica. “Quando falamos de uma língua que está à beira da extinção, isto é, que já não existe como língua funcional e é mais simbólica da comunidade, é essencial que os envolvidos sejam, na maioria, pessoas da comunidade que tenham essa bagagem cultural”.

O director da Faculdade de Humanidades lamenta a existência de pouco material, sublinhando que é uma situação recorrente para línguas ameaçadas. “Não houve documentação adequada em tempos passados e, portanto, temos apenas algumas gravações antigas e outras mais recentes realizadas pelo professor Mário Nunes, da Universidade de Macau, na diáspora do Canadá”.

Assim, o novo curso apostaria, sobretudo, na transcrição de gravações e extracção de estruturas sintácticas “porque através da transcrição vê-se a gramática e, com base nessas estruturas, elaboramos diálogos e narrativas”.

Estes modelos servem “não para imitar completamente os materiais antigos, mas para podermos servir-nos deles para produzir novos”. “Todas as línguas mudam e é impossível criar uma cópia idêntica do que foi a língua passada”.

O curso está previsto para Setembro e “seria efectivamente um segundo nível, mas isso não quer dizer que não possam frequentar pessoas que não estiveram presentes neste curso actual. Todos são bem-vindos e serão incorporados com a minha ajuda e dos outros, se os alunos destas aulas frequentarem o próximo curso”.

Além desta nova vertente, Alan Baxter pretende repetir o módulo actual no próximo ano, ainda que “com outro formato e com outros dispositivos”.

“Começámos tarde no semestre a usar a plataforma da Universidade que oferecia a possibilidade de fazer reforço lexical, reconhecimento de palavras junto a imagens”, explicou o docente, acrescentando que o programa permite ainda usar “segmentos de áudio” com pequenas frases.

“Tenciono explorar mais essa dimensão. Aprendi, com base nos exercícios que fizemos, quais são os melhores textos para desenvolver as capacidades linguísticas dos alunos”.

Alan Baxter faz um balanço positivo desta primeira edição do curso em patuá. “Os alunos divertiram-se, aprenderam léxico, expressões e, além da leitura comentada, começaram a escrever e a falar algumas coisas. Falar não era a finalidade do curso mas surgiu de uma maneira natural e acho que correu bem”, indicou o académico.

Todos aprenderam alguma coisa, incluindo o professor. “Percebi que há várias maneiras de proceder com um curso deste tipo e, no futuro, vamos pensar noutros métodos pedagógicos. Há muitas possibilidades”. “Gostei de fazer o curso e conhecer pessoas jovens interessadas na língua”.

 

Conhecer mais as suas raízes

O balanço positivo de Alan Baxter é corroborado pelos estudantes.

“Foi interessante. Aprendemos a falar patuá, ficámos a saber mais sobre a cultura. Comparámos [o patuá] com o “kristang” malaio, um dialecto também de influência portuguesa em Malaca, que teve impacto no patuá. Ficámos a saber algum vocabulário e elaborámos textos”, destacou Elisa Monteiro, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

No caso de haver outra edição, “obviamente vou inscrever-me”, indicou a jovem macaense, apontando como objectivo principal “aperfeiçoar” a vertente do diálogo. “Como não somos nativos de patuá, gostava de poder falar de uma forma mais fluente”.

Elisa Monteiro destacou ainda a importância da ligação entre o patuá e a cultura da comunidade macaense. “Embora o dialecto já não seja falado, é importante pois faz parte da nossa identidade”, referiu.

Adriano Gaspar concorda. “É sempre bom conhecer as nossas raízes”. “Gostei muito de conhecer as palavras até porque algumas não encontramos num dicionário ou na internet e pudemos conhecer a sua origem”, frisou o jovem, apontando que há vocábulos de origem holandesa, outros vindos do “kristang” e que “é sempre bom ter esses conhecimentos”.

“Vim aprender por uma questão de cultura. Sou macaense, tenho ascendência portuguesa e chinesa, e é sempre bom conhecer este dialecto que faz parte da nossa identidade”, explicou.

No futuro, Adriano Gaspar gostava de ter uma formação mais aprofundada, sugerindo que, em edições futuras do curso, sejam convidadas “mais pessoas que tenham conhecimento sobre o patuá”. “Embora tenhamos tido uma aula com uma pessoa que domina o ‘Kristang’, que foi bastante interessante para perceber as palavras de origem malaia, também devíamos ter tido outras com mais macaenses, para nos darem algumas dicas”.

Por seu turno, Isabel Morais queria melhorar a sua capacidade de diálogo. “[O curso] foi uma experiência que gostaria de repetir. É uma iniciativa bastante importante e estou admirada com a grande adesão em termos de número de alunos por ser o primeiro curso”.

Como principal ponto positivo desta formação apontou a vertente comunicativa pois deu a possibilidade “de falar em patuá”. “É o aspecto que valorizo mais”. “Como sou principiante absoluta ficou muito por aprender, mas gostava mais de explorar a conversação e adquirir maior fluência”.

Elisabela Larrea descreve uma experiência ligeiramente diferente de contacto com o dialecto. “Tenho estado a fazer investigação na área do teatro em patuá e há algum tempo comecei um blogue a ensinar patuá com recurso a alguns cartões. Como tinha apenas alguns livros para aprender, quando soube deste curso fiquei muito entusiasmada porque finalmente tínhamos um curso bem formado e bem pensado, que incluía uma grande variedade de textos e no qual temos oportunidade de falar uns com os outros e de fazer composições”.

A macaense elogiou o curso pois, não só abrange vocabulário, mas também dá espaço para “aprender a escrever, o que é muito bom”.