Jorge Fão já foi deputado e fez parte da campanha de Melinda Chan para a Assembleia Legislativa. Ao JTM, disse que não acredita que Macau possa ter um sistema de partidos como em Hong Kong, por falta de coragem e de capacidade dos locais. Sobre a composição da nova Assembleia Legislativa, entende que os empresários vão ter que responder aos problemas sociais que preocupam a população, e no futuro o peso do sector pode aumentar ainda mais

 

 

Sandra Lobo Pimentel

 

Esteve envolvido na campanha de Melinda Chan, das que mais dinheiro gastou segundo as contas apresentadas. Como é a experiência de montar uma campanha eleitoral?

– Todas as campanhas gastaram muito dinheiro. Mas penso que não devemos escamotear isto. Se a lei nos permite fazer campanha até certo valor, se não for ultrapassado faz-se. Não vejo problema. Não é por mais campanha ou menos, por mais dinheiro que se gasta, que se consegue um lugar. A menos que o dinheiro seja gasto por vias ilegais, ou seja, para compra de votos. A eleição de um deputado não é só a campanha, mas é preciso fazer algo para se expor, falar das ideias e do programa político, porque se não o fizer até fica mal. Penso que os grupos são quase todos iguais. Se falarmos dos valores, normalmente, onde se gasta mais é nos comícios de rua, aluguer de automóveis, recrutamento de pessoal e material de propaganda.

 

– E como se leva as pessoas a votar?

– Macau como é uma terra muito pequena, as pessoas conhecem-se. Qualquer candidato tem que ter uma estrutura por detrás, diferente da comissão de candidatura. Antes da constituição desta comissão, obrigatória por lei, tem que haver uma estrutura base. A Melinda Chan tem a dela.

 

– Mas não é só essa estrutura que vota. Para além dos votos por iniciativa do eleitor, como se organiza a ida às urnas?

– Havendo uma estrutura de base, esta tem conexões com muitas outras estruturas.

 

– Está a falar de associações?

– Exactamente. As associações estão interligadas. Por exemplo no caso da Melinda, a Associação Sin Meng está, de alguma forma, ligada à APOMAC e à APRODEM. Portanto, há uma interligação de várias estruturas. Como disse, Macau é uma terra muito pequena, as pessoas não estão apenas numa associação, tenho o meu caso pessoal, que estou ligado a várias.

 

– A política local está, portanto, completamente assente no associativismo. E o que acha da ideia de criação de partidos políticos que foi falada recentemente?

– A Lei Básica não impede a criação de partidos políticos. Hong Kong funciona assim, mas em Macau nunca funcionou. Criar um partido político aqui ainda deve ser mais difícil. As pessoas de Macau não têm nem a coragem, nem a capacidade das pessoas de Hong Kong. Não há formação académica, nem política.

 

– Acha que isso acontece por quê? Há responsabilidade da Administração portuguesa?

– A participação dos chineses de Macau na vida política começou muito tardiamente. A comunidade chinesa nunca esteve muito interessada, mas foram sempre ouvidos no passado, pelos sucessivos governadores, mas não na Assembleia, apenas como representantes como o caso do pai de Edmund Ho. Ou seja, pelas ligações que os chineses tinham no passado, como o senhor Ma Man Kei, que tinha negócios de importação dos produtos da China, que passava somente por algumas famílias.

 

– A política ainda está muito ligada ao meio empresarial? Como viu as críticas às nomeações para a AL, nomeadamente, pelo peso dos empresários? 

– Têm e vão continuar a ter. E futuramente, creio que vão ter mais peso ainda. Desta vez, a Federação dos Operários teve uma derrota bastante evidente. E da parte, supostamente, democrática, também houve muita perda de votos.

 

– E que leitura faz disso?

– É muito simples. O estandarte da democracia em Macau não serve. Teve o seu bastião, mas não conseguiu um número significativo de aderentes. As pessoas em Macau ainda são muito conservadoras, por isso, sempre disse e continuo a dizer, que o sufrágio universal para eleição do Chefe não é possível. Aquilo que se passa em Hong Kong não é nada comparável com Macau e o que se passa lá também não é certo que seja bom. Os ingleses enquanto lá estiveram, nunca propuseram uma democracia plena, só se lembraram de criar um sistema político democrático quando estavam em debandada. Quando estavam a mandar não havia democracia nenhuma. Até pode haver o plano já feito para a eleição directa do Chefe do Executivo, mas não acredito nisso.

 

– E em Macau, até quando?

– Nem coloco essa questão, francamente. Acho que seria melhor para Macau se, um dia, a China Continental se abrisse. Não está nas nossas mãos, nem nas mãos da população de Hong Kong. Se os chineses decidirem mudar o seu sistema político, neste caso, Macau terá hipótese de ter um sistema democrático ao estilo ocidental.

 

– Mas mantendo o princípio “um país, dois sistemas” ou absorvendo Macau e Hong Kong?

– Não, esse princípio deixaria de fazer sentido. É bom que se atente que os chineses põem o país em primeiro lugar, por isso, se diz “um país, dois sistemas” e não o inverso. Mas há quem pareça querer inverter a ordem, pensam primeiro nos dois sistemas e põem o país em baixo. Mas Macau parece-me estar muito melhor debaixo da protecção da China.

 

– Os grupos que defenderam abertamente o sufrágio directo e universal, não obtiveram tantos votos. Será que a população não quer ou acha que não está interessada?

– Não digo que a população não queira, diria que ainda não sabe o que quer. Por outro lado, as pessoas estão mais preocupadas com as questões sociais, que são primordiais, do que com as questões políticas, que acham secundárias.

 

– E são os empresários que vão responder a essa aflição social?

– Acho que vão ter que responder. Por que será, que temos na Assembleia um presidente que é empresário e um vice-presidente que provém dos operários, e no passado aconteceu o contrário? É precisamente para haver um equilíbrio.

 

– Mas o que veio desequilibrar a composição para o lado dos empresários também foi o voto directo, concorda?

– Neste último acto eleitoral parece-me que sim. Como disse, estou convencido que, futuramente, vai ser ainda mais assim. No próximo acto eleitoral, a classe empresarial vai ganhar ainda mais assentos no sufrágio directo. Porque as pessoas não estão preocupadas com a política, mas sim com as questões sociais. Desde que consigam ser ultrapassadas, com algumas promessas de benesses dos empresários, as pessoas votam neles.

 

– Está à porta mais um anúncio das Linhas de Acção Governativa, o que virá por aí?

– Penso que o Governo sabe quais são os problemas que afectam as pessoas. O diagnóstico está feito e estou convencido que o Chefe do Executivo vai apresentar medidas que satisfaçam alguns sectores. As pessoas querem habitação, vai dizer que vão construir e roubar mais terra ao mar. Para quem está preocupado com a saúde, já abriram as novas urgências do hospital público e vai reforçar a construção do hospital das Ilhas, que no caso sofreu alguns atrasos, mas penso que a culpa não é do Chefe do Executivo. Por ele, naturalmente, tinha o hospital aberto já amanhã. Mas este atraso parece que tem mais a ver com a parte técnica, não é por dinheiro. Penso que seja por causa da sua equipa.

 

– Considera que há algum “calcanhar de Aquiles” nesta equipa do Governo?

– Este ano troquei o meu carro, um bom carro alemão, por outro carro alemão, por uma razão simples: o antigo já tinha 10 anos. Um carro depois de andar estes anos, tem que começar a ir à inspecção anual e fazer substituição de peças. Serve para dizer que, independentemente, da sua equipa ser boa ou má, não está em causa se uns são melhores do que outros, mas trata-se de uma equipa já cansada, já velha.

 

– Há um prazo de validade para os governantes?

– Tudo na vida tem um prazo. O Chefe do Executivo só pode ficar dois mandatos, então por que é que os Secretários e os directores podem ficar mais? A páginas tantas a pessoa está desgastada. Não vou indicar nomes, seria descortesia, mas no lugar do Chefe do Executivo, eu substituía todos. Suponho que vai-se recandidatar e vai ganhar, não estou a ver outro candidato, e a ser assim, para poder fazer um trabalho melhor, devia mudar estes seus “generais”. Até o povo está cansado de ver as mesmas caras.

 

 

“Pensionistas de Macau são mais felizardos”

Foi um dos fundadores da Associação dos Trabalhadores da Função Pública de Macau mas afastou-se depois de aposentado e ajudou a fundar a APOMAC. Jorge Fão entende que a associação liderada por Pereira Coutinho está politizada e longe do seu propósito inicial de defesa dos funcionários públicos, mas “está entregue”, apesar de não gostar que se misture com as campanhas políticas. Sobre a luta contra os cortes nas pensões, defende a postura mais comedida da APOMAC que não fez “alaridos”, admitindo que os pensionistas em Macau, por serem residentes, recebem outros benefícios do governo local

 

Ainda está ligado à APOMAC e nesta questão dos pensionistas que recebem pela Caixa Geral de Aposentações, tem havido algumas diferenças de opinião quanto à abordagem. Como tem sido este processo?

– Esta questão está completamente dependente do governo português. Mas a APOMAC tem sócios de um lado e do outro, não só quem recebe pela Caixa Geral de Aposentações, como quem recebe pelo Fundo de Pensões. Em relação a quem recebe de Portugal, como eu, está sujeito às decisões tomadas. Lamento que o governo tenha tomado estas medidas, embora reconheça as dificuldades pelas quais o país atravessa. Apesar do Tribunal Constitucional ter chumbado estas medidas, tem-se assistido ao contornar da situação e assim há-de continuar. Também o Presidente da República tem lavado as mãos como Pilatos e vamos ficando prejudicados.

 

– Mas há uma diferença entre os pensionistas que recebem por Macau e os que recebem por Portugal.

– É verdade. Os pensionistas de Macau são mais felizardos. Em Macau o Fundo de Pensões tem dinheiro e o Governo também. Não só não tem havido cortes, como tem havido aumentos. As actualizações de vencimentos também têm beneficiado os pensionistas. E nós que estamos a receber por Portugal estamos sempre a sofrer cortes. É uma situação condenável, devia ser uma medida transitória, que durasse apenas um a dois anos. Os políticos em Portugal estão a fazer um péssimo trabalho pelo país.

 

– Ainda assim, sendo residentes permanentes em Macau, os pensionistas acabam por receber outros benefícios que o Governo local dá à população. É por isso que a APOMAC tem tido uma postura mais serena pedindo compreensão pela crise económica que grassa em Portugal?

– Temos tomado uma atitude menos radical por duas razões: uma porque estamos longe de Portugal. Qualquer atitude tomada cá não vai resultar, até porque os sindicatos em Portugal têm reivindicado e resultou em quê? Zero. Outro aspecto que temos tido em conta, é que apesar de sermos pagos por Portugal, enquanto residentes de Macau somos, ainda assim, os menos prejudicados. Emitir uma opinião radical é muito fácil, criticar um governo também. Usar uma atitude de radicalismo para com o governo português, que não só está longe, como não administra o território, é das coisas mais fáceis de fazer. Acho que devemos ser mais honestos, em termos de atitude e em termos de raciocínio. O que resultaria se fizéssemos uma manifestação de rua aqui em Macau?

 

– Foi por isso que foi contra o pedido de intervenção feito ao Governo da RAEM?

– Já o disse, mas houve quem discordasse de mim. Eu estou no direito de emitir toda e qualquer opinião como os outros também estão, não têm é o direito de me insultar. Fui contra porque penso que se tratou de uma atitude politicamente incorrecta e não resultou em coisa nenhuma e está provado. Está mais que demonstrado que o Chefe do Executivo não vai fazer nada. Já se sabia de antemão qual seria a resposta, então por que foi tomada esta atitude? O que esteve por detrás deste acto? Se calhar andavam à procura de alguns votos. Agora eu não queria estar a enganar as pessoas e dizer que íamos pedir ajuda para reaver o que foi perdido.

 

– Que diligências fez a APOMAC quanto a esta situação?

– Fizemos várias. Falámos com quem de direito sem alaridos, bicos de pés ou megafones. Endereçámos ofícios às entidades oficiais de Portugal sobre o que pensamos que o governo deve fazer. Mas sem alaridos porque não andávamos à caça de votos. Acho que Portugal merecia respeito da nossa parte.

 

– Mas reconhece que a ATFPM é uma entidade legítima para fazer estas reivindicações?

– É, porque foi criada para ter essa legitimidade, para defender os trabalhadores no activo e os aposentados. Só que agora não trabalha só para estes, defende os funcionários públicos e os outros. Foi uma alteração porque a associação foi criada para defender os trabalhadores da função pública. Sou um dos fundadores. Mas vejo que agora a ATFPM também defende os operários, “croupiers”, calceteiros e outros.

 

– Neste momento não é necessário ser funcionário público para ser associado.

– Precisamente. E é isso que eu condeno. Desvirtuou-se completamente o espírito da ATFPM.

 

– E a ideia de criar um partido político, se acontecer com o deputado Pereira Coutinho, o que pensa disso?

– Se é para criar um partido político e ficar com as duas coisas, acho que é condenável. Porque está a politizar uma associação que não tem essa natureza política.

 

– Mas considera que neste momento a ATFPM não está já politizada?

– Está. Se me perguntar se comungo de certas ideias, há muitas que não comungo e por ter essa opção é que criámos a APOMAC, para não haver atritos. Cada um trata da sua parte. O que não gosto é de meter tudo no mesmo saco, não se pode tentar abraçar-se a todos.

 

– E custa-lhe ver a ATFPM seguir esse caminho?

– Com certeza que custa, não só a mim, como a outros fundadores que ainda estão vivos. Não todos, mas alguns. Mas cada um tem a sua filosofia. Se está entregue, então está entregue, sou muito democrático. Desde que me aposentei entendi afastar-me. Uma associação de defesa de trabalhadores da função pública deve ser liderada por quem está no activo ou as coisas acabam por se misturar. Dou um exemplo. As despesas da ATFPM não se podem confundir com as despesas da campanha eleitoral da Nova Esperança. A comissão de candidatura é independente, é criada e acaba, ou seja, são contas distintas, não se trata de um partido político. Se pretendem criar um, tudo bem, até porque a Lei Básica não o impede, mas Macau nunca teve essa opção e nem vai ter. Penso que não vai singrar.

 

Pronto para se retirar

A APOMAC “assemelha-se a um centro comunitário”, considera Jorge Fão, até porque os serviços que presta aos associados corroboram essa ideia. Desde a cantina até à clínica, o espaço começa a ser pequeno para o tamanho dos projectos presentes e futuros. No actual edifício onde está a sede, os dirigentes da Associação gostavam de ter “mais um ou dois pisos”, mas o Governo tarda. Fão diz mesmo que “não houve resposta. Nem sim, nem não”. Uma das ideias que o actual presidente da assembleia-geral tem, passa por fazer uma clínica dentária, já que esse tipo de serviço é caro e “nestas idades é muito necessário”. Há cerca de dois anos que o pedido foi feito e o projecto entregue, mas Chui Sai On não decide. Jorge Fão diz-se “agastado” com o impasse, até porque gostava de ver nascer mais esse projecto. Quanto ao futuro na APOMAC, confessa que vai continuando ligado “até aparecer um substituto”. “Estou pronto para me retirar”, afirmou sem mácula. “Esta casa é pequena e também tem os seus problemas. É preciso gerir, ter disponibilidade e tempo, e estou cada vez menos aqui”.