Chan Meng Kam comparou o trabalho na Função Pública a “arroz em tigela de ferro”
Chan Meng Kam comparou o trabalho na Função Pública a “arroz em tigela de ferro”

Os funcionários da linha da frente “trabalham arduamente, mas ninguém gosta deles” e são muitas vezes maltratados ao passar multas por estacionamento ilegal ou autuando outro tipo de infractores, defende Chan Meng Kam. O deputado acusa os inspectores de parecerem “soldados da Dinastia Qing” que se desviam da execução da lei

 

Inês Almeida

 

No “enorme sistema” que engloba os funcionários públicos, a maioria dos concursos são realizados para cargos da linha da frente. “Como os cargos de dirigentes são basicamente ocupados adoptando o regime de nomeação, se os residentes pretendem ingressar na equipa de funcionários públicos só podem concorrer para cargos da camada de base”, indicou Chan Meng Kam.

Numa intervenção no período de antes da ordem do dia do Plenário da Assembleia Legislativa, o deputado advertiu que os funcionários da linha da frente “estão a passar por um calvário” pois “trabalham arduamente mas ninguém gosta deles”. “[Os funcionários públicos] são muitas vezes maltratados quando passam multas por estacionamento ilegal, autuam os infractores que fumam em lugares proibidos, confiscam fruta e produtos alimentares, investigam o fumo expelido pelos estabelecimentos e multam os que cospem”.

Por outro lado, acrescentou, “algumas pessoas acham que os funcionários quando usam uma farda de polícia com a indicação de inspector parecem soldados da Dinastia Qing que usavam, na farda, ao peito, o carácter chinês ‘bravo’ pois agem sem pensar e ter consciência de fazer as coisas sob o princípio de servir melhor o cidadão”.

Estes funcionários “aprendem direito mas não o sabem, desviam-se do princípio de executar a lei e assumem a atitude de ‘eu sou mandarim, eu posso falar e os residentes não podem’, o que afecta a imagem” da Função Pública, acusou.

Além disso, o deputado frisou que o trabalho na Função Pública é considerado “arroz em tigela de ferro”. “Os que não têm uma família rica para os apoiar, mesmo tendo uma micro ou média empresa também encorajam os filhos a concorrer para um lugar na Função Pública, tendo em conta a actual situação, pois, é melhor do que trabalhar numa mesa de jogo”.

Nesse sentido, Chan Meng Kam sugere a implementação de um sistema como o que vigora nos bancos da RAEHK onde “a chefia fica ao lado dos que trabalham na linha da frente e aproxima-se imediatamente para resolver algum problema”. “Os funcionários da linha da frente de Macau têm de enfrentar toda a população e dezenas de milhões de visitantes, mas para onde foram os chefes de divisão, departamento e os directores dos nossos serviços públicos?”

Song Pek Kei também apontou o dedo ao “nepotismo e cultura do compadrio” que não são “estranhos” a Macau. “Esta cultura tradicional estende-se aos processos de recrutamento e promoção dos funcionários públicos o que prejudica, gravemente, os interesses do candidatos e põe em causa a igualdade e justiça sociais”.

A deputada entende que os altos dirigentes são “firewalls” fulcrais para garantir um recrutamento justo pelo que é preciso “reforçar de forma contínua as acções de reciclagem e de aprendizagem, os seus conhecimentos jurídicos” e a capacidade de assumir responsabilidades.

Por seu turno, José Pereira Coutinho voltou a chamar a atenção para a necessidade de construir habitações públicas para os trabalhadores do Governo e a atribuição de subsídios de residência.

 

I.A.