Especialistas em design analisam os cartazes eleitorais das listas concorrentes à Assembleia Legislativa, notando que, apesar de serem essenciais para transmitir as ideias dos candidatos, podem não ter sido aproveitados para influenciar a opinião dos eleitores. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, destacam, entre outros aspectos, o dinamismo e a juventude da lista liderada por Agnes Lam, a confusão das listas 1, 17, 19 e 24 ou mesmo a ligação ao dia-a-dia e quotidiano da candidatura encabeçada por Au Kam San, com uma imagem mais informal. Para além disso, foi salientado o facto de haver uma grande preocupação com o tratamento digital das fotografias e de remeter para redes sociais e códigos QR

 

Liane Ferreira, Rima Cui e Viviana Chan

 

Ao décimo segundo dia de campanha eleitoral, continuam os comícios e actividades de distribuição de panfletos e programas, ao mesmo tempo que também se apela aos “corações” dos eleitores. Alguns candidatos enviaram nos últimos dois dias, através das redes sociais, mensagens dizendo que esperam uma diminuição no número de votos, pedindo por isso mais uma oportunidade para mostrarem o que valem no Hemiciclo.

Estas mensagens mantêm o estilo e design apresentados nos cartazes e que é hoje o foco da análise de campanha do Jornal TRIBUNA DE MACAU, com três especialistas em design a pronunciarem-se sobre o estilo dos mesmos e se são ou não bem sucedidos em termos da transmissão das mensagens dos candidatos.

Atenta às eleições desde que foram divulgados ao público os cartazes dos candidatos às eleições para a Assembleia Legislativa, Joanne Wong, coordenadora assistente do programa de Design da Escola Superior de Artes do Instituto Politécnico de Macau (IPM) nota que, em geral, os cartazes correspondem aos temas principais, com cores e modelo de paginação que transmitem particularidades dos grupos.

Entre os cartazes das 24 listas, a atenção da docente foi facilmente capturada pela lista 4, liderada por Anges Lam. Na sua opinião, o uso do cor-de-rosa constituiu uma boa ideia, porque a protagonista da lista é uma mulher.

Além disso, elogia a lista de Agnes Lam por recorrer a cores claras que transmitem com sucesso as ideias de dinamismo e juventude, o que faz com que as pessoas associem facilmente estes adjectivos à atitude de trabalho activa desta candidatura.

Apesar de considerar que algumas listas já têm experiência nas campanhas eleitorais, conseguindo por isso transmitir um sentimento de confiança através dos cartazes, a docente do IPM salienta que em alguns casos os candidatos “parecem não se importar com o design, ignorando a importância que deve ser dada às especificidades da lista, e nalgumas situações até se desviam do tema”.

Para a académica, o design do cartaz é essencial para a campanha, porque é a primeira impressão que deixa na mente dos cidadãos. “Quando falamos de cartazes, se o candidato não se importar com a imagem, não tendo capacidade de coordenar o desenho básico com o tema, será muito difícil influenciar a decisão dos cidadãos”, frisa.

“Algumas equipas não fizeram bem o trabalho de divulgação, pois recorreram a cartazes com imagens confusas, levando a que as pessoas nem tenham vontade de abrandar o passo para ver o conteúdo”, indicou. Esse foi o caso das listas 19, liderada por Hong Weng Kuan, e 24, de Kou Meng Pok, que representa os interesses dos compradores do “Pearl Horizon”.

Na sua perspectiva, esses são exemplos de design confuso, porque usaram demasiados caracteres com curtas distâncias entre si, o que cria uma atmosfera abafada. “Assim, será muito difícil atrair pessoas a aproximarem-se para ver o cartaz e, mesmo que o façam, poucas irão perder muito tempo a ler o conteúdo”, alertou.

Por outro lado, o cartaz da lista 3, encabeçada por Ng Kuok Cheong, despertou também a atenção da académica, porque contém a

imagem de uma conversa no “Wechat”. Embora compreenda a ideia da lista de querer transmitir a ideia de actualidade e do mundo moderno, Joanne Wong entende que este método não coloca em destaque a importância da campanha.

Como sugestão, a docente de design considera que seria preferível os candidatos mudarem de postura. Ou seja, em vez de fazerem poses, deveriam optar por mostrar a relação com os cidadãos com acções. “Quem quiser destacar o apoio dado aos idosos, pode usar uma fotografia desse acto em que esteja a prestar ajuda aos idosos, mostrando sorrisos”, disse exemplificando.

Joanne Wong referiu ainda que muitos candidatos escolheram a boa aparência nos cartazes, quando o mais importante é destacar as funções e o papel concreto da equipa no modo como poderá contribuir para a sociedade.

Neste ponto, a académica não acredita que o uso de uniformes associados com uma profissão possa ajudar na campanha, como é o caso da lista 25 de Cloee Chao, oriundo do sector do jogo e da profissão de “croupier”. “Vestir simplesmente o uniforme não serve para transmitir o papel, porque é preciso mostrar aos eleitores quais são as capacidades da equipa”, salientou.

 

Do dinamismo à confusão e infelicidade na escolha da cor

Por sua vez, George Lee, professor de produção audiovisual da Universidade Politécnica de Hong Kong, começa por destacar que “muitos deles (cartazes) têm cores brilhantes, o que pode chamar directamente a atenção do público”.

George Lee aponta que “a paginação da maioria dos cartazes realça a cara do cabeça de lista e dá destaque ao número ou nome da lista”. “As cores brilhantes mostram o dinamismo dos candidatos, as palavras e as cores identificam também o estilo dos mesmos, mas isso é normal”, disse.

Destacando as listas 20, liderada por Mak Soi Kun, e 14 de Angela Leong, por terem escolhidos cores que depois conjugam com acessórios, George Lee nota que tal método serve para atrair os eleitores neutros. “A informação é transmitida em via directa, simples, nada extraordinário ou exagerado”, frisou.

Outro estilo presente é mais “simplista”. “Há listas que não gastaram muito tempo, nem dinheiro a fazer o design dos cartazes e em que, por exemplo, alguns candidatos e cabeças de lista usam camisolas, trajes informais, o que acaba por ser uma escolha muito popular. Estas listas querem mostrar que os candidatos estão próximos da população e também da vida quotidiana, sem darem uma imagem demasiado perfeita”, analisa.

O docente coloca também em destaque o cartaz da lista 13 “Associação de Novo Movimento Democrático”. Além de ter a foto de Au Kam San, o cartaz tem uma foto tirada ao lado de uma carrinha e os candidatos da lista a mostrarem o seu trabalho no dia-a-dia, criando a ideia de honestidade perante os eleitores.

Por sua vez, os cartazes das listas 1 “Nova Ideais” e 17 ”Ou Mun Kong I” têm muitos caracteres, o que torna difícil a compreensão, devido à confusão. “Este tipo de design pode ter um efeito contrário, porque parecem mais cartazes da Falun Gong (seita religiosa)”, diz, notando que estes casos são bons exemplos de um mau cartaz.

Por sua vez, Ng kuok Cheong criou a imagem de um académico. “Ele usa a imagem de uma conversa no Wechat, ou seja não tem nem oferece muita informação, mas transmite o suficiente. Para além disso, mostra que não é necessário escrever muito para perceber o programa político do candidato”, explica em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

“Os eleitores podem não conhecer o candidato, por isso este normalmente prefere usar elementos exagerados para chamar a atenção”, refere em relação a Sze Lee Ah, cabeça da lista 12 relativamente à imagem de Che Guevara e uso de “palavras fortes” que transmitem de forma clara a forte identidade do candidato.

O académico de Hong Kong mostrou-se surpreendido com a lista 24 do Pearl Horizon. “O cartaz é maioritariamente preto, tem um tom pesado e por isso transmite uma mensagem negativa”, adverte.

Questionado sobre a insuficiência de informação em português, já que também é língua oficial, George Lee nota que “infelizmente é impossível colocar todas as informações em duas línguas num cartaz”.

 

Cartazes condicionados e muito retocados

Numa análise mais técnica, Carlos Sena Caires, coordenador do Departamento de Design da Universidade de São José, salienta ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que “de um ponto de vista geral, existe uma grande uniformização dos cartazes, condicionada pela formato rectangular vertical, utilizado na campanha”.

“Não existe um contraste de cores, nem uma gama de cores variada, optando-se para cores mais neutras e standards”, afirmou Carlos Sena Caires, notando ainda que a tipografia usada não é um elemento contrastante, e na maioria dos casos são utilizados mais do que dois tipos de letras por cartaz.

O docente considera ainda ser “notório o cuidado pela ‘imagem’ dos candidatos, sendo visível o tratamento digital realizado na maioria das fotografias”. “Tão pouco se faz uso ao desenho à mão, seja de ícones, logótipos e/ou desenho dos candidatos. Todos os cartazes são muito preenchidos, com conteúdos gráficos e imagéticos, não existindo uma tendência para o minimalismo gráfico e comunicacional”, realça, acrescentando qua a maioria dos cartazes remete para as redes sociais e para o uso dos códigos QR.

Para além disso, em termos de composição, a “maioria dos cartazes utiliza uma ou várias diagonais para criar algum dinamismo e quebrar uma leitura demasiado uniforme. A diagonal ajuda, na maior parte dos cartazes a criar dois ‘momentos’ de leitura e a dividir os conteúdos imagem/texto. O círculo é igualmente usado em muitos cartazes para realçar, na maioria dos casos, o número da candidatura”.

No que diz respeito à cor, os vermelhos são predominantes, bem como a tonalidade verde e azul, no entanto “a maioria dos cartazes utiliza cores planas, não fazendo uso dos gradientes cromáticos”.

“É notório em todos os cartazes o realce dado ao número da candidatura, e em alguns casos é o elemento gráfico predominante. A fotografia dos candidatos é, na maioria dos cartazes, cortada a meio corpo (salvo duas excepções que utilizam fotografias dos candidatos a corpo inteiro) e o slogan da candidatura aparece como terceiro elemento mais predominante”, destaca Carlos Sena Caires.

 

Paul Chan Wai Chi supeito de desobediência qualificada

O Corpo de Polícia de Segurança Pública (CPSP) encaminhou dois casos de irregularidades durante a campanha eleitoral para o Ministério Público, sendo que um deles envolve a lista 7. Por sua vez, esta acusa a polícia de abuso de poder. Neste caso, o CPSP encontrou um cartaz na Rua Sul do Patane, tendo um indivíduo ligado à candidatura em causa alegado que um dos membros da lista tinha mandado colocar o cartaz, facto confirmado pelo candidato. Segundo a Rádio Macau, alguns agentes dirigiram-se a Paul Chan Wai Chi, número 2 da lista Associação do Novo Progresso de Macau, dizendo que as bandeiras eram ilegais e queriam fazer algumas detenções. Paul Chan Wai Chi assumiu responsabilidade em relação aos participantes, mas terá dito que não respondia pelas suas acções. Ainda assim, acompanhou os agentes. Jason Chao disse que a versão do CPSP não coincidia com o que se passou e defendeu que a acção não foi ilegal, atendendo a uma decisão judicial de 2011 que determina que os espaços públicos são parte da liberdade de reunião. O activista, ligado à lista, lamentou o número de locais públicos destinados à afixação de propaganda e realização de actividades e deixou críticas ao presidente da Comissão de Assuntos Eleitorais, frisando que, independentemente das restrições das reuniões, existem “leis superiores”. No outro caso, um suspeito terá colocado um cartaz eleitoral na sua loja, no entanto este não é um local autorizado para afixação de propaganda. O responsável do estabelecimento, na Rua do Almirante Costa Cabral, teve de retirar o cartaz. O CPSP frisou que os dois casos violam a Lei Eleitoral e avançou que já foram encaminhados para o Ministério Público. Os dois suspeitos poderão ser acusados de desobediência qualificada.

 

V.C.