O presidente do Fórum Luso-Asiático acredita que os 8.000 portugueses e macaenses que residem na RAEM sentem-se abandonados, até porque “um reforço do sistema socialista do continente” tem um impacto “indisfarçável” na autonomia jurídica e judicial do território. Arnaldo Gonçalves falava por ocasião do 20º aniversário do organismo que lidera que vai ser celebrado com uma palestra em Lisboa intitulada “A relação especial Portugal/China”

 

Os cerca de 8.000 portugueses e macaenses a viver na RAEM dizem sentir-se “abandonados” quando “um reforço do sistema socialista do Continente se faz sentir com impacto indisfarçável no segundo sistema, na autonomia jurídica e judicial, que ficou garantida com a Declaração Conjunta entre Portugal e a República Popular da China”. Quem o diz é o presidente do Fórum Luso-Asiático por ocasião do 20º aniversário do organismo que lidera, acrescentando que aquilo que se vai percebendo é que “o período de transição de 50 anos, até 2049, já não faz sentido para certas forças chinesas e que o sistema socialista chinês poderá alargar-se a Macau antes dessa data”.

Para Arnaldo Gonçalves, isso “poderá acontecer pela passividade da nossa representação diplomática e consular”. Nesse sentido, lançou um apelo ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República portuguesa para que se faça um acompanhamento “mais atento ao quadro de relações entre Portugal e a China que ultrapasse a aritmética folclórica da atribuição de ‘vistos gold’ a nacionais chineses que compram propriedade imobiliária no país”. Em vez disso, essa relação “deve materializar-se em parcerias económicas e empresariais que tragam valor acrescentado ao país numa perspectiva de médio e longo prazo”.

A um nível mais abrangente, Arnaldo Gonçalves entende que a relação Portugal-China poderia estar de melhor saúde e aproveita para tecer algumas críticas ao desempenho português “insuficiente”, manifestando grande preocupação face à “apatia do desempenho de Portugal da sua política externa para com a Ásia e a China em particular”.

O presidente do Fórum Luso-Asiático lamenta que “o Ministro dos Negócios Estrangeiros se preocupe mais em gerir a rotina dos serviços diplomáticos e consulares do que em gizar programas e projectos que sejam mobilizadores e úteis à visibilidade de Portugal na China”. Portugal é ainda acusado de falta de acção defendendo que “a parceria estratégica global entre Portugal e a China não tem tido quaisquer resultados palpáveis pela inércia de Portugal”, já que os dados do comércio bilateral “são irrisórios”.

Para justificar a afirmação, Arnaldo Gonçalves explica que as trocas comerciais entre Portugal e o Continente valem apenas 2,25 mil milhões de dólares americanos, uma “pequena fracção” das relações comerciais da China com países lusófonos. “As nossas exportações não penetram na China e os produtos de “bandeira”, como os vinhos, os enchidos, queijos e calçado continuam ausentes dos retalhistas chineses, o que contrasta com a penetração de produtos italianos e espanhóis”.

Na sua perspectiva, esta situação pode ser explicada por uma “desatenção” da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal que “funciona como estrutura de acompanhamento de visitantes oficiais e não como um motor de projecção dos interesses económicos de Portugal na Região”.

No mesmo âmbito, o Fórum Luso-Asiático enquanto organismo “manifesta grande preocupação com a falta de atenção dada ao Fórum Económico e Comercial da China com os países de língua oficial portuguesa”. Arnaldo Gonçalves acredita que, tanto no passado como no presente, Portugal “tem sido incapaz de apresentar dois ou três projectos que possam concorrer ao fundo de financiamento que o Governo Central transferiu para Macau”. “É uma inércia que nos envergonha e que é motivo de ‘chalaça’ em fontes próximas do Governo Central chinês”, assegurou o mesmo responsável.

O Fórum Luso-Asiático comemora o 20º aniversário hoje, com uma palestra intitulada “Construir Pontes – derrubar muros – A relação especial Portugal/China”, a ter lugar hoje, na livraria Ferin, em Lisboa, pelas 18:30 (horário português).