Nos primeiros seis meses deste ano, a ANIMA resgatou 85 cães e 291 gatos, sendo que no caso dos felinos o número já supera o total de 2016, avançou Albano Martins ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. No capítulo da adopção, até Junho, 92 animais receberam uma nova família, mas os abrigos alojavam 682 no final do primeiro semestre. Albano Martins já solicitou mais apoio financeiro para 2018

 

Catarina Almeida

 

A Sociedade Protectora dos Animais (ANIMA) resgatou 190 cães em 2016, contra 202 em 2015, avançou Albano Martins ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. “A razão pela qual esses números diminuíram é porque estamos cheios, é quase um milagre encontrarmos um espaço”, salientou.

No que respeita aos gatos, foram retirados das ruas 195 em 2015 e 286 no ano passado. Estes números reflectem uma tendência contrária ao que chegou a ser apontado na Assembleia Legislativa de que “os gatos não precisavam de tanta adopção”. “A verdade é que há mais gatos nas ruas do que cães só que os gatos não incomodam, escondem-se e adaptam-se”, apontou o presidente da ANIMA.

Quanto aos primeiros seis meses deste ano, o cenário é relativamente diferente, uma vez que o número de gatos resgatados ultrapassou o total de 2016. “Até Junho resgatámos 85 cães, pouco menos face ao ano anterior. Só em seis meses, resgatámos 291 gatos”, destacou.

Este contexto reflecte-se por todas as variantes da ANIMA, que estão a “crescer fortemente” até em termos de adopção: em seis meses, 72 gatos receberam um novo lar face aos 15 de 2016.

Em contrapartida, no caso dos cães, a realidade é menos animadora. No ano passado, foram adoptados 63 cães, menos seis do que em 2015. Além disso, até Junho, a ANIMA conseguiu arranjar uma nova família para 20 cães.

Actualmente, a instituição de entidade pública não tem mãos a medir. Dados fornecidos a este jornal indicam ainda que, até 30 de Junho, as instalações da ANIMA albergavam 682 animais (400 cães e 282 gatos). Contabilizando os abrigos, os números sobem para cerca de 500 cães e 1.000 nos gatos, aos quais a associação distribui alimentos. “Por isso é que as nossas despesas anuais com a alimentação rondaram, em 2016, um milhão e 157 mil patacas”, disse Albano Martins.

Só para cobrir despesas com tratamentos em clínicas e na ANIMA, a associação gastou um milhão e 540 mil patacas. “Está sempre a aumentar. Temos mais animais e mais pedidos de resgate. A ANIMA tem aumentado em todas as variáveis – não só em termos de animais – como em termos de visitas”, explicou, estimando que, este ano, as instalações sejam visitadas por 10 mil pessoas, mais 4.000 mil face a 2016. “É uma maneira de educarmos as pessoas porque se apercebem da situação em que os animais vivem. Embora os animais tenham uma qualidade de vida razoável na ANIMA, a verdade é que estamos cheios e acabamos por degradar a qualidade de vida deles”, lamentou.

 

Abandonos vão diminuir

Com a Lei de Protecção dos Animais em vigor desde Setembro de 2016, o presidente da ANIMA entende que “ainda é cedo” para avaliar se a sua implementação está a surtir efeitos notórios. “Durante um ano, os abandonos vão continuar mas depois a Lei vai ser mais eficaz, ou seja, vai-se notar uma quebra no número de abandonos”, antecipa.

“Há muitos animais que apanhamos que já nasceram nas ruas e isso já é um efeito anterior, mas, gradualmente, à medida em que vamos esterilizando todos os animais” a situação vai mudando, indicou Albano Martins, ressalvando que é muito difícil conseguir retirar todos os animais das ruas até porque “há zonas perigosas”.

Embora reconheça que a lei está a ajudar a eliminar alguns problemas em relação aos cães, Albano Martins acredita que só em Setembro de 2018 é que se poderá avaliar se a “lei protege mais e impede que os animais sejam abandonados”.

Em relação aos gatos, a situação é diferente, até porque “se perdem e nem se sabe de onde vêm”. “Temos dois tipos: aqueles que se afastam e outros que se aproximam e querem festas – o que se nota que já viveram num seio familiar – só que não têm microchip, ninguém consegue saber quem são os donos”, explicou.

Neste campo, a relação com o Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) é “tão boa” que são distribuídos microchips para “todos os nossos gatos, pelo menos os que saem adoptados”, salientou Albano Martins. “A primeira coisa que fazemos quando apanhamos um cão é passar a máquina para ver se tem chip. Se sim, levamos para o IACM e só eles têm a base de dados, contactam o dono que diz se quer ter o animal de volta e, nesses casos, entregamos o cão ao Canil Municipal para seguir os trâmites normais. Mas com os gatos não”, disse.

Essa relação estende-se à colaboração entre o Canil Municipal e o “Paraíso dos Gatos” da ANIMA, em Coloane. “Uma vez por mês, o IACM pede-nos para levarmos os gatos que estão no Canil para o Paraíso. Para o IACM é uma adopção e para nós é um resgate porque não os adoptamos, resgatamos”, explicou.

Além disso, em relação ao cães, “o Canil Municipal de Coloane é todo gerido pela ANIMA”. “Os animais que lá estão ou vieram da ANIMA ou apanhámos nas ruas, mas ficam com microchip do IACM, e quando não temos espaço, vão para lá”.

Com os animais a precisarem de apoio a vários níveis, a associação depara-se com um certo estrangulamento financeiro. Todos os anos, a Fundação Macau (FM) distribui um subsídio de 3,5 milhões de patacas, face aos 3,19 milhões que a associação regista em despesas com animais ao nível de equipamentos, entre outros. Porém, feitas as contas totais, os gastos da ANIMA atingiram 8 milhões e 728 mil patacas em 2016. “Fazemos um esforço enorme para conseguir arranjar fundos para suportar o resto das despesas e temos vindo a arranjar, mas isto não é um negócio. Não vendemos animais e o que nos pagam quando adoptam um gato é exactamente o mesmo valor que nós pagamos ao IACM pela licença do animal”, destacou.

A ANIMA emprega actualmente 37 pessoas. Só para despesas com o pessoal foram gastos quase cinco milhões de patacas. “Se somos uma instituição de entidade pública, reconhecida pelo Governo – que está tão cheio de dinheiro – porque que continuam a querer dar-nos três milhões e 500 mil patacas?”, questionou Albano Martins, adiantando que, para o próximo ano, a ANIMA já solicitou um “aumento colossal” no valor do subsídio de modo a precaver eventuais gastos-extra com o fecho do Canídromo. “É um ano em que provavelmente poderemos vir a ter de lidar com os galgos e temos que orçamentar o custo de ter pessoas a trabalhar e de ter mais esses animais”, afirmou.

 

IACM distribui mais licenças

Já os dados do Canil Municipal revelam que o IACM retirou das ruas 49 cães e quatro gatos entre Janeiro e Junho. Em igual período de 2016, resgatou 62 cães e quatro gatos.

Por outro lado, os dados publicados no site do Canil apontam para um aumento na atribuição de licenças. Foram emitidas, até Junho, 12.097 licenças de animais de estimação, mais 1.618 do que em igual período de 2016. “O IACM aceitou a nossa sugestão e por isso é que a atribuição de licenças aumentou. Aliás, quando em 2005 o Governo baixou de 2.000 para 500 patacas, o número de licenças duplicou”, recordou Albano Martins.

“Durante anos e anos, a ANIMA lutou para baixar as licenças pela simples razão de que [Macau] é teoricamente uma zona de raiva e, portanto, há sempre um risco latente”, recordou.

Actualmente, ao abrigo da nova lei, as licenças dos animais de estimação são válidas por três anos e, nos casos dos esterilizados, o dono terá de pagar 300 patacas. “O IACM tem vindo a achar que o que nos dizemos tem lógica e aceita colaborar connosco”, salientou Albano Martins, considerando que o trabalho do organismo tem sido “óptimo”, notando-se uma “grande diferença” na abordagem ao tratamento dos animais. “Têm sido simpáticos ao ponto de nos ouvirem em pé de igualdade”.

As estatísticas oficiais indicam ainda que, até Junho, foram abatidos 55 cães e dois gatos. Segundo o Canil Municipal, no período homólogo de 2016, tinha sido retirada a vida a 89 animais. Para Albano Martins, não se pode “condenar o IACM de ânimo leve, como muitas associações fazem, por abater animais”. “A nossa política é de não matar e mantemo-nos fiéis a essa atitude mas entendemos o dilema de quem é obrigado a tirar os animais das ruas. Não podem fechar os olhos”.

Em contrapartida, no primeiro semestre, foram adoptados através do Canil 106 cães e 39 gatos, ou seja, menos três e mais quatro do que no período homólogo de 2016.