Os 150 anos do nascimento de Camilo Pessanha têm marcado o território com eventos comemorativos daquele que é considerado um expoente da poesia portuguesa em Macau. Ontem e hoje, decorre no Instituto Politécnico de Macau, um colóquio focado no estudo científico da sua obra. Carlos André lançou um repto: “vamos estudar a poesia dele em vez de estudar a porta da casa onde morou”

 

Salomé Fernandes

 

É com um olhar científico sobre a obra de Camilo Pessanha que o  Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa (CPCLP) do Instituto Politécnico de Macau (IPM) quer celebrar o 150º aniversário do seu nascimento. O colóquio “Camilo Pessanha novas interrogações”, começou ontem e estende-se pela tarde de hoje para mostrar a obra do poeta, e ir além da sua vida em Macau.

Pessanha nasceu em Coimbra a 7 de Setembro de 1867, tendo vivido em Macau desde 1894, onde veio a morrer a 1 de Março de 1926. Como acontece com vários autores, a sua obra foi reconhecida e ganhou valor depois da morte, tendo sido recordado através de exposições de artes plásticas, fotografia, conferências e lançamentos de livros. Chegou agora a vez da análise científica da sua obra.

“Ultimamente tem havido demasiada vontade de perceber a vida de Camilo Pessanha em Macau, e acho que isso pode ser interessante mas não é o mais importante. Ele era um poeta, vamos estudar a poesia dele em vez de estudar a porta da casa onde morou”, apelou Carlos André, coordenador do CPCLP.

O evento, que inclui comunicações sobre questões biográficas do poeta, é voltado para a análise literária da sua obra, da qual Carlos André garante haver ainda muito por explorar. “Quando um poeta está esgotado morreu. Ora Camilo Pessanha não morreu”, declarou.

Por ser uma instituição de ensino superior, a natureza da homenagem deveria ser de carácter científico, sendo que o dirigente do CPCLP indicou que a grandeza de Camilo Pessanha justifica que a comunidade académica olhe para a sua obra, a investigue e partilhe entre si o resultado dessas reflexões.

O próprio Carlos André afirma ter descoberto mais sobre a obra do autor ao investigar para a comunicação que realizou ontem, sob o título “Contradições do sentimento de ausência em Camilo Pessanha”. Descobriu nos seus poemas marcas da literatura do exílio de primeira pessoa, por prolongar o momento do adeus, e paradoxalmente desejar e recear a morte.

No poema “Depois das Bodas de Oiro”, Camilo Pessanha escrevia “Temo de regressar… /E mata-me a saudade… /_Mas de me recordar / Não sei que dor me invade.” Palavras de Pessanha passadas durante o colóquio na voz de Carlos André, para indicar a vontade que o poeta tinha de regressar a Portugal, e simultaneamente o medo da dor que isso possa causar, visto que “todo o exílio é sem remédio”.

O coordenador do CPCLP indicou que releu várias vezes a obra. “Eu tinha lido a Clepsidra, nunca tinha pensado estudar a fundo Camilo Pessanha. Não é propriamente a minha área de trabalho, mas quando um poeta me começa a interessar sou capaz de perder noites e noites a tentar no fundo levantar as pedras e os tijolos e a encontrar algo por baixo. E de repente dei-me com isto que partilhei aqui”. O tema de investigação surgiu a Carlos André pelo facto de a literatura do exílio o ter acompanhado durante a sua carreira universitária.

No entanto, a novidade não se esgota aqui. Um dos temas que o professor apontou como novo, e que vai ser abordado hoje no colóquio, é a ligação entre Camilo Pessanha e a língua portuguesa. Ou seja, “até que ponto estas palavras constituem de facto um enriquecimento por exemplo, da semântica da língua portuguesa”, indicou Carlos André.

Sugeriu ainda a possibilidade de se estudarem as metáforas escondidas na sua poesia para perceber, por exemplo “como é que olha o seu país, que é o seu, onde ele nasceu, no seu passado, no seu futuro, na sua essência, sendo ele alguém que olha o seu país de fora para dentro, porque como um dia me dizia Eduardo Lourenço, para percebermos bem Portugal precisamos de sair para olhar de fora para dentro”.

Pessanha era “enfermo de todos os males de ausência, ainda por cima avesso a convívios de circunstância”, disse, acrescentando que a custo era “aceite pelo outro por lhe ser impossível deixar de ser estranho e estrangeiro”. “Não chinês, e talvez já não português. Uma espécie de cidadão de terra de ninguém. Tão é paradoxo como desconforme. Descentrado, digamos, quase nos limites do marginal”, como o definiu Carlos André, não foi o facto de ser contraditório mas o peso de cada palavra que o marcou.

“Cada palavra em Camilo Pessanha tem um significado e um peso muito especial, e isso é que de facto me surpreendeu”, disse.

 

Mostrar Pessanha por outros prismas

Sara Augusto partiu de um poema budista traduzido por Camilo Pessanha para fazer uma análise literária da sua obra. Vânia Rego, focou-se na prosa, denotando como os seus contos captavam rapidamente momentos de transformação na vida das personagens. Tereza Sena, historiadora, foi a única palestrante a enveredar ontem pela via biográfica, propondo uma reflexão sobre “Camilo Pessanha e os outros” para se afastar da construção mais comum da imagem do poeta. Para isso, quis levar ao IPM uma “releitura” da biografia existente sobre ele.

“Independentemente de todas as suas características e particularidades ele é um homem que pertence a um determinado grupo, a um quadro mental que integra o funcionalismo ultramarino, e ele mesmo confessou estar empenhado nesse projecto nacional português para Macau, independentemente da abordagem e interesse que tenha pela cultura chinesa. Tem uma acção de pedagogo, de jurista, e uma intervenção cívica também”, explicou Tereza Sena.

É daqui que parte para sugerir olhar para Pessanha com uma perspectiva diferente: a de homem normal. A historiadora optou por analisar as relações afectivas, em parte através do trabalho iconográfico das dedicatórias que Pessanha fez nas fotografias a diversas pessoas, para perceber quem intervinha na sua vida.

“Depois da sua morte criou-se um certo mito em torno de Camilo Pessanha, há toda uma apropriação depois de comportamentos que Camilo teria”, apontou Tereza Sena. No entanto, acredita que os factores de fricção do poeta na sociedade são um tema já explorado, e quis “trazer um Pessanha mais quotidiano”.

Já Maria Antónia Jardim, presente através da Fundação Oriente, apresentou uma visão do poeta como “educador épico-ético”. Há 20 anos lançou a sua tese de mestrado, sob o mesmo tema na Livraria Portuguesa. Uma perspectiva que se manteve até aos dias de hoje. “Acrescento talvez o lado mais oculto dele, ligado à maçonaria, aos rituais, à alquimia”, indicou.

A escritora, que é também pintora, indica que foi através do poema “branco e vermelho” que começou a analisar a manipulação dos símbolos na obra de Pessanha, e posteriormente no poema “violoncelo”. “A partir desses poemas e olhando para os outros é visível esse processo alquímico que o categoriza. O querer ir mais além, o querer uma meta-vida. E fazer-nos repensar a nossa existência mas sempre num processo de evolução, o que acho que está visível em toda a obra da Clepsidra”, descreveu Maria Antónia Jardim.

Garantiu que Camilo Pessanha estava consciente da presença da simbologia devido às suas ligações maçónicas. “Sendo maçom, tem de conhecer os símbolos por dentro, e portanto sabia muito bem que ao utilizar um símbolo tinha essa força de sugerir mas também de esconder”, frisou, acrescentando ainda que a obra do poeta partia do subconsciente para “tornar lúcida e clara a sua própria vivência enquanto humano nesta terra”.