Os atletas da Ucrânia ganharam à vontade as duas principais corridas da Maratona Internacional de Macau, deixando em segundo plano os africanos. Países lusófonos deram nas vistas na Meia

 

Vítor Rebelo

 

O tempo que se fez sentir na manhã de ontem, com uma temperatura de cerca de 13 graus e vento forte e frio, terá deitado por terra a provável estratégia africana para mais uma Maratona Internacional de Macau.

Os representantes dos países de África, mais concretamente quenianos e etíopes, já não perdiam a competição masculina da RAEM desde 2010 e tudo apontava para que, nos tempos mais próximos, fosse muito difícil parar a armada africana.

Mas a surpresa aconteceu, com os dois atletas convidados da Ucrânia a dominaram as duas corridas, masculina e feminina, acabando por não ter sequer grande oposição por parte dos principais adversários, que parece terem “congelado” em virtude do frio que se fazia sentir na madrugada de sábado para domingo.

Assim, Vitaliy Shafar e Olena Shurkhno, agradeceram o frio e foram lá para a frente desde os primeiros quilómetros.

No que diz respeito à categoria masculina, Vitaliy Shafar trazia um excelente tempo pessoal (2.09.53), tendo acelerado bem cedo na maratona, o que terá surpreendido o contingente africano, desfalcado do vencedor das duas edições anteriores, o queniano Julius Kiplimo Maisei. Até a própria organização ficou surpreendida pela ausência do queniano, uma vez que a sua inscrição estava feita e o atleta era esperado na largada do Estádio da Taipa.

Kiplimo não apareceu, por razões não totalmente esclarecidas, tendo o seu agente informado a organização já na partida e tentado “impingir” um outro atleta queniano, que não se encontrava inscrito, entretanto rejeitado pelos responsáveis da prova.

Enquanto isto, lá estava na largada o segundo classificado de 2014, também do Quénia, Domionic Kangor, que passava assim a ser o “alvo a abater” por parte dos restantes principais candidatos, assim como o terceiro, o compatriota Duncan Koeche.

Aos poucos, quilómetro a quilómetro, Vitaliy Shafar foi-se desenvencilhando dos rivais e foi precisamente Dominic Kangor o que acompanhou durante mais tempo o ucraniano.

A passada de Vitaliy dava a entender que poderia haver surpresa na maratona deste ano e isso aconteceu mesmo à chegada ao estádio, com o fundista que veio do frio a cortar a meta com um minuto e um segundo de diferença em relação a Kangor, o que diz bem da superioridade de Vitaliy Shafar, que fechou a prova com o tempo de duas horas, 14 minutos e 44 segundos, ficando a dois minutos e um segundo do recorde do percurso.

Dominic Kangor ainda tentou acelerar nos derradeiros quilómetros, mas o ucraniano “manteve-se fresco” até ao fim.

O queniano registou 2.15.45, apenas menos um segundo do que o terceiro posicionado, o etíope Abraraw Misganaw.

Seguiram-se quatro homens do Quénia, de quem se esperava, à priori, que integrassem também o lote dos principais protagonistas da Maratona.

No final da corrida, Vitaliy Shafar estava satisfeito por conseguir a segunda vitória da carreira, desde que decidiu enveredar pelas provas de fundo: “Estou muito contente com este título em Macau, que é o meu segundo, depois da vitória em Varsóvia em 2006”.

O ucraniano alinhou pela primeira vez em Macau e gostou do percurso: “É muito bonito, com as pontes e os locais à sua volta. Claro que as pontes e os túneis fazem a diferença no final, mas Boston, por exemplo, tem subidas bem mais complicadas. O pior hoje (ontem) foram as condições climatéricas. Mesmo assim arranquei rápido e desde cedo deixei de contar com vários adversários, que poderiam ter-me acompanhado mais tempo e ajudado a impor o ritmo. Há muitas curvas e perde-se a velocidade, mas consegui ganhar.”

Boa corrida fizeram os estreantes vindos de Portugal, Tiago Silva e Miguel Quaresma, que não se largaram até aos derradeiros metros, tendo sido Tiago a cortar primeiro a linha de meta, em oitavo, com 2.28.58, logo seguido pelo compatriota, que perdeu algum terreno na parte final, fechando com 2.29.18.

O melhor atleta de Macau foi Kuok Chi Wai, em 11º (2.37.49).

 

Olena dominadora

Na prova destinada às senhoras, a Ucrânia deu igualmente nas vistas, e com Olena Shurkhno a conseguir uma maior diferença do que o seu compatriota da corrida masculina, isto em relação à segunda classificada, a queniana Ruth Wanjiru Kuria, quarta em 2014, que cortou a linha de meta com 2.36.13, contra 2.33.24 da primeira classificada.

A terceira veio da Etiópia, Ayelu Abebe Hordofa (2.36.49), à frente de duas norte-coreanas, kum Hui Rim e Un Ok Jo.

No final, Olena Shurkhno reconhecia que as emoções eram muitas: “Estou muito contente e com emoções várias pelo facto de ter sido campeã aqui em Macau. A prova correu-me bem e o percurso não é fácil. É um desafio por causa das pontes e por baixo delas. O tempo esteve difícil, estava frio e vento, mas de uma forma geral correu tudo bem”.

A única atleta de Portugal, Luisa Manuela Oliveira, também ela uma estreante nestas andanças asiáticas, terminou em 12º (2.56.10), enquanto que Hoi Long, de Macau, se cotava como a 15ª (3.00.36).

 

Países da lusofonia
destacam-se na Meia

Os atletas lusófonos estiveram entretanto em grande plano na Meia Maratona, ocupando os quatro primeiros lugares.

O título pertenceu à portuguesa Carla Gabriela Martinho, com a marca de 1.18.56, seguida por Crisolita Rodrigues Silva, de Cabo Verde (1.29.50), Djamila Correia Tavares, de São Tomé e Príncipe (1.32.34) e Natércia Ximenes Maia, de Timor Leste (1.32.58).

A atleta de Macau, Yang Yang Wu foi quinta (1.33.19).

Nos homens o mais rápido foi o queniano Joseph Ngare (1.05.19), à frente do cabo-verdiano Nelson Neves da Cruz (1.07.56), de outro atleta do Quénia, David Mutai (1.08.06) e do português Bruno Ramos da Silva (1.08.24).

Também uma referência à Mini, integrada por “gente famosa”, desde logo a portuguesa Rosa Mota, antiga campeã olímpica, que correu ao lado do Secretário Alexis Tam (deu o exemplo da necessidade de se fazer exercício físico…), de Alex Wong, presidente do IACM e José Tavares, presidente do Instituto de Desporto.

José Tavares considerou que a Maratona deste ano trouxe boas surpresas: “Não se esperava que os atletas da Ucrânia pudessem bater os africanos. Talvez se o vencedor do ano passado tivesse comparecido a luta tivesse sido diferente. Para os ucranianos foi bom, vitórias destas têm outro sabor. Talvez a chuva que caiu no início tenha condicionado a corrida”.

De referir que a Maratona Internacional do território, há vários anos patrocinada pela Galaxy, teve desta feita algumas alterações no percurso, passando pelo Campus da Universidade, na Ilha da Montanha e pelo Templo de A-Má, aqui celebrando o aniversário do reconhecimento, pela UNESCO, da inscrição do Centro Histórico de Macau como Património Mundial.

Relativamente aos prémios, os vencedores da maratona, Vitaliy Shafar e Olena Shurkhno, arrecadaram cheques de 25 mil dólares americanos cada um, 20 mil pelo triunfo e mais 5 mil de bónus, por terem feito tempos inferiores, respectivamente, a 2.16 e 2.35.