Júri é presidido pelo realizador espanhol Pedro Almodóvar
Júri é presidido pelo realizador espanhol Pedro Almodóvar

Filmes sobre a crise dos refugiados, as mudanças climáticas e o activismo dão um colorido político à 70ª edição da maior mostra de cinema do mundo, entre apertadas medidas de segurança, incluindo vasos de flores gigantes para impedir ataques com camiões

 

A polémica com a plataforma digital Netflix, medidas de segurança reforçadas e uma programação com forte cunho político marcam desde já o 70º Festival de Cinema de Cannes, que começou ontem e terminará no dia 28.

O destino dos refugiados é um tema abordado em vários filmes, alguns inclusive na mostra oficial. Em “Happy end”, o realizador austríaco Michael Haneke, que já tem duas Palmas de Ouro, volta a trabalhar com Isabelle Huppert e Jean-Louis Trintigant para contar a história de uma família burguesa do norte da França, que vive perto de um acampamento de imigrantes. Já o húngaro Kornél Mandruczo apresenta “Jupiter’s Moon”, filme de género fantástico sobre o acolhimento dos refugiados.

De volta à “Croisette” está também o mexicano Alejandro González Iñárritu, desta vez com “Carne y arena”, projecto de realidade virtual sobre a experiência de ser um migrante. A actriz e activista britânica Vanessa Redgrave apostou num documentário sobre a mesma temática: “Sea Sorrow”. Na seção paralela Um Certo Olhar, o eslovaco Gyorgy Kristof descreve em “Out” o mundo dos trabalhadores migrantes na Europa.

Na mesma secção, o thriller político “La cordillera”, do argentino Santiago Mitre, é protagonizado por Ricardo Darín, no papel de um presidente argentino reunido com colegas latino-americanos no topo dos Andes.

Outro filme com temática política, “Napalm”, de Claude Lanzmann, será exibido em sessão especial, com o realizador focado na Coreia do Norte, país que visitou quatro vezes desde 1958. Atendendo às actuais tensões na península coreana, o filme poderá criar polémica, o que não desagradaria ao cineasta.

No capítulo ambiental, sobressai a segunda parte do documentário sobre as mudanças climáticas do ex-vice-presidente americano Al Gore, 11 anos após a estreia do primeiro filme. Em “An Inconvenient Sequel: Truth to Power”, Gore prossegue a sua luta por todo mundo para formar um exército de defensores do clima.

Por sua vez, o novo filme do francês Robin Campillo, “120 battements par minute”, aborda a luta da associação “Act Up” para fornecer tratamento a doentes de SIDA nos anos 1990. Este filme disputa a Palma de Ouro.

Além disso, o festival prestará homenagem ao cineasta polaco Andrzej Wajda, falecido em Outubro de 2016 e vencedor da Palma de Ouro em 1981 com uma película sobre as origens do sindicato Solidariedade, cujo líder histórico, Lech Walesa, deverá assistir à cerimónia.

O festival terá 19 filmes em disputa pela Palma de Ouro, sendo o júri presidido pelo espanhol Pedro Almodóvar. Entre os filmes em competição contam-se, entre outros, “Okja”, de Bong Joon Ho, e “The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach, ambos produzidos pela Netflix e que só se estrearão depois nesta plataforma e em países seleccionados. A Federação Nacional dos Cinemas Franceses criticou a escolha destes dois filmes, porque não os vai poder estrear em sala e o festival já anunciou que vai mudar as regras para 2018: só poderão competir filmes que tenham garantia de estreia comercial em sala em França. A Netflix já ripostou, dizendo que os festivais têm de mudar, porque os canais de distribuição e os espectadores também mudaram.

Ainda com o atentado de Nice na memória recente – ocorreu em Julho de 2016 -, a polícia preparou medidas de segurança reforçadas. Foi instalada, por exemplo, uma fileira de 400 vasos de flores gigantes na calçada de Cannes, formando uma barreira discreta, mas concreta, para impedir qualquer ataque com um carro ou camião. A polícia também investiu em 160 metros de correntes com espinhos, capazes de deter um camião, mobilizou forças adicionais e pediu a um batalhão de voluntários civis para ser informada de qualquer actividade suspeita.

O sistema de vigilância inclui ainda 550 câmaras de segurança. “É a rede (de câmaras) mais densa da França. Em Cannes, temos uma câmara para cada 140 habitantes”, disse Yves Daros, chefe da polícia municipal, à Reuters TV.

 

JTM com agências internacionais