Adaptando-se muito bem ao nacionalismo do regime comunista, Leng Feng tornou-se o novo herói do cinema chinês no filme mais visto da história no país

 

O papel de Leng Feng, um ex-soldado com os mesmos problemas de adaptação à vida civil que os de Rambo nos anos 80, é interpretado pelo actor Wu Jing, também realizador de “Wolf Warriors 2”, filme que em menos de duas semanas em cartaz bateu todos os recordes de bilheteira na China, segundo maior mercado cinematográfico.

Em apenas 12 dias após a sua estreia, a produção conseguiu bater o recorde de espectadores, que pertencia à comédia romântica “The Mermaid”. O filme é claramente nacionalista e contém altos índices de propaganda, um tipo de cinema que o regime comunista promoveu durante anos, mas nunca tinha gerado tanto sucesso junto do público, que parece ter despertado o seu orgulho nacional.

“Durante as duas horas de filme percebi a força da China e que ninguém poderá invadi-la. O meu coração batia sem parar de orgulho pelo meu país”, destacou nas redes sociais uma popular comentadora de cinema que usa o pseudónimo de Mao Er.

O filme foi lançado num momento ideal para esse patriotismo, já que a 1 de Agosto foi comemorado o 90º aniversário do exército chinês com um grande desfile militar, e certas ameaças externas (como o escudo antimísseis americano na Coreia do Sul e a incursão de tropas indianas no Tibete) estimularam o sentimento nacionalista.

O próprio Wu Jing, que não tinha feito tanto sucesso com o primeiro filme da série, “Wolf Warriors”, e vendeu a sua casa para financiar a segunda parte, afirmou que o nacionalismo é um sentimento que não tinha sido adequadamente explorado no cinema chinês, até agora mais voltado para dramas históricos. “O patriotismo escondeu-se durante um tempo, e é um sentimento que tem de ser libertado através de coisas como um filme ou um personagem”, comentou o actor numa recente entrevista, citada pela agência EFE.

Após ser expulso do exército da China, o seu personagem, Leng Feng – nome que lembra Lei Feng, mártir militar da época de Mao – trabalha em África, onde eclode uma guerra civil na qual lutará contra rebeldes e mercenários estrangeiros. O papel de líder dos mercenários e vilão do filme é interpretado pelo americano Frank Grillo, noutro sinal claro de patriotismo do filme, que numa das cenas não hesita em comparar a covardia dos EUA, que fogem da guerra africana, com a coragem chinesa.

Apesar do distanciamento dos EUA, parte do sucesso da película reside ironicamente no seu claro estilo “hollywoodiano”, no qual se nota a influência dos cineastas americanos Joe e Anthony Russo, realizadores de vários filmes de super-heróis da Marvel e que colaboraram como assessores de Wu Jing. Os irmãos Russo dão ao filme, parcialmente rodado na África do Sul, o ritmo acelerado do cinema de acção clássico dos EUA, poucas vezes visto nas produções chinesas, e épicas cenas em que Leng Feng luta contra mercenários, drones e tanques, até um final épico em que a bandeira da China é levantada com orgulho.

Numa das cenas, o protagonista surge de pé e desafiante à frente um tanque de guerra, algo que levará os ocidentais que assistirem ao filme a lembrarem-se do herói anónimo dos protestos na Praça de Tiananmen, mas que não terá o mesmo efeito entre o público chinês, já que a famosa imagem foi censurada durante décadas.

O estilo de Hollywood permitiu que o filme tivesse muito mais sucesso que o produzido pelo regime chinês recentemente para comemorar o aniversário das forças armadas, “A Fundação de um Exército”, que está em cartaz com uma bilheteira dez vezes menor.

 

JTM com agências internacionais