O realizador francês Arthur Borgnis está a filmar em S. João da Madeira um documentário sobre a história da Arte Bruta, por considerar que o museu da Oliva Creative Factory sobre esse género artístico é “único no mundo”

 

Intitulado “A eternidade não tem porta de fuga”, expressão que recupera uma frase original da pintora médium britânica Madge Gill, o filme começou a ser rodado em Julho, aborda outras instituições europeias da área médica e cultural, inclui 20 minutos de arquivos cinematográficos históricos e integra entrevistas a curadores, psiquiatras, artistas e outras referências da área.

“O objectivo é dar a conhecer a história secreta da Arte Bruta para ajudar o grande público a compreender melhor este género, que é puro, não mente e não se ‘vendeu’ ao capitalismo como a arte contemporânea, já que é criado por artistas que não querem ser famosos nem se interessam por dinheiro ou reconhecimento”, declarou Arthur Borgnis à Lusa.

“O museu de S. João da Madeira é determinante para o filme por duas razões”, acrescenta o cineasta. “Por um lado, tem uma colecção rara que é única no mundo e que constitui uma verdadeira mina de ouro, com grandes obras-primas; por outro, permite fazer a ligação entre o passado e o presente da Arte Bruta, porque aborda a ‘mitologia individual’ dos seus autores e esse conceito é precisamente o que foi usado em 1972 na histórica exposição “Documenta 5″, que fez de Harald Szeemann o mais importante curador de Arte Contemporânea depois da II Guerra Mundial”, explica.

Com lançamento previsto para meados de 2017, o documentário de Arthur Borgnis estará disponível em festivais de cinema, numa edição em DVD com 80 a 90 minutos de extensão e numa versão televisiva com duração até uma hora.

A equipa de produção é restrita e o profissional francês assume simultaneamente o papel de realizador, operador de câmara, argumentista, editor e produtor, já que “o financiamento tem sido muito difícil e a obra tem um orçamento muito baixo” – cujo valor não foi revelado, mas envolve também financiamento colectivo através de “crowdfunding”.

Apesar desses constrangimentos, o cineasta garante que o trabalho em curso lhe vem dando mais satisfação que projectos anteriores em condições de produção mais fáceis: “Prefiro este formato em que actuo sozinho, porque há menos cedências e, se eu quiser, posso trabalhar 24 horas seguidas sem pausas e acabo por me envolver muito mais em todas as fases do processo”.

Para o documentário, Arthur Borgnis escolheu assim os locais com maior pertinência histórica para o retrato da também chamada Arte Marginal até à actualidade, começando pelo museu Collection de l’Art Brut de Lausanne, na Suíça, que tem aquela que é apontada como a principal colecção do mundo a esse nível.

O filme explora também a Clínica Psiquiátrica de Heidelberg, na Alemanha, onde o médico Hans Prinzhorn foi dos primeiros a reconhecer o mérito artístico dos seus pacientes e a compilar o que é hoje uma colecção com mais de 5.000 obras de arte.

Os restantes locais de filmagens são: o Hospital Psiquiátrico de Saint-Alban, em França, que acolheu diversos artistas durante a ocupação nazi e nesse período viu morrer muitos pacientes devido à fome; o museu LaM de Lille, também em França, que foi o primeiro do mundo a dedicar uma secção própria à Arte Bruta; o Musée Dr. Guislain, na Bélgica, que integra um núcleo sobre a história da psiquiatria e outro sobre Arte Bruta; e ainda duas outras unidades clínicas belgas onde actualmente se realizam ‘workshops’ de arte para doentes psiquiátricos.

 

“Arte Bruta” é a expressão originalmente concebida pelo pintor francês Jean Dubuffet em 1945 para designar a arte produzida por criadores livres da influência de correntes e estilos oficiais, como é o caso de doentes psiquiátricos, reclusos, médiuns e autodidactas em situação de isolamento social.

 

JTM/Lusa