Emir Kusturica está a finalizar um documentário que retrata a vida de José Mujica, carismático ex-presidente do Uruguai, na expectativa de incluí-lo no Festival de Veneza de 2017

 

O cineasta sérvio Emir Kusturica não esconde a admiração pelo polémico e popular ex-presidente do Uruguai José Mujica, a quem dedicou um documentário, intitulado “The Last Hero”, que, segundo confessa, tem muito a ver com os ídolos da sua juventude. “Desenvolvi uma visão de mundo particular vinculada às pessoas que admirei desde jovem, de Che Guevara a (Fidel) Castro”, disse o cineasta em entrevista à agência AFP em Montevidéu, no período final das filmagens, iniciadas há quatro anos.

“Como não pude fazer nada com os dois (…), quando ouvi falar de um presidente que conduzia o seu próprio tractor e arrumava a própria casa, disse a mim próprio: ‘Este é o meu personagem’. E não estava enganado”, sublinhou o realizador de 62 anos.

O documentário contém diálogos entre Kusturica e “Pepe” Mujica, personalidade admirada no mundo pelas suas mensagens de austeridade, mas criticado no Uruguai devido à sua gestão governamental entre 2010 e 2015. O filme também recorda várias viagens do ex-presidente para participar em eventos relacionados com assuntos políticos.

A experiência de vida do “ex-guerrilheiro” de 81 anos acaba por sintetizar as histórias “complicadas” de muitos países, acredita o cineasta, atento ao facto de Mujica ter ficado 14 anos preso, e passado por um processo de transformação para se tornar deputado, senador e ministro, até chegar à Presidência.

Por outro lado, Mujica quer mostrar a sua “profunda ligação à terra”. “(Ele) está conectado quase religiosamente com a terra”, resumiu, após ter filmado o ex-presidente várias vezes na sua propriedade rural, nos arredores da capital uruguaia.

“Algumas pessoas do Uruguai não gostam do que ele faz, o que é natural. Ainda que ele seja popular ao redor do mundo, não é tão popular quanto eu queria que fosse”, acrescentou o cineasta, que também foi o autor do documentário de Diego Maradona, que estreou em 2008.

Ao longo do mandato, Mujica aprovou várias leis que fortaleceram os direitos individuais, como a que legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a despenalização do aborto, e, a mais famosa, a que visa regular a canábis com uso recreativo para que possa ser produzida sob tutela do Estado.  Em contrapartida, alguns compromissos assumidos durante a campanha eleitoral, como a reforma educacional aguardada por todos os segmentos sociais, ou a redução do peso do emprego público nas contas do país, acabaram por ficar apenas no papel.

Vencedor de duas Palmas de Ouro em Cannes, em 1985 (com “When Father Was Away on Business”) e 1995 (“Underground”), entre dezenas de outros prémios internacionais, Kusturica adiantou que o seu filme mostrará Mujica no último dia de presidência, preparando-se para transferir o cargo para outra pessoa.

Durante uma homenagem a um dos fundadores do partido do qual faz parte – Frente Ampla – Mujica afirmou à AFP que o documentário permitirá que o conheçam no Uruguai, “porque tem muito a oferecer ao mundo”.

“Não sei o que vai fazer Kusturica, porque é meio…”, interrompe Mujica enquanto move a mão ao lado da cabeça em sinal de loucura, “… meio genial, porém, respeito-o muito”.

A mensagem que espera que o documentário transmita, diz, é a de “humildade e compromisso”.

O realizador sérvio espera que o filme esteja na lista do Festival de Veneza de 2017.

 

JTM com agências internacionais