O arpoeiro de “Moby Dick” era da ilha do Corvo e esta foi uma forma que o escritor Herman Melville encontrou para homenagear os baleeiros açorianos, com os quais navegou, segundo um professor da Universidade dos Açores

 

O livro “Moby Dick” está “muito relacionado com os Açores até pelas implicações de toda a aventura do navio”, declarou à agência Lusa o escritor, ensaísta e professor da Universidade dos Açores Vamberto Freitas, acrescentando que “não é sem mais nem menos que possui personagens açorianas”.

O académico falava em antecipação da leitura, a realizar amanhã e sábado, da obra de Herman Melville e outros títulos inspirados por “Moby Dick”, que decorrerá na Horta, ilha do Faial, em formato de maratona luso-americana, com a duração de três horas e 45 minutos, em simultâneo com o Museu da Baleia de New Bedford, nos EUA, e o Museu de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira.

Esta vai ser a 22ª maratona “Moby Dick” no museu norte-americano, que repete, em 2018, a leitura simultânea com o Museu de Angra do Heroísmo, que já ocorreu em Janeiro deste ano.

Na época áurea da baleação, as embarcações norte-americanas recrutavam, pela boa reputação que tinham, açorianos, em particular nas ilhas das Flores e Corvo, para a pesca dos cetáceos. Melville elogia mesmo na sua obra os açorianos: “Não poucos destes caçadores de baleias são originários dos Açores, onde as naus de Nantucket que se dirigem a mares distantes atracam frequentemente, para aumentar a tripulação com os corajosos camponeses destas ilhas rochosas”.

“Não se sabe bem porquê, mas a verdade é que os ilhéus são os melhores caçadores de baleias”, escreve Melville, cujo romance não teve muito sucesso no lançamento mas que hoje se encontra entre os “clássicos” das letras norte-americanas, de acordo com a crítica e a investigação literária.

A bordo do baleeiro “Pequod” seguiam três açorianos, um dos quais passava a vida a cantar e a tocar viola.

Vamberto Freitas, que viveu na Califórnia, diz que a obra evidencia também a emigração açoriana para a América – uma emigração que, numa primeira fase, se realizou exactamente a partir incursão de homens do mar dos Açores, em baleeiras norte-americanas. “Essa [emigração] começa nos finais do século XVIII e continua no século XIX. Os açorianos eram conhecidos pela sua habilidade na baleação. Além de os navios e baleeiros terem de parar no Faial para reabastecerem, também o faziam para recruta de baleeiros açorianos, começando a emigração açoriana, precisamente através dessa actividade”, destaca.

Vamberto Freitas afirma que os açorianos, a bordo das baleeiras, uma vez pagos pelas suas campanhas, desertavam na costa leste quando chegavam ao país para seguirem, na sua maioria, para a “corrida ao ouro” da Califórnia. Para o escritor, o romance de Melville, que conheceu os Açores, “retrata muito bem o destino americano dos açorianos”, tendo tido a oportunidade de partilhar com estes uma viagem que promoveu às ilhas do Pacífico.

Este “é o primeiro romance americano que faz do navio uma metáfora da própria América”, acrescenta, apontando Melville como o “primeiro escritor que vê no país a diversidade das nações que ou triunfam ou vão juntas ao fundo”.

O mesmo autor exemplificou que a tripulação do navio é oriunda de variadíssimas zonas geográficas, como a França, Islândia, Ilha de Man, Holanda, Sicília, Malta, Chile, Dinamarca, Açores, Índia, Inglaterra, Espanha e Irlanda.

“O romance ‘Moby Dick’ não é sobre baleias ou um cachalote branco atrás do qual vai o louco do capitão Ahab, mas a natureza do próprio poder americano, da vaidade americana e da ideia de que o homem pode dominar tudo e todos, incluindo a natureza, acabando por se afundar”, conclui o professor universitário.

 

JTM com Lusa