O filme “The Lowlife” explora a vertente emocional e o drama humano das actrizes pornográficas no Japão, mas evita lições de moral. Takahisa Zeze, o realizador, espera ajudar a derrubar os preconceitos sobre essa indústria

 

Takahisa Zeze, realizador de um controverso filme nipónico que retrata a vida de três actrizes do cinema pornográfico espera que a sua obra sirva para combater os preconceitos contra esta indústria. “The Lowlife”, uma adaptação do romance erótico da actriz pornográfica Mana Sakura, foi uma das atracções do Festival de Cinema de Tóquio.

“O filme é sobre as pessoas que estão à procura do seu lugar no mundo, da sua identidade”, destacou Takahisa Zeze em entrevista à agência AFP.

“Quando decidimos fazer o filme, não havia uma intenção urgente de quebrar tabus. Mas tomara que possamos, de alguma forma, ajudar a derrubar os preconceitos que ainda existem em relação ao porno”, afirmou o realizador.

De acordo com Takahisa Zeze, durante o processo de audições para “The Lowlife”, algumas actrizes recusaram os papéis propostos. “Elas não se importavam de tirar a roupa, mas não se sentiam à vontade para interpretar uma estrela porno”.

A nova longa-metragem de Zeze explora o lado emocional e o drama humano, pelo que poderá desapontar os espectadores que esperam uma lição de moral. O filme evita criticar a indústria de filmes pornográficos, contornando por isso as acusações sobre a exploração das actrizes.

Até mesmo quando Miho, uma dona de casa frustrada cujo papel é desempenhado por Ayano Moriguchi, se estreia surpreendentemente como actriz pornográfica, não há indícios em “The Lowlife” de que estas mulheres sejam presas fáceis para a indústria.

“Lá no fundo talvez eu não tenha querido focar no lado mais sombrio desse negócio”, disse a autora do livro, Mana Sakura, de 24 anos. “Obviamente, não estão todas felizes, como na maioria dos empregos, mas também não estão todas infelizes”, ressalvou.

Convicta de que “muitas vezes as pessoas querem concluir que todas as actrizes porno são infelizes”, Mana Sakura quer contrariar essa ideia. “Bem, eu não sou infeliz e queria concentrar-me mais no quotidiano, mais na luz do que no escuro”, explicou.

Em “The Lowlife”, a abordagem minimalista de Zeze e o recurso a câmaras seguradas com as mãos criam uma sensação quase “voyeurista” num filme carregado de emoções cruas. “Queria criar o efeito de um documentário”, explicou Zeze, mais conhecido pelo seu trabalho em “pink eiga”, um género de pornografia suave.

“Antes, a sexualidade era um tabu, mas hoje já não é assim. Estamos a tentar mostrar que o porno é uma forma comum de desejo sexual. Faz parte do nosso dia a dia”, argumentou o realizador.

Por sua vez, Sakura recorda que “já havia todo tipo de livros reveladores sobre o mundo dos filmes porno”. “Mas, as actrizes porno também são apenas mulheres normais que levam vidas normais”, observa, acrescentando que, todos os anos, milhares de mulheres aderem a essa indústria.

“As vossas vizinhas ou amigas poderiam ser actrizes pornográficas. E enquanto não conseguimos evitar estereótipos, espero que este filme possa ajudar a mudar um pouco as percepções”, rematou.

 

JTM com agências internacionais