Para os “ulemás” do Irão, qualquer tipo de dança é proibido, no entanto, muitas mulheres recorrem a diversos truques para se moverem ao ritmo da zumba e salsa em academias

 

Ouvir grandes sucessos latinos em festas particulares ou nos carros não é algo estranho no Irão, mas as autoridades decidiram reforçar a guerra contra essa influência, que consideram “contrária aos valores islâmicos”. A zumba, de origem colombiana, esteve sempre na mira do Ministério do Desporto, que durante este Verão voltou a advertir que o seu ensino nas academias é proibido.

Em Agosto, seis jovens foram mesmo detidos, acusados de ensinar zumba e gravar videoclips com a intenção de mudar o “estilo de vida” da República Islâmica e instigar as mulheres a não se cobrirem com o tradicional véu.

Perante estes desenvolvimentos, algumas academias de Teerão consultadas pela Agência EFE confirmaram a suspensão temporária das aulas, enquanto outras mudaram simplesmente a terminologia, pelo que a zumba pode ser encontrada sob a definição de “desporto com música”. Além disso, foram adoptadas outras precauções: nenhum centro desportivo faculta informações telefónicas sobre as aulas, e estas não são incluídas nos programas públicos.

Mesmo assim, poucos querem cancelar a prática de zumba, uma das aulas mais populares e procuradas nas academias femininas. Fatemeh, filha de um importante clérigo, é um dos casos surpreendentes de amantes da zumba. Vestida com um rigoroso chador (véu preto que cobre da cabeça aos pés), confessou à EFE que esta dança fornece-lhe “energia e alegria”.

No seu caso, a academia mudou o nome de zumba para “aeróbica rítmica” tanto no programa como no canal da rede social “Telegram”, onde vendiam roupa para esta prática com o objectivo de “não ter problemas”.

Embora seja uma mulher de fortes convicções religiosas, Fatemeh mostra-se muito crítica com esta decisão dos ulemás iranianos. “O Islão não proíbe a dança, mas eles têm o seu próprio Islão, o da República Islâmica”, lamentou.

As autoridades argumentam que a zumba inclui “movimentos rítmicos e de dança, e estes são ilegais sob qualquer forma e nome”, segundo um ofício publicado em Junho pela Federação Geral de Desportos. O presidente da entidade, Ali Maydarah, destacou que há dois anos foi iniciada uma investigação sobre esta prática, motivo pelo qual “nenhuma academia tem autorização para dar estas aulas”.

As iranianas estão cientes da proibição, mas parecem dispostas a enfrentar as dificuldades. Zahra, de 30 anos, abriu uma academia há apenas cinco meses e confessa que a zumba é uma das práticas que quer incluir juntamente com a salsa, proibida desde o início por se tratar claramente de uma dança.

A salsa já aparece no seu programa, mas “escondida” numa abreviatura: “É um risco. Se chegarem inspectores, posso ter problemas, mas decidi incluir a salsa porque sabia que teria sucesso”, contou. “São ridículas estas proibições contra qualquer tipo de dança. A salsa sempre esteve proibida e a zumba, ainda que lembre a aeróbica, era mal vista desde o princípio”, acrescentou Zahra.

A aeróbica é permitida por ser considerada um desporto. As autoridades também costumam fazer vista grossa ao ballet e algumas danças clássicas ou tradicionais iranianas, mas outro ritmo que perseguem é o “hip hop”.

 

JTM com agências internacionais