Mohammed Ismail é um refugiado de segunda geração de etnia rohingya, nascido num campo de refugiados em Cox’s Bazar, no extremo sul do Bangladesh. Os pais fugiram da violência no seu país natal, Myanmar, e o jovem de 24 anos encontrou no futebol um “escape” para as dificuldades da realidade

 

Os rohingyas, um grupo étnico muçulmano, não são reconhecidos como cidadãos no seu país natal, no Myanmar, apesar de lá viverem há centenas de anos. São perseguidos periodicamente pelas Forças Armadas locais e vistos pela maioria da população como imigrantes ilegais.

A família de Ismail chegou ao Bangladesh em 1992 na primeira vaga de refugiados. Aproximadamente 250 mil rohingyas fugiram de abusos cometidos pelos militares do Myanmar, sendo que cerca de 33 mil deles por lá continuam, vivendo nos campos de refugiados oficiais da ONU em Kutupalong e Nayapara, a sul de Cox’s Bazar, na fronteira com Myanmar.

O Bangladesh parou de registar novos refugiados depois de 1992 na esperança de que a adopção de medidas mais duras iria dissuadir os rohingyas de virem, o que acabou por não acontecer.

O futebol é visto como uma diversão que ajuda jogadores e espectadores a esquecerem o seu exílio, pelo menos por algumas  horas. “Quando jogo futebol, a tristeza e a revolta ficam distantes. Mas quando paro o sentimento regressa”, disse Mohammed Ismail.

O campo de futebol fica num plano elevado com ampla vista do campo de refugiados de Kutupalong: casebres de paredes de barro e estruturas de bambu ladeadas por esgoto a céu aberto. O ar é repleto de som de galos e das buzinas dos carros de uma estrada próxima.

Mohammed Farouque, um refugiado que dirige um clube de futebol rohingya na Malásia, outro destino para os refugiados, disse que a modalidade desportiva é virtualmente proibida para os rohingyas no Myanmar. Na Malásia e no Bangladesh, a maioria dos rohingyas é apátrida, porém, podem realizar competições de futebol. “Essa é uma das poucas liberdades que temos”, disse Farouque.

Em Bangladesh, 16 equipas, oito denominadas por “não oficiais” e oito por “oficiais”, jogam anualmente numa competição que se assemelha ao formato do campeonato do mundo. Ismail disse que as equipas “não oficiais” são mais fortes este ano porque contam com mais jogadores entre os quais podem escolher. Para além disso, recebem distribuições periódicas de material desportivo, ao contrário dos restantes, que jogam descalços ou de sandálias.

“A equipa de Ismail derrotou-nos da última vez porque tinham sapatilhas e nós não”, disse Ziabur Rohaman, 32 anos, que fugiu de Myanmar com a esposa e três filhos, e joga pela equipa dos “não oficiais” em Kutupalong. “Como chegámos recentemente, a maioria dos nossos jogadores não tinha sapatilhas”, lamentou.

O vencedor da competição em Kutupalong jogará posteriormente contra uma equipa do campo Nayapara, a cerca de 80 quilómetros de distância, pelo título de melhor equipa rohingya em Bangladesh.

No ano passado, Kutupalong venceu Nayapara por 3-0, um momento que Ismail recorda com orgulho. “Marquei um dos golos e os meus companheiros elegeram-me o melhor jogador da partida”, contou.

Ismail provavelmente não terá a possibilidade de assistir ao vivo a uma partida profissional de futebol, mas gostaria de jogar pela formação de Cox’s Bazar no campeonato oficial bengalês. Equipas rohingyas não são autorizadas a jogar no campeonato oficial, mas alguns dos seus melhores jogadores, incluindo Ismail, são por vezes recrutados.

 

JTM com agências internacionais