O artista Lu Nan, que realizou um projecto de fotografia ao longo de 15 anos na China, acredita que os seus projectos “sem crítica nem raiva”, sustentados pelo “amor e humanismo”, irão “prolongar a vida” do seu trabalho

 

Lu Nan inaugurou na terça-feira uma exposição no Museu Berardo, em Lisboa, com um conjunto de 144 fotografias seleccionadas de uma trilogia mais vasta sobre três realidades sociais na China a partir do final dos anos 1980.

Intitulada “Lu Nan, Trilogia – Fotografias (1989-2004)”, a mostra reúne as séries “The Forgotten People – Living Conditions of China’s Psychiatric Patients” (“O povo esquecido: as condições de vida dos doentes psiquiátricos na China”), “On the Road – The Catholic Faith in China” (“Na estrada: a fé católica na China”) e “Four Seasons – Everyday Life of Tibetan Peasants” (“Quatro estações: o dia-a-dia dos camponeses tibetanos”).

Em declarações à agência Lusa através da intérprete Liu Zhen, o artista de 55 anos, nascido em Pequim, onde reside, explicou as motivações da sua obra, que apresenta pela primeira vez em Portugal. “Eu queria fazer algo diferente, que ninguém tinha feito antes, e focar-me sobretudo nas pessoas”, disse, sobre a série que foca a vida de doentes mentais em hospitais psiquiátricos de várias cidades na China, desde Pequim, Sichuan ou Tanjin, por onde passou durante cinco anos, no final dos anos 1980, convivendo também com o pessoal médico e as famílias.

Desse trabalho, em que se revela o imenso sofrimento de doentes e famílias, ressalta “a miséria humana”, e na série sobre a vida de comunidades católicas em zonas isoladas, “a redenção e salvação”, e a terceira série retrata a vida “harmoniosa, pacífica e transcendente” de camponeses no Tibete.

O curador da exposição, João Miguel Barros, identificou o trabalho de Lu Nan com o percurso do livro de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”, que começa no Inferno, passa ao Purgatório, e finaliza com o Paraíso. “Fiquei muito surpreendido com as semelhanças entre esse livro e o meu trabalho. Só o li depois de terminar o meu projecto. E realmente têm algo em comum, com a diferença que um foi criado através da palavra e o outro usa a imagem”, disse.

Questionado pela Lusa sobre se o seu trabalho possui alguma motivação de crítica social ou uma mensagem política, Lu Nan recusou qualquer avaliação nesse sentido: “As minhas fotografias só abordam as pessoas. Há um amor muito grande por elas e pela Humanidade nas suas vidas”.

“O meu trabalho não tem crítica nem raiva. O amor com que é feito irá prolongar a sua vida”, sublinhou.

Sobre a essência do que encontrou ao longo dos 15 anos a viver próximo de comunidades muito diferentes, conclui que “a felicidade não é ser rico ou pobre, mas ter paz no coração, viver em harmonia consigo próprio, com as outras pessoas, e a natureza”.

A obra de Lu Nan tem sido exposta na China, no Japão, em Espanha, nos Estados Unidos, e em França, em mostras individuais e colectivas. Em 2012 participou na mostra Photo Espanha, em Madrid, e nos últimos anos no Centro Hive para a Arte Contemporânea, em Pequim, e no Centro de Fotografia de Xangai.

A mostra no Museu Colecção Berardo, em Lisboa, vai ficar patente até 14 de Janeiro de 2018.

 

JTM/Lusa