Com os célebres “Papéis do Pentágono” no centro da acção, “The Post” traça um paralelismo com um hiato de 46 anos: entre as mentiras sobre a Guerra do Vietname e os ataques de Trump à imprensa. Segundo Spielberg, este é um filme para pessoas ávidas da verdade

 

A história do novo filme de Steven Spielberg, “The Post”, desenrola-se em 1971, mas o seu tema, a liberdade de imprensa, é uma questão plena de actualidade. Esse foi, de resto, um dos motivos que levou Spielberg a apressar-se para filmar e lançar no prazo de um ano a produção, que recorda a “batalha” de jornais para publicar os “Papéis do Pentágono”, célebre fuga de informação que desmascarou o retrato enganador da Guerra do Vietname pintado pelo governo norte-americano.

“Senti que havia urgência em reflectir 1971 e 2017, porque foram terrivelmente semelhantes”, disse o realizador, vencedor do Óscar, perante uma plateia de Hollywood após uma exibição do filme.

Nesse contexto, o filme está direccionado essencialmente para “as pessoas que passaram os últimos 13, 14 meses sedentas e famintas pela verdade”. “Elas estão por aí, e precisam de boas notícias”, enfatizou Spielberg.

Com Meryl Streep no papel de Katharine Graham, falecida editora do jornal “Washington Post”, e Tom Hanks na “pele” do também falecido editor-executivo Ben Bradlee, “The Post” já foi eleito como melhor filme de 2017 pela “National Board of Review”, grupo centenário de académicos, cineastas e profissionais sediado em Nova Iorque. Meryl Streep foi apontada como melhor actriz e Hanks como melhor actor, convertendo o filme num favorito natural para os Óscares.

Nos seus comentários, Steven Spielberg, democrata assumido de Hollywood, não mencionou directamente o actual Presidente dos EUA, mas “The Post”, que tem estreia marcada para 22 de Dezembro nos EUA, chega aos cinemas numa altura em que os media sofrem frequentes ataques de Donald Trump. O líder da Casa Branca já rotulou a imprensa como “a inimiga do povo americano” e usa a expressão “notícias falsas” para lançar dúvidas sobre reportagens críticas ao Governo, muitas vezes sem apresentar provas que sustentem as suas alegações.

Em Agosto, o Secretário da Justiça dos EUA, Jeff Sessions, chegou mesmo a indicar que a Administração ponderava exigir aos jornalistas que revelassem as suas fontes, perante o empenho de Trump em impedir fugas de informação.

“The Post” revive o escândalo de 1971, quando Daniel Ellsberg, analista de informação do Pentágono, fotocopiou e entregou ao “New York Times” um relatório secreto de 14 mil páginas que expunha a política norte-americana no Vietname. O Governo de Richard Nixon tentou travar a publicação dos documentos, primeiro no “New York Times” e depois no “The Washington Post”, mas a disputa judicial chegou ao Supremo Tribunal de Justiça, que classificou essa ordem como inconstitucional. Os “Papéis do Pentágono” acabaram por revelar as manipulações e mentiras de sucessivos governos americanos sobre aos resultados das operações bélicas no Sudeste Asiático.

 

JTM com agências internacionais