O Festival de Cannes vai apostar em realizadores que já se destacaram no evento, como Sofia Coppola, Michael Haneke e Michel Hazanavicius, para dar mais brilho à sua 70ª edição, marcada ainda por algumas inovações, incluindo um filme de realidade virtual e duas produções da Netflix, já criticadas pelos cinemas franceses

 

O francês Arnaud Desplechin vai inaugurar o 70º Festival de Cannes a 17 de Maio com “Les fantômes d’Ismaël”, filme sobre a vida de uma cineasta transtornada pelo reaparecimento de um velho amor que levará ao tapete vermelho as actrizes Marion Cotillard e Charlotte Gainsbourg.

Embora os organizadores ainda possam acrescentar novos nomes à lista, 18 filmes estão na disputa pela Palma de Ouro, cuja sorte estará nas mãos do júri presidido pelo realizador espanhol Pedro Almodóvar. Das 1.930 longas-metragens propostas, passaram pelo crivo “The Beguiled”, de Sofia Coppola, “Redoubtable”, de Michel Hazanavicius, e “Happy End”, de Michael Haneke, que procura a terceira consagração em Cannes após os êxitos em 2012, com “Amour”, e em 2009 com “The White Ribbon”.

O americano Todd Haynes, com “Wonderstruck”, a japonesa Naomi Kawase, com “Hikari”, e o grego Yorgos Lanthimos, com “The Killing of a Sacred Deer”, juntamente com os franceses François Ozon, com “L’amant double”, e Jacques Doillon, com “Rodin”, são outros nomes que integram a lista de privilegiados que tentarão fazer história na “Croisette”. Segundo o curador geral do festival, são produções que falam sobre imigração, a situação da Rússia profunda, a luta contra a SIDA ou algumas das grandes figuras da cinematografia, como Jean-Luc Godard (o filme de Hazanavicius), e que mostram que o cinema “é uma maneira de pensar no que é o mundo”.

“Se um festival é político é porque os cineastas o são”, acrescentou Thierry Frémaux na antevisão de uma edição que procura ser “festiva” até 28 de Maio, mesmo entre grandes medidas de segurança. “No ano passado, a organização da segurança foi um modelo de sucesso que tentaremos repetir”, comentou, ao vincar que milhares de pessoas deverão visitar Cannes numa altura em que a França continua em “estado de emergência” devido aos atentados “jihadistas”.

Destaque ainda para dois filmes produzidos pela plataforma digital Netflix – “Okja”, de Joon-Ho Bong, e “The Meyerowitz Stories”, de Noah Baumbach – medida já criticada pela Federação Nacional dos Cinemas Franceses (FNCF). Para o organismo, caso os filmes de Cannes se opusessem à regulamentação em vigor e fossem exibidos de forma simultânea na Internet e em salas de cinema, poderiam estar sujeitos a sanções por parte do Centro Nacional de Cinematografia. Além disso, a FNCF sublinhou que a Netflix encerrou recentemente os seus escritórios no país e que “há anos se esquiva à lei francesa e às regras fiscais”.

O Festival de Cannes incluirá ainda algumas iniciativas especiais – David Lynch apresentará os dois primeiros episódios do regresso de “Twin Peaks”, a neozelandesa Jane Campion estreará a segunda temporada de “Top of the Lake”, a actriz Kristen Stewart exibirá a sua primeira curta-metragem como realizadora, “Come Swim”, e o falecido Abbas Kiarostami será homenageado com a projecção de “24 frames”, sem esquecer a exibição da sequência de “An Inconvenient Truth”, documentário sobre alterações climáticas impulsionado por Al Gore.

Sem receio de inovar, pela primeira vez, o Festival reservou também espaço para a realidade virtual com o filme do mexicano Alejandro González Iñárritu, “Carne y Arena”, que, de acordo Frémaux, “fará sentir algo tão novo que abrirá um novo período”. Iñárritu, que não faz parte da competição, é, juntamente com Almodóvar, um dos poucos nomes latinos desta edição.

A actriz Nicole Kidman estará em grande destaque pois participa em quatro produções exibidas no Festival, incluindo duas em competição (“The Beguiled” e “The Killing of a Sacred Deer”), e duas na secção “Un Certain Regard” (“How to Talk to Girls at Parties” e um episódio da série “Top of the Lake”.

 

JTM com agências internacionais