Boa parte dos alunos começa o curso sem saber como quebrar um ovo. Depois das aulas de Arqueologia Experimental e Tecnologia Primitiva do professor Bill Schindler, eles tornam-se quase homens das cavernas: aprendem a fazer fogo com gravetos, cordas com fibras vegetais, flechas com pontas de pedra afiada e potes com argila. Se fossem abandonados numa floresta sem comida e roupa, seriam capazes de colher frutos silvestres comestíveis, curtir peles, caçar e preparar animais selvagens como alimento

 

Embora ninguém mais dependa desse tipo de habilidade, o professor da Washington College, nos Estados Unidos, defende que estes conhecimentos são essenciais para entender o que significa ser humano. “Compreender os nossos ancestrais ensina-nos a olhar para nós mesmos de uma maneira completamente diferente. Tanto do ponto de vista da nossa dieta e saúde quanto da ligação com o ambiente e com as outras pessoas”, salienta.

É uma aula incomum, mas que está a fazer sucesso – está sempre repleta e recebe estudantes de todas as áreas.

“Espero ajudar a formar não só arqueólogos e antropólogos, mas professores, políticos, cientistas e executivos que tenham uma perspectiva diferente sobre o nosso lugar no mundo enquanto tomam decisões que determinam qual o caminho que a Humanidade tomará no futuro”, diz Schindler.

A filosofia do arqueólogo para o ensino e pesquisa é baseada na ideia de se envolver numa tarefa do início ao fim – recebendo a matéria prima, aprendendo aquela tecnologia, construindo as ferramentas e usando-as. “Além das aulas teóricas e das leituras, os meus alunos de fato fazem uma imersão no que estão aprendendo”, diz Schindler.

Para as ferramentas, utilizam materiais como a rocha obisidiana (feita de vidro vulcânico), basalto e sílex. Ao matar e limpar animais, nada é desperdiçado. Cada aluno pega um pedaço do animal para um projecto diferente. A carne de um veado é consumida, a pele transforma-se em roupa, os cascos são fervidos para fazer cola e os olhos viram tinta.

“É uma filosofia de ensino baseada em colocar a mão na massa, em aprender através da experiência”, diz Schindler. Os alunos também passam a preocupar-se com o impacto que os produtos que usam têm no ambiente e com a origem dos alimentos que consomem.

Em 2015, Schindler gravou uma série para o canal National Geographic chamada The Great Human Race (A Grande Corrida Humana). No programa, ele e a especialista em sobrevivência Cat Bigney viajaram pelo mundo tentando sobreviver da mesma forma que os nossos antepassados em diferentes períodos da pré-história.

Por exemplo, foram à Sibéria e durante 8 meses tentaram viver como os caçadores da era do gelo, de há cerca de 40 mil anos,.

“Aprendi muito mais do que eu imaginava. E foi mais do que aprender – foi sentir, compreender, viver. Hoje, sinto que posso interpretar muito melhor como era a vida no passado e que tenho mais autoridade para falar sobre o assunto”, conta, salientando que “estas experiências imersivas beneficiam a ciência e a pesquisa porque preenchem lacunas no nosso conhecimento.”

Segundo o arqueólogo, as tecnologias primitivas que mais influenciaram a evolução humana são as relacionadas com a obtenção e o processamento da comida.

“As mudanças na dieta tiveram directo impacto na nossa evolução biológica e cultural. Tudo o que somos do ponto de vista biológico e de como interagimos uns com os outros, ou seja, tudo o que nos torna humanos, devemo-los às mudanças permitidas pelo uso de tecnologias como ferramentas de pedra, fermentação, instrumentos e caça e estratégias de angariar alimentos”, diz Schindler.

Ficamos mais altos, os nossos cérebros cresceram e a maneira como interagimos uns com os outros aprimorou-se, podendo dizer-se que tudo isso deu origem ao ser humano moderno, o homo sapiens.

No entanto, refere Schindler, somos uma das espécies de predadores mais fracas do planeta. “As nossas unhas, os nossos dentes e os nossos órgãos digestivos são completamente inúteis se comparados aos de outros animais. A verdade é que ultrapassamos as limitações dos nossos corpos criando mais ferramentas e mais tecnologia.”

 

A série tornou a faculdade em que Schindler trabalha mais conhecida entre o público e aumentou o seu prestígio na área de arqueologia – até então, era conhecida mais pelo seu curso de letras.

Para Schindler, as pessoas empolgam-se com a ideia de aprender habilidades de sobrevivência por estarem à procura – conscientemente ou não – de ligações com o passado, com o ambiente, com as outras pessoas e consigo mesmas. “A vida moderna está sempre a afastar-nos dessa ligação. Praticar essas habilidade ajuda-nos a voltar a ligar”, adianta.

Além disso, há um certo romantismo na ideia de ser capaz sobreviver sem as facilidades do mundo moderno. “Creio que é mais um desejo de sentir que se  podemos ser autossuficientes do que uma vontade real de estar numa situação em que essas habilidades sejam necessárias”, diz ele.

 

Um homem de família

Bill Schindler cresceu num subúrbio de New Jersey e começou a criar ferramentas ainda criança. Contrariando os pais, aos 10 anos começou a colher e a comer frutos silvestres. Nos anos 1990, trocou de faculdade sete vezes. Demorou dez anos para se formar em arqueologia. Hoje, é professor titular do departamento de Antropologia da Washington College.

O seu trabalho com a arqueologia experimental teve um impacto na sua casa e no dia a dia da família. Ele, a mulher e três filhos – de 9, 11 e 13 anos – vivem numa propriedade rural no Estado americano de Maryland.

“Mudamos principalmente a nossa alimentação. Agarramos nas lições do nosso passado pré-histórico e alterámo-las para as tornar relevantes na nossa vida ocidental moderna. Produzimos praticamente tudo o que cozinhamos – caçamos, colhemos, fermentamos e curamos a nossa comida”, diz Bill, que produz queijo, iogurte e conservas para consumo próprio.

Ele e a família são próximos dos agricultores e especialistas em pecuária que fornecem os alimentos que não produzem. “Somos mais saudáveis e mais ligados ao ambiente. Voltamos a comer como seres humanos e vale todo o esforço!”, afirma o arqueólogo.

“Não usamos roupas de peles de animais no dia a dia, mas os meus filhos sabem como esfolar um animal e curtir a pele para usá-la como roupa”, diz Schindler, afirmando acreditar que isso ajuda as crianças a entenderem o valor de tudo o que têm.

“Quando vêem um casaco de couro, não pensam no shopping  center onde a poderiam comprar – lembram-se sim de quando fizeram as suas roupas com pele de veado e que aquilo tirou a vida de cinco animais.”

O objectivo é estar mais consciente das consequências das acções humanas. “Temos que enfrentar a dura realidade de que animais e plantas morrem para que nós vivamos e nos tornemos melhores guardiões do ambiente”, afirma.

“Quando a maioria das pessoas pensam sobre comer um animal, apenas pensam em comer carne, de forma abstrata. Em nossa casa, quando comemos um animal, pensamos em comer um animal”, concluiu.

 

JTM com agências internacionais