Depois de meses de enorme controvérsia e estupefacção que abalaram a “Meca do Cinema”, Hollywood exorcizou os seus demónios nos Globos de Ouro, declarando guerra ao assédio sexual e ao abuso de poder na indústria do entretenimento

 

Com duros e sentidos discursos, como os de Oprah Winfrey ou Nicole Kidman, mas também com piadas cáusticas como as do apresentador Seth Meyers, a 75ª edição dos Globos de Ouro, os prémios de cinema e televisão atribuídos pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA), ficará para a história não tanto pelos vencedores, mas pela condenação pública do assédio e abuso sexual de que são alvo as mulheres.

A passadeira vermelha fez antever o que se esperava, com o desfile de numerosos artistas de vestidos e trajes negros a servir de prólogo à crítica contra o machismo e abusos alimentada pelos movimentos “Me too” (“Eu também”) e “Time’s Up” (“Acabou-se o tempo”) que continuaria durante toda a gala dos Globos de Ouro, os primeiros grandes prémios de Hollywood desde que estalou o escândalo.

Oprah Winfrey, que recebeu o prémio Cecil B. DeMille, foi uma das que mais directamente se pronunciou contra “os homens poderosos” que durante demasiado tempo dominaram o mundo, para afirmar, de seguida, numa mensagem de esperança, que “o seu tempo chegou ao fim”. “Eu entrevistei e retratei pessoas que testemunharam algumas das coisas mais horríveis que a vida pode atirar contra ti, mas a única qualidade que todas parecem ter em comum é a capacidade de manterem a esperança numa manhã mais clara mesmo durante as nossas noites mais sombrias. Por isso, quero que todas as meninas saibam neste momento que um novo dia está no horizonte”.

E, prosseguiu, “quando esse novo dia finalmente amanhecer, vai ser por causa de inúmeras mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui nesta sala esta noite, e por causa de alguns homens fenomenais que lutam duramente para ter a certeza de que vão tornar-se nos líderes que nos vão levar a um tempo em que ninguém mais tenha que dizer ‘Me too’ [‘Eu também’] outra vez”, realçou Winfrey diante de um auditório emocionado que se colocou de pé para a ovacionar.

Barbra Streisand, que deu os toques finais da noite ao anunciar o prémio de melhor drama, aproveitou a ocasião para recordar que foi a única mulher a ter ganhado o Globo de Ouro de melhor realização, um prémio que recebeu em 1984 pelo filme “Yentl”. “Isso foi há 34 anos. Amigos, acabou-se o tempo. Precisamos de mais mulheres cineastas e de mais mulheres nomeadas para melhor realização”, afirmou, numa gala em que não havia nenhuma realizadora como candidata.

Por seu lado, Nicole Kidman, que foi distinguida como melhor actriz de minissérie (“Big Little Lies”), recordou no palco que a sua personagem de uma mulher maltratada representa os abusos que agora figuram no centro das conversas em Hollywood. “Creio e espero que possamos suscitar uma mudança através das histórias que contamos e da maneira como as contamos. Mantenhamos vivo o debate”, assinalou.

Já Frances McDormand, que conquistou o prémio de melhor actriz de drama por “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri”, afirmou sentir-se bem por participar numa noite como a de domingo e por ser parte de “um movimento tectónico na estrutura do poder” da indústria do cinema.

 

“Boa noite aos que ainda restam”

A noite começou desde logo com o humor cáustico de Seth Meyers que foi o mestre da cerimónia. Apesar de ter reconhecido antes da gala que provavelmente não seria “o ano mais divertido” para apresentar os Globos de Ouro, o actor e comediante acabou por sair airoso da difícil tarefa de abordar com piada o escândalo de assédio e abuso sexual que atingiu Hollywood. “Boa noite às senhoras e aos e aos senhores que ainda restam!”, afirmou, logo depois de subir ao palco.

“É 2018. A marijuana foi permitida finalmente [na Califórnia, para fins recreativos], mas o assédio sexual já não! Vai ser um bom ano”, ironizou, prosseguindo com piadas alusivas a Harvey Weinstein, o influente produtor de Hollywood, cujas dezenas de denúncias por assédio e abuso sexual inspiraram o movimento “Me too” para incentivar as vítimas a denunciarem os seus casos, mas também a Kevin Spacey, num serão em que nem o Presidente dos EUA, Donald Trump, foi esquecido.

Susan Sarandon e Geena Davis, as estrelas de “Thelma & Louise” (1991), criticaram, por seu turno, ao apresentar um prémio, a desigualdade salarial entre homens e mulheres no universo do cinema.

A gala teve momentos distintos, incluindo de humor, como um emocionado Guillermo del Toro, que conquistou o prémio de melhor realizador por “The Shape of Water”, com o mexicano a implorar mais tempo para o seu discurso: “Baixem a música, rapazes. Precisei de 25 anos [para estar aqui]. Dêem-me um minuto”, e também de surpresa. Foi o que sucedeu quando a lenda do cinema Kirk Douglas, de 101 anos, compareceu em palco para entregar um dos Globos de Ouro, recebendo uma enorme ovação por parte do público.

Durante a gala foram entregues 25 prémios, 14 para o cinema e 11 para a televisão. O filme “Three Billboards Outside Ebbing, Missouri” foi o mais premiado da noite, com quatro estatuetas: melhor filme dramático, melhor actriz dramática (Frances McDormand), melhor actor secundário (Sam Rockwell) e melhor roteiro.

Com sete nomeações, “The Shape of Water” foi distinguido com as estatuetas de melhor realizador para Guillermo del Toro e de melhor banda sonora.

Já o britânico Gary Oldman confirmou os prognósticos, conquistando o prémio de melhor actor de drama pelo papel em “Darkest Hour”, enquanto James Franco foi distinguido como o melhor actor de comédia por “The Disaster Artist”.

 

JTM com Lusa e agências internacionais