George Clooney regressou ao festival de Veneza no papel de realizador de “Suburbicon”, retrato ácido dos Estado Unidos na década de 1950, que disputa o Leão de Ouro

 

Acompanhado pela esposa Amal, George Clooney passou pelo tapete vermelho do “Palazzo del Cinema” para a projecção oficial do seu novo filme, co-escrito pelos irmãos Joel e Etan Coen. Sob o brilho dos flashes, o casal mais glamoroso do festival, e que acabou de ter gémeos, foi seguido por outros protagonistas de “Suburbicon”, como Matt Damon e Julian Moore, radiante num vestido longo com um grande decote em V.

Antes do desfile das estrelas, Clooney revelou aos jornalistas que foi amadurecendo a ideia do filme à medida que escutava os discursos da campanha eleitoral de Donald Trump sobre “a construção de muros e as minorias”.

“Suburbicon”, sexto filme de Clooney como realizador, é o nome de um idílico bairro residencial, com quintais, cercas de madeira e crianças a jogar beisebol. Na entrada de cada casa, podem ver-se estacionados desde um Chevrolet a um Oldsmobile.

No entanto, este familiar universo americano, em plena prosperidade, oculta uma história de segregação racial e usura mafiosa que serve de plano de fundo a uma trama sangrenta.

Gardener Lodge, o protagonista interpretado por um Matt Damon mais corpulento do que é habitual, vive com a esposa, Rose, a cunhada, Margaret, e o filho, Nicky. Lodge enfrenta problemas financeiros, Rose culpa-o pelo acidente que o deixou numa cadeira de rodas e Margaret inveja a vida da irmã, mas não são as tensões familiares o foco do filme, que mostra o caos instaurado após um assalto, durante o qual dois homens matam Rose.

Depois dessa tragédia, desencadeia-se uma série de situações inusitadas, como de costume nos argumentos dos irmãos Coen, marcados por uma mistura de luxúria, avareza e burrice, vistas pelos olhos do pequeno Nicky, segundo destaca a agência AFP.

Noutro eixo do filme estão os Meyer, uma família de vizinhos negros. Enquanto Nicky comemora a amizade com o filho deles, Andy, o resto do bairro não é tão acolhedor e a família chega a ser impedida de sair de casa, alvo de manifestações que querem expulsá-los do bairro.

George Clooney garante que queria desconstruir a visão idealizada de uma época da história americana que costuma ser apresentada, sobretudo por Hollywood, como uma era de ouro, repleta de prosperidade e esperança. “Uma pessoa podia conseguir um bom emprego, morar num bairro agradável e começar uma família, desde que fosse branca”, realçou o realizador de 56 anos, ao explicar que “é divertido desmontar essa fachada de vida doméstica perfeita e ver como as coisas podem ficar feias”.

Segundo Clooney, o filme inspira-se na história real dos Meyer, a primeira família negra a instalar-se em Levittown, no estado da Pensilvânia, em 1957. Como mostra o filme, na sua primeira noite no bairro, 500 pessoas foram ao jardim dos Meyer com bandeiras confederadas e cruzes em chamas.

“Quando vemos um filme tratar de raça e intolerância nos anos 50 ou 60, é quase sempre no Sul”, afirmou Clooney.

“Estamos habituados a pessoas com sotaque do Sul usando aquela linguagem, mas, para alguém que é do Kentucky, como eu, é importante discutir se essas pessoas não são os bodes expiatórios dos moradores da Pensilvânia ou de Nova Iorque”, defendeu o realizador.

 

JTM com agências internacionais