Durante um ano, Paen Long dedicou-se a construir o seu próprio avião e aprender a pilotar através de tutoriais na internet. Amanhã, vai tentar descolar com o aparelho para realizar um sonho de infância

 

Cerca de 90 quilómetros a leste da capital Phnom Penh, numa poeirenta oficina da província cambojana de Prey Veng, a silhueta de um avião tem-se destacado entre automóveis desarrumados, peças de veículos e ferramentas espalhadas por todas as partes. E não é um avião qualquer: um tanque de gasolina forma o chassi, um motor de barco adaptado acciona a hélice e outras peças recicladas e em segunda mão compõem o pequeno avião, criando uma rara visão num país onde 80% da população vive em zonas rurais.

Segundo Paen Long, mecânico de profissão, na base do seu projecto esteve uma aterragem forçada sem vítimas, que viu quando tinha oito anos e nunca apagou da memória.

“Era a coisa mais rara que já tinha visto, especialmente neste país. A ideia de construir um avião perseguiu-me durante 20 anos, até que decidi tentar no ano passado”, explicou o cambojano, em recente entrevista à Agência EFE numa das duas oficinas da sua propriedade.

Medindo pouco mais de quatro metros de comprimento e cerca de oito de envergadura, o avião-carro construído nas horas livres do mecânico pesa 200 quilos e custou cerca de 6.000 dólares americanos.

“Estudei no YouTube e na internet, sei como conduzi-lo, como construí-lo e como pilotá-lo”, garantiu Paen Long, destacando que, graças à sua tenacidade, conseguiu solucionar os problemas de engenharia do avião, que utiliza volantes de automóveis para movimentar as asas.

Além disso, Paen Long também visitou um aeroporto militar para pedir ajuda e saiu de lá com uma hélice em segunda mão que, no entanto, perdeu mais tarde: “Depois de ter saído nas notícias, roubaram-me”.

Apesar dos contratempos, o mecânico convertido em piloto pretende testar amanhã o modesto objectivo de “tirar o avião do solo”.

“Ainda não encontrei um lugar, estou a pensar em descolar na estrada, mas tenho medo de chocar com os outros”, declarou, quando ainda faltava cerca de um mês para o “dia D”. “Estou um pouco assustado, mas não muito”, acrescentou.

O projecto de Paen Long converteu-se num dos temas favoritos nas redes sociais do país, fazendo com que a sua oficina acolha diariamente visitantes que querem ver o avião, apesar de muitos terem duvidado de que fosse capaz de criá-lo. “Quando comecei, a minha família apoiou-me muito, embora outras pessoas só me tenham criticado. Começaram a dizer que estava louco”, recordou.

A própria esposa, Hing Mouyheng, admitiu que inicialmente não queria que Paen Long voasse, mas agora está convencida de que “pode voar”. “Preocupo-me com o meu marido mas apoio-o”, afirmou com timidez.

Paen Long garantiu que financiou o avião com “o dinheiro recebido pela reparação de carros” e não tem planos para vendê-lo, mesmo que lhe ofereçam mais dinheiro do que investiu.

Aliás, pretende até construir mais dois aviões, o seguinte “menor, seguro e veloz”, e o terceiro um avião militar.

O pequeno avião não foi inspeccionado por nenhum especialista, sendo que apenas um piloto recomendou modificar a cauda da aeronave após ver uma fotografia publicada nas redes sociais.

Na oficina, os mecânicos e visitantes observam com admiração o trabalho de Paen Long, e todos dão por certo que voará. O taxista e vizinho Tueng Veng resumiu as razões pelas quais o trabalho do mecânico despertou tanta atenção: “Noutros países são aviões grandes, este é pequeno; outros países têm fábricas, nós não”.

 

JTM com agências internacionais