Três cadelas “Border Collie” têm carregado alforjes cheios de sementes, que caem através de orifícios enquanto correm e brincam nos solos queimados pelos graves incêndios no Chile

 

Hoje só restam troncos e terras queimadas onde um dia houve milenares florestas nativas, mas numa cruzada inédita três cadelas da raça “Border Collie” encarregam-se de semear essas zonas devastadas pelos incêndios florestais que atingiram o Chile no início de 2017, os piores já registados no país.

Desde Janeiro, um silêncio mortal invadiu as florestas da região de El Maule, onde o fogo silenciou o chilreio das aves e os uivos das raposas, que morreram ou fugiram das chamas que destruíram mais de 467 mil hectares em todo o país e deixaram 11 mortos.

Porém, desde Março os latidos de três cadelas devolveram a esperança à zona, graças ao seu trabalho minucioso para ressemeá-la com sementes de árvores nativas, pasto e flores, que após germinarem atrairão para a floresta as aves e animais selvagens que fugiram do fogo. “A principal parte principal é que a fauna possa viver”, salientou à agência AFP Francisca Torres, 32, dona das três cadelas que estão a executar esta tarefa titânica.

“Das”, de cinco anos e mãe de “Olivia”, de um ano, ao lado de “Summer”, também de um ano, saem disparadas da camioneta de Francisca rumo ao local que devem reflorestar. No dorso, transportam alforjes repletos de sementes, que deslizam para o solo através de orifícios enquanto correm, pulam e brincam. Quando esvaziam as mochilas, Torres, que também é instrutora de cães para portadores de deficiência, premeia as suas ajudantes com comida, antes de encher novamente as bolsas com sementes. Francisca Torres treinou as cadelas para obedecerem às suas ordens e não atacarem nenhum animal selvagem.

Segundo Torres, directora da Pewos, uma comunidade virtual sobre animais e meio ambiente com mais de 26 mil membros, os “Border Collier” destacam-se pela inteligência, energia e rapidez, e pelo que são ideais para esta missão. Os cães podem percorrer até 30 km num dia e espalhar até 10 quilos de sementes, enquanto um humano apenas poderia semear no mesmo período três quilómetros, explica.

Em três meses, as cadelas já ressemearam 15 florestas da região de El Maule, onde em alguns lugares o pasto voltou a brotar, e já aparecem algumas pequenas árvores e fungos, graças à humidade do inverno austral. “Passámos por umas pradarias que já estão completamente verdes, e isso é trabalho delas três, de Summer, Olivia e Das”, conta Torres, que financia essa tarefa principalmente do próprio bolso, juntamente com algumas doações.

A directora da Pewos espera que no próximo Verão austral as sementes já tenham germinado, que alguns animais – como lobos, insectos, beija-flores, lagartixas, macacos e lebres – retornem às florestas, e que os prados devastados pelas chamas se transformem em pasto para as vacas, cavalos e vitelos de agricultores duramente afectados pelos incêndios. Durante a fase de emergência, voluntários da Pewos conseguiram o apoio de veterinários para tratar cães e gatos que foram queimados nos incêndios.

A esperança é que, quando a Primavera chegar, as flores atraiam as abelhas, que ficaram em situação crítica após a queima de milhares de polinizadoras vitais para a existência da vida. “A situação é super crítica porque elas não têm comida. Geralmente, as abelhas alimentam-se de algumas árvores autóctones que nesta época ainda têm flores, e agora não há nada”, afirmou Constanza, 35, irmã de Francisca.

A Pewos espera que, no prazo de cerca de cinco anos, o trabalho das cadelas permita que as florestas e pradarias recuperem o ecossistema existente antes dos incêndios.

 

JTM com agências internacionais